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Página principal » Preconceito e Discriminação » Cabelo Ruim - Movimento de Consciência Negra.

Cabelo Ruim - Movimento de Consciência Negra.

21/11/2008 - Moraes Júnior*

Uma das expressões mais comuns usadas para designar cabelos crespos é: "fulano tem cabelo ruim". Mas, quem definiu que os cabelos de negros e mestiços são "ruins"?

A referência negativa aos cabelos é apenas uma delas. Os negros têm "nariz de bola" e, quando alguém exala algum odor hormonal "fede a negro". Aliás, expressões que eternizam nossa herança escravocrata aparecem até em palavras usuais. Certa vez, conversando com militantes de um movimento da periferia de Maceió, usei a palavra denegrir. Imediatamente fui apartado por um dos interlocutores que me ensinou que a palavra significa "tornar negro". Ou seja, depreciar alguém, atentar contra a imagem dela, ofendê-la, enfim, denegri-la é "rebaixar" à condição de negro, de acordo com o significado da palavra.

E a "condição de negro" é tão desconfortável para grande parte da sociedade, que deve ser impronunciada. Minha filha, por exemplo, tem a pele branca. Certa vez na escola ela disse em sala de aula que eu e o irmão dela éramos negros. Outra criança a repreendeu: "não diga isso, chamar o seu pai e o seu irmão de negros". Assim também ocorre sempre que minha esposa menciona que o marido é negro. Há ritualmente alguém para dizer que "ele não é negro, é moreno claro. Ele nem tem traços de negro".

Contudo, afirmar-se como negro não é tarefa fácil nem mesmo entre os negros. Surpreendi-me certa vez diante do orgulho de uma militante do movimento negro de Alagoas. Ao ver que havia deixado o meu cabelo crescer, ela vibrou como se aquela atitude correspondesse a aceitação da minha cor. Brinquei na ocasião. Disse-lhe que eu sempre me assumi como negro, o movimento negro é que não me assumia como tal. Deduzi, então, que para "ser negro" tem que ter cabelo "rasta" ou black power, vestir mantas com motivos tribais e jogar capoeira. É como se todo branco tivesse que saber dançar o Fado ou tomar o chá das cinco, porque sua origem é européia.

O fato é que estamos às vésperas do Dia da Consciência Negra, 20/11. Confesso que não sou um estudioso da questão racial. Mas, sei o que é ser vítima de preconceito, do pior tipo, diga-se, aquele velado. Desses em que as oportunidades chegam para todos menos para você. Ou, como ocorreu numa viagem recente de avião, deixar de ser atendido pela aeromoça porque sentei ao lado de trabalhadores da construção civil que voltavam de uma empreitada.

Porém, quero acreditar que ter consciência da minha cor significa olhar para mim e para os meus como tão belos e iguais quanto qualquer outro. Mas, acreditar nisto com tanta convicção que a energia exalada impregne a percepção dos que nos cercam com os seus preconceitos ou simplesmente ignorância. Afinal, faço minhas as palavras de Chico César: "respeitem meus cabelos BRANCOS".


* Moraes Junior é administrador, servidor público do MPT e liderança sindical da categoria em Alagoas.

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