Crônica de Affonso romano de Sant'Anna.

Sopro no Corpo: Vive-se de Sonhos.

E se você, garotão, tivesse nascido diabético e, por causa disso, na adolescência, descobrisse que estava ficando impotente, e que isso iria acarretar uma série de constrangimentos ao começar o flerte com uma garota?

E se você, por causa da diabetes e porque sendo jovem, continuasse a viver todos os prazeres nas praias e festas, bebendo, fumando até que, de repente, aos 21 anos a cegueira desabasse sobre você, subitamente...?

E se você, além de diabético e de ficar cego, um dia estivesse na garupa de uma moto e sofresse um acidente com fratura exposta, que lhe botasse de cama muito tempo?

E se você, diabético, cego, fraturado, acabasse, lá pelas tantas, tendo que fazer um inevitável transplante de pâncreas?

E, como se não bastasse, daí a pouco tivesse que fazer um transplante de rim?

Se você fosse assim, se eu fosse assim, teríamos todas as razões para dizer fiquem aí com esse mundo de Deus-e-do-diabo, estou tirando o time, desse jeito não dá para jogar nem na defesa nem no ataque.

Mas não foi isso que aconteceu com Marco Antonio de Queiroz. Ao contrário de Dalida, aquela ex-miss Egito, linda e rica, que sem nenhum desses problemas resolveu se matar, MAQ, como seus amigos o chamam, virou excelente técnico em informática, casou-se com Sônia, teve o filho Tadzo, é dono de um humor inacreditável, uma juventude permanente nos seus quarenta e tantos anos e, diria, é uma pessoa mais feliz que 80% das que conheço. É ver para crer: entrem no site que ele preparou www.bengalalegal.com e vocês terão uma idéia do que digo.

Depois, leiam o livro que ele acaba de lançar, Sopro no corpo (Editora Rima Especial). E como sei que a distribuição de livros é problemática, dou o telefone, (16) 3372-3238 e o endereço da editora: www.rimaeditora.com.br.

Marco Antônio de Queiroz, com esse livro, lembra-me a inesquecível frase de Álvaro Moreyra nas suas memórias: "Em vão, quiseram amargurar a minha vida. Não adianta. Eu tenho diabetes na alma".

Eis um livro bem escrito. Ele sabe descrever cenas, fazer diálogos e tem uma auto-ironia primorosa e desconcertante. Se vivesse nos Estados Unidos, Marco Antônio estaria milionário fazendo conferências para essas multinacionais que convidam "cases" de sucesso na vida para estimularem seus executivos a produzir mais.

Não vou tirar o prazer e a surpresa da leitura daqueles que se interessarão pelo livro. Destaco apenas uma cena final em que ele, depois de ter exaurido o processo de hemodiálise, narra a expectativa de alguém se oferecer para lhe doar um rim. Um dia, uma colega de trabalho no setor de informática do SERPRO lhe diz: "Marco, eu sonhei que estava num ambiente, não sei qual ao certo, sentindo muita dor em um dos lados do meu corpo. Quando olhei para a frente, vi alguém vestido de branco e com um rim enorme nas mãos, eu até via o rim pulsando" "E o sujeito do sonho me disse: -- Esse rim é maravilhoso, é muito saudável e, durante muitos anos, vai deixar também saudável quem o receber".

Pois essa moça que tinha uma filha, ante o espanto de Marco Antônio, oferece-lhe seu rim para o transplante. Detalhe: a moça também era cega. E o autor comenta: "Os amigos de dentro e de fora do trabalho até hoje brincam comigo que, pelo rim transplantado ser de uma mulher, eu passara a urinar sentado. Depois, veio o pâncreas de outra mulher. Agora, comentam que, se eu transplantar novamente e se a cirurgia for abaixo da barriga, vão passar a me chamar de Márcia. Tudo bem, sem preconceitos, mas acho que não vou transplantar mais não!".

É ver para crer. Ou melhor, é ler para ver como enfrentar tragédias e dar a volta por cima e como, apesar das amarguras, preservar a doçura de viver.

Affonso Romano de Sant'Anna.


Jornal Correio Brasiliense.
Jornal Estado de Minas.
Domingo, 19 de junho de 2005.