Teleaulas: Tecnologias Assistivas e Educação Inclusiva.

01/05/2006 - Jornal Diário de Notícias (DN).

A sala de aula dentro de uma tela de computador.

A vida virou do avesso. Na idade de brincar, viram-se de repente lidando com coisas sérias. Problemas de saúde graves que os obrigaram a deixar a escola. Em Portugal há hoje 262 crianças internadas em hospitais e "freqüentando" o ensino através da teleaula. Outras 31 assistem às aulas em casa, por videoconferência. A tecnologia abriu-lhes uma janela e criou uma escola feita sob medida.

De acordo com Filomena Pereira, diretora dos Serviços da Educação Especial e do Apoio Sócio-Educativo, o recurso à teleaula visa dar resposta às "situações limite". É aplicado geralmente a "crianças com internamento prolongado, em casa ou no hospital", muitas com problemas de caráter oncológico, problemas motores graves ou degenerativos. Mas, sublinha, "cada caso é um caso" e as soluções têm que ser adaptadas às necessidades das crianças e das famílias. "Não é tanto uma questão assistencial, e sim uma questão de direito", explica. O processo, admite, "é moroso", mas "não se pode falar em lista de espera".

Hoje, e segundo os dados oficiais, a teleaula chega a crianças internadas em cinco hospitais da região de Lisboa: uma no Garcia de Orta, 24 no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão, 64 no D. Estefânia, 70 em Santa Maria e 103 no Instituto Português de Oncologia. Números que sempre mudam , já que uns voltam à escola ou para casa, outros são traídos pela doença.

Cada unidade trabalha com uma ou duas escolas de referência e há dez professores destacados a tempo integral nos hospitais para dar apoio. "Uma gota num oceano", lamenta Eulália Cordeiro, coordenadora do Centro de Avaliação das Novas Tecnologias da Informação, que gere estes projetos na área da Direção Geral de Educação de Lisboa.

A equipe fez um levantamento junto de todos os hospitais da região e verificou que, dos 60% que responderam, só estas cinco unidades possuíam recursos humanos de educação e recursos tecnológicos para apoiar os alunos do básico. Um cenário que fez Eulália Cordeiro apresentar uma proposta ao Ministério da Educação, para colocar "pelo menos um professor e um posto com Internet em cada hospital".

Rafael estuda sem sair do hospital.

Antes de ter ficado tetraplégico, Rafael nunca tinha mexido num computador. Hoje, com 14 anos, conversa no messenger com os amigos, ouve músicas em MP3, envia e-mails com piadas. Continua sem poder mover o corpo, mas domina o PC. E até vai às aulas, sem sair do hospital. Tudo tocando apenas com a bochecha num sensor.

No Garcia de Orta, em Almada, Rafael encontrou uma casa e uma escola. Ao contrário do que acontece nas outras unidades de saúde - onde a videoconferência é só duas ou três vezes por semana e o aluno vai desenvolvendo as tarefas educativas no resto do tempo - Rafael assiste a todas as aulas das disciplinas que tem este ano no seu currículo: História, Inglês e Matemática - a sua preferida.

"No início foi um bocadinho difícil, mas agora gosto", confessa Rafael num sussurro. O mesmo que o obriga a falar com a turma através de mensagens escritas, no computador, e não via microfone.

Respirando com a ajuda de um ventilador, sentado na cadeira de rodas oferecida pelo seu Benfica, num canto do corredor do serviço de pediatria decorado com posters do clube, espera pela imagem da aula de História. Às 15:23, aparece na tela a sala da escola de Alcabideche. "Já mandei por e-mail a matéria que vamos dar".

Ao lado de Rafael, Fátima, a docente que há três anos o apóia no hospital e diz já ser "da família", vai folheando o manual para ele e ajudando a explicar as instituições políticas de Roma - aquelas que a colega, do lado de lá da tela, vai explicando, em passo acelerado. Através da teleaula, Rafael já completou os 5º. e 6º. anos. Agora no 7º., não desiste. As notas e o modo como organiza minuciosamente os assuntos em pastas, atestam os elogios dos professores: é dos melhores da turma.

Se Rafael aprendeu depressa a tecnologia que lhe permite ir à escola - trocando de aplicações a uma velocidade que desafia qualquer adulto -, entre os docentes a questão não é tão simples. "Este ano ainda há quem lhe envie os testes pelo correio...", conta Fátima.

Herculina, a mãe, ainda chora quando se lembra das três meningites que se seguiram ao acidente de bicicleta e das complicações que o deixaram tetraplégico aos dez anos. A família não tem condições para o ter em casa e por isso Herculina, auxiliar de limpeza, sai todos os dias do trabalho para ficar com ele no hospital das 18:00 às 23:00. Todos os dias da semana exceto um, como ficou combinado, por motivos terapêuticos. "Mas foi preciso começar tudo do zero."

Primeiro, Rafael aprendeu a piscar os olhos para se comunicar. Depois a escolher as letras que a família apontava numa cartolina. Mais tarde a terapia da fala. Hoje, com a tecnologia adaptada, é um ótimo aluno. "Só não gosta de fazer um ano em dois, porque perde o contato com os colegas", diz Catarina, a irmã de 18 anos. "E sabe mais do que eu sobre História..."

E, mesmo depois de tudo o que passou, Rafael não perde o humor. Com a ajuda das enfermeiras, que o chamam de "sobrinho", já pintou o cabelo com água oxigenada e até colocou um piercing na orelha. Já apareceu na televisão, recebeu a visita do Nuno Gomes e do Simão, conheceu um ator dos Morangos com Açúcar. E faz noitadas ouvindo música na "catedral", como chamam ao seu quarto vermelho. A enfermeira Elsy, que o acompanha desde o início, resume a história: "Este rapaz quer e gosta de viver".

Daniela vai ao quadro-negro a partir de casa.

Há um olho mágico que todos os dias filma o interior das aulas e o transmite direto para o computador da Daniela, de 12 anos, que assiste a tudo em casa. A doença arrancou-a da escola e isolou-a entre quatro paredes. Hoje, graças à videoconferência, vê-se de novo entre os amigos do fundamental. Até vai ao quadro, ditando as respostas... ao microfone.

São 11 horas. Na pequena sala da EB2 D. Manuel de Oliveira Perpétua, em Porto de Mós, já há muito tempo que ninguém estranha a câmera colocada no alto da parede de tijolo no fundo da sala. Da mesma forma que que ninguém estranha o computador sempre ligado, por onde vêem Daniela assistindo as aulas a partir de Alcobaça.

Daniela não tem defesas próprias e é portadora de uma doença neurológica, que causa uma deficiência motora progressiva e acentuada. Ou, como explica o colega Pedro, "um problema de nascença que faz com que não se consiga mover e seja muito fraquinha".

Anabela, a professora de matemática, já interiorizou a rotina. Aponta o comando à câmera e obriga-a a virar um pouco, para filmar melhor o que escreve no quadro. Com gestos rápidos, ilustra no fundo verde as noções de percentagem que vai explicando à turma do 6º. ano. E nem se perde no raciocínio, quando avança e tem que puxar o fio do microfone: "Entendeu, Daniela?", vai repetindo. "Sim", sorri a criança, na tela.

Daniela não põe o dedo no ar quando quer responder - diz "eu", ao microfone. E não escreve os exercícios do manual ou preenche com a caneta as fichas e os testes - dita as respostas à mãe ou à professora que a apóia em casa, dependendo do dia. Mas é uma aluna como qualquer outra. Ou talvez melhor. Na seu boletim de notas, só há 9 e 10. E engana-se quem pense que é por ser tratada de modo especial. Quando alguém lhe pergunta "Quer ajuda?", responde "já fiz". E, nos trabalhos de grupo, a sua presença é disputada.

"A Daniela é uma lição de vida", garante Anabela. "Luta, nunca se queixa, faz sempre os trabalhos de casa, só falta se estiver muito doente", como diz Pedro.

A câmera, avisam os alunos, nem sempre vira de imediato e às vezes a imagem falha, "fica toda azul". Mas não é dramático. A turma é a mesma desde o 1º. ano, quando Daniela ainda se sentava na carteira ao lado dos colegas. Depois a doença foi-se agravando e deixou de ir. Hoje, e desde Janeiro de 2005, após dois anos sem ir à escola, Daniela está de volta. E até Ricardo, o bagunceiro da turma, sabe os cuidados necessários para que a aula seja bem sucedida. "Não podemos fazer muito barulho." O que "às vezes é difícil".

"É uma turma muito humana", conta Anabela. E especial: foi a mesma que há quatro anos viu a roda de um caminhão invadir o recreio e tirar a vida a uma colega...

Benjamim Gil, o diretor da escola, não desistiu até instalar a videoconferência. Mas foi complicado, conta, "a manutenção era dispendiosa". Foi então que conseguiu um acordo com a Fundação PT, que queria testar uma nova tecnologia de teleaula e é quem cobre todos os encargos, desde o início.

Os amigos têm saudades de brincar com Daniela. E talvez por isso se empenhem tanto em incluí-la nas brincadeiras, conversando e cantando com ela ao microfone, no final da aula, ou enviando-lhe fotos de todas as atividades. É que, como confessa Ricardo, "é bom tê-la no PC, mas não é a mesma coisa".


Jornal Diário de Notícias (DN) - Portugal, 01/05/2006.