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Marco Antonio de Queiroz, carioca de 29 anos, programador de computadores, ao decidir relatar sua vida teve todos os elementos para escrever um livro amargo e pesado. Diabético desde os 3 anos, Queiroz passou dois anos impotente e ficou definitivamente cego há oito anos, devido à doença. O autobiográfico Sopro no Corpo, porém, é um livro que passa ao largo da pieguice para contar sem mágoas como um jovem enfrenta sua tragédia pessoal. Logo nas primeiras páginas do livro de Queiroz o leitor faz a comparação inevitável com Feliz Ano Velho, o supersucesso de Marcelo Rubens Paiva. Os dois livros foram escritos a partir de acidentes sofridos por seus autores, que, a partir desses desastres, reconstituíram suas vidas desde a infância até o surgimento do grande problema - a paralisia, no caso de Marcelo Paiva, e a cegueira, no de Queiroz.
Passadas as primeiras páginas, percebem-se as diferenças entre Ano Velho e Sopro no Corpo. Enquanto Paiva enfatizou suas experiências na adolescência para construir um painel da juventude da sua geração, Queiroz voltou-se mais para a sua doença. É a partir da doença que ele mostra a reação das pessoas e o seu difícil aprendizado de conviver com a cegueira. O jovem Marco, já adaptado às dificuldades do diabete com que convivia desde a infância e dono de muitos planos para o futuro - ir morar na Europa -, é surpreendido por uma inesperada hemorragia nos olhos e parte às pressas para Barcelona, na Espanha, em busca de tratamento. No caminho, muita insegurança e algumas situações tragicômicas (como a de ir sozinho ao banheiro do avião sem enxergar coisa alguma) dão o tom da viagem que ao fim se tornará infrutífera, já que a cegueira seria mesmo irreversível. De volta ao Brasil, entre o desespero e a resignação, ele conclui que o melhor a fazer é reaprender a viver, o que inclui ler pelo método braille, escrever a máquina sem precisar olhar o teclado e andar sozinho nas ruas com a ajuda de uma bengala.
A forma como Queiroz narra seu drama não desperta o sentimento de piedade nem restringe o interesse do livro apenas aos diabéticos ou cegos. Na verdade, brota do livro uma cumplicidade do leitor em relação às emoções do protagonista em que se partilha a dor - mas não uma dor isolada, individual, e sim a representativa do sofrimento coletivo, desde a enfermaria de um hospital abarrotada de acidentados até os drogados e alcoólatras de uma clínica de recuperação. Nessas cenas de Sopro no Corpo, a vida não é bela apesar de tudo nem os desfechos de algumas histórias paralelas são os típicos finais felizes. Mesmo assim, o clima do livro é leve e cabem até alguns toques de humor enquanto é possível achar graça, como no episódio em que ao desembarcar em Madrid Queiroz precisa da ajuda de um confuso funcionário do aeroporto para aplicar-lhe sua injeção diária de insulina. Mas o funcionário nunca acerta a quantidade exata do medicamento, e Queiroz tem vontade de dar-lhe uma agulhada com a seringa, o que só não faz porque "não poderia começar meus primeiros minutos de Espanha como um selvagem subdesenvolvido, coisa que obviamente ele devia ser".
O bom humor, no entanto, se desvanece aos poucos, pois ao final inexiste a surrada lição de coragem e desprendimento. A lição, nesse caso, é de vida, do drama compartilhado. Sopro no Corpo é o resultado, como se já não bastassem a cegueira e o diabete, de um acidente sofrido por Queiroz quando viajava à garupa de uma moto. Preso a uma cama por três meses devido a uma fratura exposta na perna, ele decidiu escrever sua história "por absoluta falta do que fazer", conforme conta. Surgiu então um livro surpreendentemente bem escrito, com um ritmo cativante, despojado de qualquer pretensão ao heroísmo ou a desempenhar o papel de pessoa sem traumas que superou tudo facilmente. "Não quero servir de consolo para ninguém", avisa Queiroz, que pretende com o livro, mais do que passar uma lição de moral, fazer com que as pessoas reflitam sobre si próprias. "Não sou herói nem vítima", diz, "e minha luta tem sido com muito sofrimento."
Por isso, o livro de Queiroz vai além da história de um jovem com a saúde complicada e se torna um retrato dos marginalizados - seja por diabete, seja por cegueira, seja por outras doenças. Trabalhando hoje como programador de computadores, Queiroz não pensa em trocar de profissão e escrever outro livro, apesar dos elogios que tem recebido de escritores como Affonso Romano de Sant'Anna. "Criar uma ficção é diferente de escrever sobre uma história já vivida, e ainda não me sinto capaz de fazer isso", explica.
Disponibilizado em: 04/03/2000.
