Audiodescrição para pessoas com baixo letramento

02/07/2014 - Ana Maria Lima Cruz, Letícia Schwartz e Marilena Assis 2.

UMA EXPERIÊNCIA COM AUDIODESCRIÇÃO PARA PESSOAS COM BAIXO LETRAMENTO
NO CENTRO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DOS TRABALHADORES PAULO FREIRE (CMET),
EM PORTO ALEGRE, RIO GRANDE DO SUL1.

O relato a seguir é resultado do trabalho de conclusão da disciplina Inclusão Cultural das Pessoas com Deficiência e os Diferentes Públicos da Audiodescrição, ministrada pelas Professoras Marta Gil e Cristiana Cerchiari, do I Curso de Especialização em Audiodescrição promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, sob coordenação da Prof.ª Dr.ª Eliana Lúcia Ferreira e da Dr.ª Lívia Maria Villela de Mello Motta.

A tarefa em questão consistia em realizar uma sessão de cinema com audiodescrição para espectadores videntes3 , contemplando um segmento de público que pudesse ser beneficiado pela audiodescrição. A atividade, realizada no Centro Municipal de Educação Paulo Freire (CMET), na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, foi dirigida a um grupo de quatorze alunos das Totalidades Iniciais, na faixa etária dos 23 aos 82 anos. O grupo era composto, majoritariamente, por idosos, e incluía jovens com deficiência intelectual, todos em processo de alfabetização. Foram utilizados três curtas-metragens de animação, com duração máxima a 10 minutos, a fim de promover espaços de discussão entre um e outro e favorecer a construção de conhecimento no decorrer da atividade. Nosso objetivo era verificar de que maneira o recurso da audiodescrição poderia beneficiar uma plateia cuja particularidade é o baixo letramento.

SEGUNDA-FEIRA, 05 DE MAIO DE 2014.

Maria da Paz, 82 anos, aguarda ansiosamente pela aula de música da segunda-feira. Dona de um vozeirão de contralto e de uma vitalidade de causar inveja, tem uma rotina intensa, que inclui as aulas do CMET, um curso de dança e apresentações com o coral da escola, sem descuidar da família e da vida comunitária.

No dia 05 de maio, porém, Maria da Paz foi pega de surpresa. As cadeiras da sala, normalmente dispostas em círculo, formavam uma plateia. Em frente ao quadro branco, um projetor ligado. Cinema? E a aula de música, cadê?

Mas a animação de Maria da Paz não é de se apagar por coisa pouca! E uma atividade diferente assim, para começar a semana, logo mereceu um sorriso aberto.

A bem da verdade, também nós fomos pegas de surpresa. Fazia duas semanas que havíamos combinado com a professora e com a direção todos os detalhes sobre a sessão com audiodescrição. A atividade aconteceria no horário da aula da professora Daisy Erig e contaria com 20 a 30 alunos em fase de alfabetização. Em uma reunião posterior, porém, ficou decidido que a manhã de segunda-feira – da nossa segunda-feira – seria dedicada a uma importante assembleia de alunos. Em meio a decisões de última hora, a sessão de cinema foi esquecida. Nossa chegada à escola, cheias de empolgação, gerou uma situação um pouco constrangedora. Bem pouco, pois o diretor do CMET logo se colocou à disposição para encontrarmos um meio de salvar a situação. O apoio da professora e do diretor, sempre simpáticos e participativos, foi fundamental para o bom andamento da atividade.

Em vez de 30 alunos, tivemos 10. Isso no início da sessão, pois ao final da assembleia chegamos a uma plateia de 14 alunos, além da professora Daisy, que acompanhou toda a atividade. O número reduzido terminou por se mostrar favorável, oportunizando um bate-papo mais participativo. O grupo era acolhedor e extremamente animado. O fato de serem colegas de classe facilitou bastante nosso trabalho, pois havia desde o início uma excelente interação entre eles.

O grupo era formado por idosos entre 66 e 82 anos, além de dois adultos (de 23 e 32 anos) com deficiência intelectual, todos alunos das Totalidades Iniciais, equivalente aos primeiros anos do ensino fundamental. Pessoas de baixa renda, com carência não apenas de recursos materiais, mas também sociais e culturais. Esses fatores levaram-nos à primeira de muitas reflexões: o analfabetismo, funcional ou não, tem sempre sua razão de ser. A idade avançada, a deficiência intelectual e a necessidade de abandonar os estudos para trabalhar são apenas alguns exemplos. Percebemos que não seria possível avaliar o público com baixo letramento apenas sob essa ótica, uma vez que esses espectadores se enquadravam também em outros grupos potencialmente beneficiados pela audiodescrição. Seria necessário, então, adequar nosso planejamento inicial, a fim de melhor atendermos à diversidade do público.

De certa forma, estávamos preparadas para isso. Apesar de termos estudado os textos sugeridos pelas professoras, do compartilhamento de vivências e experiências regado a café com biscoitos, de um planejamento concreto e bem estruturado, sabíamos que nada, nunca, acontece conforme o esperado. Estávamos certas de que toda a preparação tinha por objetivo, apenas, nos deixar mais seguras para lidar com tudo aquilo que pudesse surgir de inesperado. Animadas com a atividade, dividimos funções como quem divide doce: cada uma querendo ficar com a porção maior. A Marilena, que conhecia a turma, ficou responsável por puxar conversa; à Ana Maria coube a gravação e a edição do vídeo; e Letícia assumiu a redação do relatório.

Chegamos cedo, para dar tempo de lidar com qualquer eventualidade (tal como uma assembleia de alunos programada para o mesmo horário da atividade). Além disso, queríamos ter tempo disponível para observar um pouco o público durante o horário do lanche e aproveitar a oportunidade para uma aproximação mais informal.

Como teríamos apenas duas horas para a atividade, concluímos que um longa-metragem não seria a melhor alternativa. O grupo teria melhores condições de concentração e compreensão se utilizássemos filmes curtos. Além disso, um filme de 90 minutos ou mais nos deixaria sem tempo para conversar com os espectadores. E como queríamos conversar com os espectadores!

Optamos pela apresentação de três curtas-metragens, com consentimento das professoras Marta e Cristiana: A Improvável Todavia Autêntica História do Anão que Virou Gigante, Imagine uma menina com cabelos de Brasil e Os Olhos do Pianista4. A seleção obedeceu a dois critérios diferentes: o conteúdo social, que poderia provocar a reflexão e alimentar o debate, e a adequação à proposta da professora Daisy, que desenvolve com os alunos o projeto “Corpo e Som”.

Para uma avaliação mais precisa dos resultados, decidimos inserir um momento de conversa informal ao final de cada um dos curtas. Esse recurso possibilitaria, ainda, uma aproximação gradual do público com a audiodescrição e, consequentemente, uma compreensão mais ampla do conceito e dos benefícios proporcionados por essa ferramenta.

VÍDEO 1: A IMPROVÁVEL TODAVIA AUTÊNTICA HISTÓRIA DO ANÃO QUE VIROU GIGANTE.

Começamos por A Improvável Todavia Autêntica História do Anão que Virou Gigante. A animação, baseada em um caso real, conta a história de um rapaz de 1,20 de altura que, aos 20 anos de idade, começa a crescer até tornar-se um gigante. O curta mostra as dificuldades pelas quais o personagem passa nas duas etapas de sua vida e evidencia o preconceito sofrido por aquele que é diferente dos demais.

Não mencionamos a audiodescrição. Nossa intenção era observar se os espectadores identificariam ou não a presença dessa narração adicional, se estranhariam ou aceitariam com naturalidade.

O grupo assistiu em silêncio. Um silêncio que tinha diferentes significados, decifráveis apenas pela expressão de cada um. Alguns pareciam cansados. Outros, educados, apenas. A maioria, porém, demonstrava atenção e interesse.

Iniciamos nossa abordagem buscando verificar a compreensão da história e as possibilidades de relação com o cotidiano do grupo. Perguntamos sobre os percalços de ser anão ou gigante. O assunto despertou o interesse de Terezinha, 73 anos, que mostrou-se surpresa por jamais ter parado para pensar nas dificuldades que uma pessoa com nanismo enfrenta em seu dia a dia. Ela também falou sobre um vizinho com 2,30 metros de altura e relatou as situações de preconceito pelas quais ele passava, “porque quando ele trabalhava no porto, ele era a única criatura assim”. Segundo ela, a situação seria melhor hoje em dia, pois “hoje os jogadores de basquete são o máximo”.

Apesar de fazer parte do grupo com relação à faixa etária e ao baixo letramento, Terezinha evidencia um nível sociocultural diferenciado. Seus comentários, ao longo de toda a atividade, demonstraram profunda compreensão, capacidade de interpretação e habilidade para fazer relações entre os filmes apresentados e a realidade. Terezinha era a única participante com baixa visão e acreditamos que a audiodescrição tenha sido um fator decisivo para que ela chegasse a tal nível de compreensão sobre essa e as demais animações.

DESCOBRINDO A AUDIODESCRIÇÃO.

Em seguida passamos a averiguar a percepção do público sobre a audiodescrição. Perguntamos se haviam percebido “alguma coisa diferente” no filme, mas o grupo não conseguiu responder. Então, apresentamos um pequeno trecho do filme sem e com audiodescrição, para que pudessem comparar. Ainda assim, tiveram alguma dificuldade. Foi preciso que chamássemos a atenção deles para o fato de que, na primeira versão, tínhamos apenas a voz do personagem, enquanto que na segunda havia sido acrescida uma voz feminina. O grupo acreditou que fosse a voz de algum personagem. Insistimos, pausando o filme ao longo de uma descrição mais longa para que tivessem tempo de vincular cada trecho do discurso à imagem que aparecia na tela. A empolgação era crescente, era possível ver nos olhos de cada um o momento em que percebiam a função da “voz”. Foi Terezinha quem conseguiu colocar em palavras: “a voz da mulher vai descrevendo o que está acontecendo!”.

A partir da compreensão do conceito, Marilena pôde relatar para o grupo a importância da audiodescrição para quem tem deficiência visual. O fato dessa informação partir de uma professora cega teve grande efeito sobre os alunos, pois imediatamente conseguiram vincular o recurso a colegas com quem convivem no próprio CEMET.

Chamou a atenção o fato de reagirem mais intensamente ao trecho sem audiodescrição. Riam nos momentos oportunos e teciam breves comentários acerca da situação do personagem. Atribuímos isso ao fato de estarem assistindo pela segunda vez e de termos discutido o filme juntos. Além disso, a versão sem audiodescrição deixava espaços de silêncio, que bem podem ser qualificados como “respiros”. Esses momentos favorecem a reflexão, ainda que breve, e possibilitam uma rápida troca de ideias entre os participantes, o que funciona como um suporte à compreensão. Nesse sentido, percebemos que a audiodescrição pode ser recebida por esse público como um agente poluidor da mensagem. Cabe observar que Terezinha, devido à baixa visão, permaneceu alheia aos risos e aos comentários durante a exibição sem audiodescrição.

VÍDEO 2: IMAGINE UMA MENINA COM CABELOS DE BRASIL.

Para introduzir o segundo curta-metragem e consolidar a compreensão sobre a audiodescrição, projetamos um quadro de Imagine uma menina com cabelos de Brasil e pedimos que o grupo o descrevesse, para que Marilena pudesse ter acesso à imagem. Todos foram muito participativos. Concluíram, num primeiro momento, que se tratava de uma mulher com o cabelo “todo em pé” e que dava a impressão de que atrás dela havia um mapa do Brasil. A partir dos nossos questionamentos, Gregory, que tem deficiência intelectual, arriscou que o mapa estivesse na cabeça da personagem e que fosse constituído de cabelos. A grande controvérsia ficou por conta de um pequeno objeto depositado sobre a mesa, à frente da personagem. Seria uma escova? Um balão? Uma raquete? Uma bolsinha?

O resultado dessa aproximação com o filme apareceu já na primeira imagem. A leitura do título (Uma menina com cabelos de Brasil) foi suficiente para provocar uma reação imediata, pois confirmava o que haviam concluído pela observação atenta da imagem. Já na primeira cena, a menina faz uso do tal objeto controverso – um espelhinho de mão -, mantendo os alunos concentrados na resposta à charada.

Como consequência desse processo, a projeção contou com um público ainda mais atento e envolvido. Começavam a relaxar e a efetivamente aproveitar a sessão. A concentração dos alunos foi fundamental nesse momento, pois a animação é bastante exigente. Ela retrata a relação do Brasil com outros países através de um grupo de meninas cujos cabelos têm a configuração dos mapas. O desprezo dos países do G8, a amizade da Índia e da África e o descontentamento do Brasil com sua própria cabeleira são algumas das questões levantadas pelo filme. Aqui, a descrição das imagens ganha uma importância ainda maior, pois a identificação dos diferentes mapas é imprescindível para a compreensão da história.

Mais uma vez, foi Terezinha quem saiu na frente: “Eu achei uma coisa fantástica, a pessoa ter a ideia de fazer uma coisa assim, formar os mapas nas cabeças, com os cabelos das pessoas... E mostrar o preconceito que tem uns com os outros.”

Ainda com a intenção de verificar a importância da audiodescrição, perguntamos a Gregory o que cada uma das meninas comia na hora do recreio. A imagem em questão não é óbvia e a audiodescrição identifica aquilo que só um olhar treinado conseguiria perceber. Para ajudar, reprisamos a cena. Com isso, Gregory teve bastante facilidade em responder.

Os participantes aprofundaram a discussão sobre o filme relacionando-o ao momento atual, com a proximidade da Copa do Mundo e a aguardada visita das seleções de outros países. Demonstraram estranhamento sobre a relação de amizade entre Brasil e Índia (“A Índia eu nem sabia que tinha grandes contatos, uns com os outros. Se bem que agora vão trazer carros da Índia pro Brasil”, diz Terezinha, muitíssimo bem informada sobre os rumos da importação.)

Reconheceram, ainda, que o curta poderia ter uso pedagógico para o ensino de Geografia e História, assim como para práticas sobre interação, sociabilização e convívio sem preconceitos.

Marilena relacionou o projeto da professora Daisy, “Corpo e Som”, com o áudio do filme apresentado, onde efeitos sonoros desenham imagens para o espectador cego: um fio de cabelo da menina Brasil que se empina fazendo “tóin”, a imitação de macaco feita pela menina Estados Unidos, a tagarelice das colegas do G8, o choro contido da menina África. Isso deixou os alunos mais atentos à presença de informações sonoras nos filmes.

A AUDIODESCRIÇÃO E A AQUISIÇÃO DE VOCABULÁRIO.

Queríamos verificar, ainda, se a audiodescrição poderia servir como ferramenta para aquisição de vocabulário. Então pedimos que todos colocassem um braço na vertical. Nenhum dos participantes pareceu entender o comando (com exceção de Terezinha, que teve as mãos contidas por Marilena para não entregar a resposta). Voltamos a projetar a cena em que a menina Brasil segura uma escova de cabelos junto ao corpo, na vertical, fato que é mencionado pela audiodescrição. Relacionando imagem e discurso, além da ajuda da professora Daisy, três alunos conseguiram posicionar o braço conforme solicitado.

A associação entre imagem e palavra pode favorecer a aprendizagem, uma vez que promove a compreensão de conceitos e significados. A tradução de imagens em palavras é responsável por nomear aquilo que descreve, permitindo a incorporação de novos termos ao universo linguístico dos espectadores. Assim, a audiodescrição revela-se um instrumento facilitador da aquisição de vocabulário, beneficiando, nesse sentido, um público bastante amplo, que inclui pessoas com deficiência visual ou intelectual, adultos com baixo letramento e estudantes do português como segundo idioma. Reiteramos a importância desse recurso, uma vez que o domínio da língua aumenta em muito as possibilidades de inclusão social.

VÍDEO 3: OS OLHOS DO PIANISTA.

Para encerrar a programação, exibimos Os Olhos do Pianista. Na animação, uma menina é responsável por orientar um velho pianista de cinema. Ele é cego e é ela quem acompanha as imagens do filme, comunicando cada mudança de cena através de diferentes toques no corpo do pianista.

Com a chegada de novos espectadores à sessão, resolvemos retomar o conceito da audiodescrição. Dessa vez, não foi difícil perceberem que havia “uma pessoa narrando”.

Em seguida, começamos a conversar sobre o filme. A atenta Terezinha foi a primeira a se manifestar: “O pianista era cego, né?”. Os colegas, no entanto, não haviam identificado essa característica do personagem, fundamental para a compreensão do enredo. Podemos questionar a eficácia da audiodescrição nesse sentido. A audiodescrição menciona que a menina estende a mão para o pianista cada vez que chegam a algum lugar, mas não “entrega” a intenção de guiá-lo (o próprio filme não deixa isso evidente). É dito, também, que o homem usa óculos escuros dentro do cinema e que é a menina que mantém os olhos fixos na tela. Trata-se de descrições objetivas, que traduzem precisamente o que aparece na tela e deixam qualquer conclusão por conta do espectador. Com pessoas que apresentam dificuldade de aprendizado ou deficiência intelectual, teria sido importante acrescentar breves comentários que orientassem a compreensão propriamente dita. Parece-nos que esse grupo de espectadores exigiria uma audiodescrição de caráter mais informativo, que estimulasse não apenas a compreensão das imagens, mas a contextualização das mesmas para entendimento da obra como um todo.

A professora Daisy relacionou a animação aos filmes de Charles Chaplin para que os alunos identificassem as características do cinema mudo e acrescentou a informação, nova para eles, de que essas sessões contavam com um pianista que executava a trilha sonora ao vivo. Os alunos ainda tiveram alguma dificuldade em perceber a importância da visão para que o pianista acompanhasse o andamento do filme. Repetimos o trecho em que a menina tocava no pianista para orientá-lo em relação à trilha, a fim de que identificassem com maior clareza o código através do qual ela comunicava cada cena ao pianista.

Aproveitamos a animação para, mais uma vez, explorar o vocabulário. Na última cena, a audiodescrição afirma que a menina fica ruborizada. Foi o termo que escolhemos para verificar se o casamento entre imagem e discurso poderia promover a aquisição de novos conceitos. Os alunos responderam de maneira favorável, identificando que a menina havia ficado vermelha.

Sugerimos ainda uma dinâmica que tinha por objetivo avaliar a compreensão do filme, agregando à atividade conceitos de “corpo e som” propostos pela professora Daisy e vinculando a brincadeira ao processo de alfabetização. Pedimos que formassem uma corrente humana, à semelhança daquela que aparece na animação. Definimos um código, onde diferentes toques eram relacionados a cada uma das vogais (topo da cabeça = A; ombro = E; cotovelo = I; pulso = O; dedos da mão = U). O primeiro participante deveria tocar no colega ao lado, que reproduzia o movimento até chegar ao último da fila, responsável por verbalizar a vogal. A atividade foi bem recebida pelos alunos, mas foi necessário partir do nível mais básico de compreensão, preservando a ordem das vogais.

Ao final, a professora Daisy abordou a importância do saber se relacionar com o outro, independentemente de qualquer dificuldade física ou sensorial. Falou sobre a importância da audiodescrição para quem tem dificuldade de leitura, seja por baixo letramento ou idade avançada, uma vez que a audiodescrição mencionará tudo o que estiver escrito na tela. Mencionou, também, a necessidade de que a escola perceba as necessidades de cada um de seus alunos e professores, pois todos são diferentes.

Nesses instantes finais, foi Ana quem colocou em palavras aquilo que nós mesmas estávamos sentindo: “Eu acho que isso aí tem que passar mais vezes.”

E como todo grande evento merece um grand finale, o grupo nos presenteou com uma apresentação do Hino do CMET. O hino, que foi composto pelos próprios alunos e tem por tema a inclusão e o respeito a todos, é motivo de orgulho para cada um deles. Para nós, a trilha sonora fechava com chave de ouro um processo que teve início em meados de abril.

ALGUMAS CONCLUSÕES.

Nossa sessão de cinema demonstrou que o público em questão – formado por pessoas com baixo letramento, idosos e pessoas com deficiência intelectual – não reagiu de forma entusiástica à audiodescrição. Restringiram-se a observar que o recurso “não atrapalha” a compreensão e identificaram a importância da ferramenta para pessoas com deficiência visual, ainda que não percebessem os benefícios que poderia trazer para si próprios. No entanto, a partir das respostas aos questionamentos e atividades propostos, avaliamos que a audiodescrição serviu, sim, como suporte à compreensão, ainda que isso não tenha sido percebido pelos espectadores de maneira consciente.

O grupo evidenciou grande alegria com a atividade e chegou a reflexões bastante profundas, tendo sempre por foco o conteúdo das animações, e não a audiodescrição. Acreditamos que o recurso tenha atuado como estímulo, mas ressaltamos a importância da condução das atividades por parte das autoras e da professora Daisy Erig para que os alunos chegassem àquele nível de compreensão.

A audiodescrição pode servir como apoio para conduzir o olhar de espectadores com baixo letramento e/ou deficiência intelectual, ajudando-os a mergulhar na obra, dando suporte à aquisição de vocabulário e conhecimento, acompanhando-os em seu mergulho nas emoções.
Porém o modelo atual de audiodescrição, que tão bem atende às necessidades das pessoas cegas e com baixa visão, não nos parece inteiramente eficaz para o público pesquisado. A audiodescrição tem por objetivo a tradução visual, evitando, sempre que possível, a interpretação dos fatos. Para pessoas com dificuldade de compreensão (seja devida ao analfabetismo, à deficiência intelectual ou a qualquer outra condição), talvez fosse interessante desenvolver um tipo de tradução que servisse de apoio, justamente, à interpretação.

O presente relato não tem a pretensão de definir regras ou parâmetros para a produção da audiodescrição, ou mesmo oferecer argumentos a favor de um serviço específico para um público caracterizado pela dificuldade de compreensão. Nossa atividade foi dirigida a um grupo restrito e seus resultados não representam conclusões definitivas, tendo, apenas, um valor de amostragem Nosso objetivo é tão somente propor a experimentação e a troca de experiências adquiridas pela prática e apontar para a necessidade de investigações mais amplas e mais profundas no sentido de melhor atender a todos os beneficiários da audiodescrição.


1- O presente relatório é complementado por um vídeo com fragmentos da atividade, que pode ser acessado pelo endereço http://youtu.be/4L30mWVG1MESite Externo..
2- Ana Maria Lima Cruz é professora do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Maranhão, Mestre em Educação pela UFMA e Doutoranda em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Marilena Assis é professora especialista na área da deficiência visual nas redes municipal e estadual do Rio Grande do Sul, Mestre em Gestão e Política da Educação e consultora em audiodescrição.
Letícia Schwartz é audiodescritora-roteirista e narradora da empresa Mil Palavras.
As autoras são pós-graduandas do Curso de Especialização em Audiodescrição pela UFJF.
3- Pessoa dotada da capacidade de visão (em oposição a cego), conforme definição do Dicionário Aulete.
4- As animações utilizadas para a atividade estão disponíveis no You Tube e podem ser acessados a partir dos seguintes links: http://youtu.be/DzeeVPGN--QSite Externo., http://youtu.be/KC19s0WGsFQSite Externo. e http://youtu.be/y-j-1zR0YL8Site Externo..