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As Porcelanas.

18/01/2007 - Lêda Lucia Spelta.

Peças de porcelana; milhares; milhões; bilhões de porcelanas espalhadas por todos os recantos do mundo; vivendo sob as mais diversas condições climáticas, econômicas, sociais, políticas, afetivas. Seres frágeis, sutis, delicados; e, ao mesmo tempo fortes, úteis, resistentes. Fragmentam-se em mil pedaços ao menor descuido; ou suportam elevadas temperaturas por longo tempo. Expostos a toda sorte de riscos e intempéries; às vezes merecedores de grandes cuidados.

Como saber, quando alguém os toma nas mãos, se um artista sensível e criterioso, para realizar uma delicada pintura que lhes complemente o estilo e lhes proporcione maior valor e beleza, ou se algum distraído, desastrado ou raivoso que, lidando desajeitada ou displicentemente com a peça, vai causar nela algum dano, uma lasca ou uma rachadura, ou mesmo fazê-la em pedaços?...

Algumas peças saem com defeitos de fabricação; elas são destruídas ou comercializadas abaixo do custo; são peças praticamente sem valor algum; rejeitadas; estigmatizadas; deficientes. Outras, apesar de terem passado pelos mais rigorosos controles de qualidade, adquirem sequelas durante sua existência.

Tais sequelas e defeitos podem ser agrupados em duas categorias distintas, representadas pelas lascas e pelas rachaduras. À primeira dessas categorias pertencem os defeitos mais superficiais e, em geral, mais aparentes. Imperfeições de acabamento, pinturas grosseiras e, especialmente, todas as lascas e quebraduras superficiais.

Imaginemos, por exemplo, uma peça onde falta um dos pés de apoio e que necessite, por este motivo, de se utilizar de algum objeto externo para se manter na vertical. Quem vai querer comprar um jarro sem pé? Ainda que o vendedor se comprometa a mandar junto a caixa de fósforos, apoio perfeito, sem cobrar qualquer adicional pela gentileza.

Imaginemos, agora, uma peça que seja incapaz de reproduzir o som característico da porcelana, por mais habilmente que seja tocada. Qual de nós acreditaria que se trata de porcelana de verdade?

Pertencem, ainda, a esta categoria, algumas características que, embora não possam ser consideradas precisamente como defeitos, funcionam, na prática, como tal. Imaginemos, por exemplo, que, em determinada época, porcelana negra seja fabricada ou transportada para um lugar onde somente a branca é valorizada. Podemos pensar, ainda, no destino que teria, se caísse em nossas mãos, a porcelana fabricada por um povo considerado inferior ou inimigo.

A segunda categoria de imperfeições é constituída, fundamentalmente, pelas rachaduras. Frequentemente sutis, pouco aparentes, comprometem menos a estética que a estrutura. Qualquer comprador, suficientemente esperto para recusar uma peça com defeitos que pertencem à primeira categoria, corre o risco de levar para casa uma porcelana com rachadura. Ela pode permanecer imperceptível por muito tempo, mas revela-se drasticamente quando a estrutura da peça é exigida naquele ponto vulnerável.

A menos que já se encontrem em estado avançado, as rachaduras só são percebidas por especialistas, colecionadores ou por observadores atentos, sensíveis e criteriosos.

Muitas peças não sabem que possuem rachaduras; e vivem tranquila e displicentemente, até que... Outras vivem atormentadas pela dúvida, sem querer ou conseguir averiguar a verdade. Elas não sabem que a dúvida sobre sua integridade já constitui um tipo de rachadura. Existem, ainda, aquelas peças que já adquiriram alguma consciência do seu verdadeiro estado; e vivem em permanente sobressalto.

Mas, às vezes, ocorre que, por ironia, descuido, maldade ou sabedoria da natureza, e para infelicidade e prejuízo dos museus, especialistas e colecionadores, as peças defeituosas sobrevivem, teimosamente, enquanto as mais belas e perfeitas, na primeira oportunidade, espatifam-se no chão.


Revista Alternativa, março de 1985.
Por Lêda Lucia Spelta.

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