Boa noite, você é o visitante número 873 desta página.

Estou disponibilizando nessa página textos de uma discussão a respeito de superproteção acontecida na Dosvox-l, no ano de 2000. A Dosvox-l é uma lista de pessoas cegas de todo o Brasil e tinha, na época desses e-mails, aproximadamente 200 subscritos.
Esta página é bastante grande, porém vital para o conhecimento de questões básicas das dificuldades que nós cegos passamos ao serem criadas relações de dependência familiar. A discussão foi proposta por mim a partir de um depoimento já existente nesse site, Bengala Legal, de minha amiga Elis Regina, paralisada cerebral, cujo título é "As Amarras da Superproteção". Aí estão os textos para nossa reflexão:
Queridos Amigos.
Gostaria de falar com vocês sobre família, sobre a superproteção (exagerada). Quero falar aqui como filha e com experiência própria. Chego aos 33 anos pensando no que acarreta nos filhos a superproteção. Amo muito meus pais e agradeço muito a Deus o que eles fizeram por mim. Mas eles acabaram tirando toda minha liberdade, todo meu livre arbítrio.
Falar da minha mãe é realmente muito difícil. Ela é a pessoa que mais amo neste mundo, mas que acaba, às vezes, me sufocando. É muito sistemática, acha que se eu sair para algum lugar sozinha posso cair por minha falta de equilíbrio, que posso morrer, posso ser assaltada e alguém me levar. Conhecer pessoas sozinha ela acha perigoso, sem falar que sempre me proibiu de andar de ônibus, táxis, etc...
Quando converso com ela a respeito deste assunto, amigos, sempre sai "briga". Ultimamente ela tem dito muito: "então vai sozinha, vai, faça o que você quiser". Mas vocês sabem bem como ela fala!!!
Digo uma coisa a vocês: a superproteção acarreta um grande medo que hoje sinto de enfrentar o mundo lá fora, de sair por aí e ir atrás dos meus objetivos, da minha auto-aceitação perante a sociedade e da minha auto confiança... o que vocês, amigos, pensam sobre isso???
Um grande beijo,
Elis Regina.
Obs.: para os que não me conhecem, sou portadora de paralisia
cerebral.
Olá meu amigo MAQ.
Muito importantes os depoimentos apresentados. Aí lembro com saudade da pessoa que me incentivou a dar os primeiros passos na rua. Foi o amigo Luís Carlos Borges dos Santos, que depois de algum tempo mudou-se para o Rio de Janeiro. Eu achava muito esquisito ter que usar a bengala, uma vez que tinha visão subnormal. Depois porém, fui me acostumando, me acostumando e a bengala passou a ser para mim um artigo de primeira necessidade. A partir do momento que aprendi algumas noções de locomoção, acho que comecei a caminhar para a vida.
Como minha família morava longe e, para falar a verdade, ninguém me incentivava a nada pois eu era considerado um peso morto, tudo o que aprendi teve de ser sozinho. Por isso eu sabia, como tenho certeza hoje, que tudo o que eu quisesse dependeria única e exclusivamente de mim. Onde vivia minha mãe com meus irmãos o desincentivo era total. Meu padrasto dizendo que eu era um inválido e que jamais poderia assumir alguma responsabilidade sozinho. A pergunta freqüente era como poderia eu atravessar uma rua, viajar sozinho etc. Hoje, depois de haver viajado pelo mundo, minha mãe, orgulhosa comenta "Esse meu filho aqui já viajou até para Os Estados Unidos e ele é cego!"
Fica aqui o incentivo para aqueles que ainda teimam em se acomodar fazerem algo, pois os parentes não durarão para sempre. Eles superprotegem mas como não existirão eternamente, poderão nos deixar mal, e com nossa aceitação.
J. Salvador.
Bacana, Salvador, muito bacana. Quando somos desafiados podemos esmorecer por nos sentirmos incapazes, como também ir a luta para vencermos os obstáculos. Tive grandes amigos e incentivadores cegos, através dos quais me senti na obrigação de saber mais, ir mais a luta em minhas acomodações.
Conheci também pessoas muito paradas. A primeira cega que conheci morava no Leblon e a encontrei no rádio amador. Fiquei maravilhado: "Nossa, existe outro cego no Rio de Janeiro, mora no Leblon e não é mendigo!!!" Fui na casa dela para saber como era esse negócio de ser cego. Chegando lá conversamos e percebi que ela não fazia nada, nem pegava um copo de água, a mãe colocava a água diante dela e, caso não colocasse, ficava com sede mesmo. Conversa vai, conversa vem, eu já estava namorando a Sônia havia uma ou duas semanas e resolvemos ir a um bar comer uma pizza e beber algo. Na hora de sair da casa da menina, sem querer, Sônia acabou levando a menina e eu fui guiado pela mãe dela, até o táxi que iríamos pegar. O carro parou e Sônia e a garota entraram atrás, enquanto eu me posicionei com a mão na porta do carro, ia começar a abaixar e entrar quando... pluft, já estava sentado no carro! Parei para pensar: "Como estou sentado se não fiz nada para isso?" Não entendi como aconteceu, mas fiquei tão atormentado de como eu havia sentado sem sentar que, em um relance de segundos, pus minha memória para funcionar e perceber o que havia acontecido: quando coloquei minha mão na porta do carro, a mãe da menina me deu um golpe de karatê por trás dos joelhos e eles se dobraram. Ela imediatamente me pegou no colo e, em um certeiro empurrão, colocou-me dentro do carro!!! Entrei e sentei sem saber como: que técnica a mulher tinha!!! Bem, pensei, não vou ser como essa cega, mamãe não me agüentaria!!! (risos) Estou rindo agora, mas fiquei deprimido na hora.
Depois percebi que a menina cega não tinha o hábito de andar muito e não sabia como fazê-lo muito bem: dava passinhos tão curtos com medo de esbarrar em algo que, na verdade, andava pulando, pois não íamos na velocidade dela, apesar de estarmos lentos. Seu passo era de formiguinha, tinha de dar uns 3 a 4 passos enquanto dávamos um. Eu perguntei porque ela estava pulando e foi a Sônia quem respondeu que o passo dela tinha o comprimento de um pé! Falei com ela: "Alarga esse passo para um passo normal". Mas o normal dela era aquele, tivemos de ensiná-la a andar. E, surpresa!!! A mãe dela apareceu por trás e disse: - Não façam isso, ela pode se machucar!!! Estávamos a 2 bairros de distância e a mãe dela nos seguiu. A mãe da menina, cega mas saudável, não acreditou nem na Sônia, que enxergava, para lidar com sua filha, que aceitava aquela superproteção como natural e achava que ela não deveria andar muito mesmo, porque era cega! Bem, mais uma na coleção, ficou para eu não me esquecer.
Conheci depois, porém, cegos como Maurício Zeni, Marcos Kinski, Lêda Spelta, Xico Gonzalves, esse último já morando sozinho... aí fiz a festa! Aprendi até o que não devia! (risos).
Abraços Salvador, e que bom que te liberastes um pouco da dependência, já que todos nós a temos, mesmo quando enxergamos! MAQ.
Oi MAQ!
Fico muito feliz em ouvir/saber de tudo isso. Sempre soube que quando temos força de vontade conseguimos, se não tudo, quase tudo que nos é permitido. O problema é que na prática tudo é mais complicado.
No Rio, absolutamente ninguém me conhecia pessoalmente, fato que me deixou bastante a vontade para andar, me locomover, etc. não sei por que, mas me percebi uma outra pessoa aí. Me senti melhor, mais independente, que posso cuidar de mim mesmo, entende? Aqui, no interior,eu não sinto esse tipo de coisa, pelo menos não com relação à mobilidade.
Talvez por já ter nascido cego e sido criado com toda a convicção que nunca poderia me "virar" sozinho, adquiri um auto complexo de inferioridade. Mas, graças ao encontro do Rio e aos vários amigos que tenho, pude perceber que estava totalmente errado.
O que me falta agora é a coragem para enfrentar toda essa diferença, a cabeça do pessoal aqui! Para você ter uma idéia, MAQ, ano retrasado eu fiz um curso de telefonista em Jacarezinho, uma cidade vizinha. Como a locomoção era super fácil e o ponto de ônibus bem perto de onde eu fazia o curso, eu viajava sozinho. Meus pais iriam me levar e buscar na rodoviária, é claro. Pois bem, no dia seguinte, praticamente, a cidade toda já estava sabendo e comentando. Algumas pessoas, inclusive, acharam que meus pais é que não queriam me acompanhar, o que era totalmente o contrário. Eles, na verdade, ficaram muitíssimo contrariados quando decidi fazer essas viagens sozinho.
Sei que esse tipo de coisa, do povo da cidade e dos meus pais, não deveria me intimidar, mas o fato de eu ainda ter uma certa imaturidade, falta de experiência e todo o mais, me intimida sim. Então, encontro-me em um beco sem saída: Como Enfrentar isso, se não tenho maturidade nem experiência? E como adquirir essa experiência, se não consigo ao menos começar? Acho que o principal, que é a segurança em mim mesmo, eu já consegui.
É claro que, antes de ir ao RJ, fiz vários treinamentos de locomoção, aprendi algumas técnicas... Em fim, tudo, ou quase tudo, que eu precisava aprender pra andar sozinho.
Na verdade, sou uma pessoa que não sai muito de casa. Meu ciclo de amigos aqui é pequeno, e em uma cidade como a minhá não ha bons lugares para ir. Mesmo assim, tem a escola, a natação, que são locais que eu poderia ir sem a presença de alguém. Mas no interior é muito complicado! Creio que se um dia eu morar em uma grande cidade, o que aliás é uma das minhas metas, conseguirei quebrar essa barreira sem dificuldade. Mas até lá, se não quiser ouvir lamúrias e pessoas expressando sua pena por mim, tenho que continuar sendo obrigado a não procurar uma certa liberdade.
Pra você, com certeza, foi tudo muito mais difícil, mas pelo fato de você já ter uma certa maturidade quando ficou cego, mesmo sendo apenas dois anos mais velho do que eu sou agora, e também pelo fato de morar em um local onde a vida para o deficiente com relação a locomoção é bem mais fácil, tenha conseguido quebrar isso com mais facilidade. É claro que um dia eu também vou conseguir, pois força de vontade e capacidade tenho de sobra!
Um forte abraço de alguém que aprende muito com
você:
Diniz.
Oi Diniz, bom dia!
Sabe, amigo, jamais pensei que conversaríamos tanto de público e estou bastante feliz de você estar dando a oportunidade de nos conhecermos melhor. Gostaria de lhe dizer duas coisas com relação a essa sua resposta, rápidas e objetivas: experiência se adquire com experiência. Isso parece obvio, o difícil é experimentar essa verdade. Não adianta dizer que você é criança, inexperiente, que tem falta de prática. essa desculpa acaba de imediato quanto acontece a prática, acaba pelo menos como desculpa. Quando você foi ao curso sozinho, viu que poderia exercitando, certo?
A outra coisa é que nós aqui da cidade grande escutamos a toda hora na rua que somos coitadinhos, que sentem pena da gente etc. A proporção é igual ao número de habitantes e o quanto andamos na rua sozinhos ou mesmo acompanhados. Estarmos acompanhados não inibe as pessoas de chegarem aos nossos acompanhantes e, como se fôssemos surdos, que não é nenhum xingamento, simplesmente não somos, dizerem coisas do tipo: coitadinho, como Deus pode fazer isso com ele? Não tem como escapar disso na rua, seja no interior ou na cidade grande. Tem horas que tenho a paciência de conversar com a pessoa para tentar demovê-la da pena, coisa rara, mas ainda faço. Na maioria das vezes deixo pra lá, sei o quanto já lutei, o quanto sou bravo ou fraco, ela não sabe de mim... acho até graça, ou senão, sinto uma dor no coração danada, porque a sociedade não está enxergando ainda o que somos e como somos. No entanto, existem "ceguinhos" que são tal qual a sociedade imagina: totalmente tutelados, alienados, incapacitados, inferiorizados, animalizados. Como não aceitar a generalização, se a maioria de nós é assim??? Se você que é um cara informado, inteligente, safo, ainda tem toda essa dependência, ainda se curva ao que pensam de ti, ainda vive do que te disseram, ainda pensa em todas as incapacidades teóricas que o mundo nos impõe, imagina o carinha que vive sem um micro, guardado a sete chaves por suas famílias no interior do interior? Eu mesmo dei o exemplo, em outro e-mail, de uma moça em bairro nobre do Rio de Janeiro, que não pegava um copo d'água dentro de casa.
Bem, Diniz, se você tem boas relações consigo mesmo, não se acha tão ruim quanto te disseram, tão defeituoso e incapaz, se descobriu que tem possibilidade de mais algo... vá a luta, com todos os seus medos, que você vencerá!
Nosso amigo Zé Carlos, da lista dvdelphi, era do interior e analfabeto até os 18 anos. Veio para o Rio, entrou em uma instituição, estudou, casou, fez estágio no serpro como programador, foi freelancer no Proderj ganhando como profissional liberal e agora, com seus 31 anos, passou para a universidade e em concurso público para o município do Rio. Sabe quantas vezes ele teve de escutar "coitadinho" de pessoas que nem coçar o saco sabiam? Sabe quantas vezes disseram-lhe "cego não pode?"? Um cara com um valor desses, digno da nossa maior admiração, amigo que dá gosto conversar não só pelo que fez de sua vida, mas sobretudo pelo que é!!! Temos outro amigo dessa lista que era do interior da Bahia e voltou para lá... É administrador, tem filhos e é casado em pequena cidade.
Bem, Diniz, se você acreditou que eu seria objetivo e rápido, se danou! Não tenho a experiência das cidades do interior, a não ser como turista. Mesmo assim, um turista sempre acompanhado de amigos... Mas, apesar das experiências relatadas por amigos cegos do interior dizerem que é mais difícil ser cego no interior que em cidade grande, sua liberdade de locomoção não pode depender da cabeça das pessoas que te olham. Aqui no Rio você estava longe das pessoas que enxergam, suas conhecidas. Tudo fica mais tranqüilo. Se locomover é relativamente fácil, difícil é "encarar" os que nos estão vendo, sentindo pena ou se admirando. Esses fazem parte de outro tipo de amarras, pressões, que nos reprimem a ponto de não sairmos para não as encarar.
Quando fiquei cego, comecei a aprender a andar sozinho em meu quarteirão. Todos me conheciam, pois meses antes, poucos, 2 ou 3, eu passava ali enxergando normalmente, tinha meu carro que eu estacionava na calçada atrapalhando a vida dos pedestres e de muitos cegos, claro! Era um garotão de zona sul do Rio, do Leblon, bairro nobre e morava perto da praia.
Bem, Diniz, fiquei cego no sábado de carnaval de 1978, depois de ter encostado meu carro na garagem e ido dormir. Acordei cego, ou quase totalmente cego. Tudo era vermelho sangue e os poucos vultos que eu enxergava ainda eram do preto ao rosa, dependendo da luminosidade. Meu livro conta toda essa história. Fiz tratamento na Espanha, cidade de Barcelona, clínica de Barracker. recuperei 90% da visão e, depois de mandar o amigo que me acompanhava de volta, pois estava pagando a estadia dele, perdi a visão sozinho em Barcelona, agora definitivamente.
Voltei e... dois meses depois estava treinando andar pelas ruas em torno de meu prédio, com todos me olhando como se fosse um herói ou uma vítima do destino. Quanta pena, quantos choraram em meu ombro, a partir de minha mãe e amigos. Os da rua choravam pelo meu pai: "Se o Bira (apelido de meu pai) estivesse vivo, morreria só de ver"! Eu tinha medo de cair, bater no poste, não saber usar a bengala, mas as "penas" dos outros, os lamentos, o sofrimento e constrangimento que eu causava era a grande amarra que incentivava a ficar em casa parado, mas não fiquei! Pedi transferência de minha faculdade, a Federal do Rio, para a PUC-Rio e comecei, 3 meses depois de cego, a ir sozinho para a faculdade. A Federal ficava no final do mundo que, dirigindo meu carro, era logo ali. Recomecei a vida, com medos e vergonhas, pois o sentimento mais comum em um cego novo é a vergonha de ser cego. Quando comecei a andar de ônibus sozinho, morria de vergonha de tropeçar, de errar, até que um dia pensei com a ajuda de um amigo cego com o qual desabafei: - porra, tropecei no ônibus. Mas quando tropeçava e enxergava não tinha problemas, agora tem! Tropecei porque sou cego, não encontrei o banco vazio porque sou cego. Mas, claro, se sou cego tenho direito de tropeçar mais do que quem enxerga... direito adquirido! Meu problema não era o de errar, era o "coitadinho" que fazia eu sentir vergonha de ter errado!
Essas "situações constrangedoras" são o que fazem muitos cegos ficarem encolhidos em suas famílias, que fazem de muitos cegos pessoas oprimidas ou revoltadas. Isso não vai passar tão cedo, mas nossa vida vai! Enfrentar as vergonhas até que elas passem é a solução.
Hoje não sinto mais nada disso, acho até graça. Eu, ainda com pouca experiência de cegueira, troquei o guardanapo de papel pela conta do restaurante, pode? (risos) Errei, não, e me diverti um pocado! Dizem que o garçom teve de afastar, gentilmente, um caroço de feijão do valor total da conta! (mais risos). Que fazer? Viver a vida!
Faça sua cabeça, Diniz, não deixe que a vergonha, a raiva, a auto-piedade, esses sentimentos inibidores de nossas atitudes, te deixem dependentes de sua mãe. Dê um tempo para ela, mostre do que você é capaz, cresça mais, sinta-se vitorioso, é maravilhoso!
Hoje tenho emprego, sou casado, pai e tudo que conquistei foi por causa dessa luta anterior de retirar essas "amarras da superproteção". Meu pai é falecido, minha mãe está com o "mal de Alzheiner", tenho uma irmã com a qual não me dou bem, temos muitos atritos e jamais confiaria nela para ver minhas injeções diárias de insulina, que eu mesmo me aplico, mas necessito quem veja "quanto estou aplicando". Enfim, minha vida é bastante limitada por causa de minha saúde, mas o quanto não seria mais se eu não saísse de casa sozinho, não fosse trabalhar, me divertir? Enfim, só ganhei com meu esforço de não depender da "santa da minha mãe".
Abraços. MAQ.
Obs. de 2005: gostaria de deixar aqui registrado que, nosso amigo Diniz, hoje,
é um cara que já viajou por muitos lugares desse Brasil sozinho,
ingressou na faculdade em Marília e acabou de passar para o cargo de
técnico judiciário em Jacarezinho, cidade mencionada em sua
mensagem. Sinto-me emocionado por mais esse amigo ter conquistado, com
luta, um lugar melhor para si, sendo assim, um exemplo para muitos.
Eu sei muito bem o que é isso, de superproteção Diniz, pessoal.
Há pouco tempo atrás, eu não andava sozinho também. Todas as vezes que falava com a minha mãe sobre isso, ela também desconversava e tudo chegava, assim como a Elis, a beira da discussão, que uma certa vez acabou acontecendo. Assim, senti que a minha situação só poderia ser resolvida se em vez de falar, eu começasse a agir. Mas, agir como? Buscar a ajuda de quem?
Foi quando um amigo que também não andava, começou a andar sozinho. Eu ligava pra ele, pedia algumas dicas, não só com ele como com outros cegos que também se locomoviam, pegava as explicações e tentava fazer na prática.
Minha família por parte de pai me dava mais força nesse sentido. Um tio saiu comigo uma vez pra comprar uma bengala. Acabei, por ser próximo a meu aniversário, ganhando a mesma de presente.
Era o que me faltava para começar... Iniciei, então, a colocar em prática todas as dicas que me davam. Por certas vezes tive que esperar minha mãe sair de casa, para que eu saísse também e fazer o que deveria. Daí fui adquirindo mais habilidade, mesmo sem o conhecimento total dela. Só contava as coisas depois que eu fazia. Meu ciclo de amizades foi aumentando, as oportunidades de colocar o que eu estava aprendendo em prática também. Comecei a escutar mais sobre nossos problemas e aceitá-los mais ainda.
Foi quando um dia, ao me conectar na internet, encontrei o MAQ, que me avisou de vagas abertas para estágio no SERPRO, onde ele trabalhava. Era o que me faltava!!! Passei no teste e entrei no estágio! Tive contato com outros cegos, pude aprender mais coisas com respeito a locomoção e ainda, tanto no chat da internet quanto no estágio, encontrei pessoas cegas que moravam perto do meu bairro e eu nem conhecia. Isso foi mais um ponto a meu favor.
Quando eu comecei o estágio, não teve mais jeito. como minha mãe também trabalha, viu que não havia outra alternativa, a não ser aceitar os acontecimentos. Hoje me locomovo pra qualquer lugar, sem problemas e também faço coisas que antes não fazia devido a super proteção de minha mãe.
Abraços. André.
Gostaria de meter o dedo ainda no assunto "superproteção", algo bem delicado que envolve muitos aspectos emocionais. Se formos depender da aprovação universal para fazer qualquer coisa, simplesmente não a faremos e isso é fato. As pessoas falam de nós. Sempre falaram e é pouco provável que um dia deixem de falar por completo, afinal, tudo que é diferente causa estranheza. Cabe à gente decidir se quer ou não assumir o personagem que nos desejam impor. A gente que escolhe se deseja ser o coitadinho que nos dizem na rua, ou se queremos melhorar e nos superar.
Dificuldades todos temos, não adianta. Aliás, não apenas sobre andar sozinho, mas no tocante a todos os assuntos da vida. Diante disso, temos a opção de desistir antes de tentar e a opção de tentar sem desistir. É importante a gente ter consciência das nossas limitações, mas não é bom deixar que elas tomem conta da gente. E porque a gente tem medo agora não significa que devamos ter medo sempre, sempre! Acima de tudo, acredito que precisamos ter coragem, fé na gente, nas pessoas que nos querem ajudar e vontade de fazer diferente.
Talvez eu pudesse ser bem melhor do que sou, não só sobre locomoção. Entretanto, por enquanto, sou assim. Foi o que consegui, ainda não estou pronta e não desisti de tentar.
Acho que era isso, pessoal. Um beijinho a todos da amiga que também
está tentando,
Jobis.
Também quero contar o que penso:
Vocês vão concordar comigo que um pai ou uma mãe com uma pessoa cega em casa não irá sentir-se bem em largar essa pessoa na rua sem saber se realmente isso é possível, sem saber se existem pessoas cegas na mesma condição de seu filho que andem com segurança, sem ter boas referências. Muitas vezes o deficiente visual é o principal culpado pela incompreensão dos pais.
Minha mãe também sofreu. Cada vez que se falava em eu andar sozinho pelas ruas de Caxias do Sul, vinham-lhe lágrimas aos olhos. Mas, graças às informações que obteve, graças às conversas, às demonstrações de que tudo aquilo era possível, que não se tratava de fantasias, ela foi absorvendo a idéia e, num espaço curto de tempo, sentiu-se aliviada por não ter que me levar mais na escola, por poder dedicar-se um pouco mais à sua própria vida.
Por outro lado, existem situações como a de uma moça de vinte e poucos anos, que vive reclamando da superproteção: diz que os pais não a deixam sair, não largam do pé dela. Dou toda a razão a eles, porque a garota não sabe andar de bengala, não sabe escrever o braille, não tem noção alguma de como é sair sozinha sendo cega. Como que uma criatura dessas pode culpar seus pais por não a deixarem? Eles estão assumindo uma posição coerente, correta. No dia em que ela resolver procurar uma instituição, fazer mobilidade, escrever em braille, mostrar a eles que ela pode progredir, garanto que ninguém vai ignorá-la. A questão aí é aceitação de si mesma.
Vou escrever uma coisa que é do fundo do coração: sofro muito ao ver gente capaz, gente que pode
contribuir muito com a sociedade, gente que tem um potencial incrível,
trancado dentro de casa, naquela vidinha computador/música/tv/pais....
Não que tudo isso seja desprezível, pelo contrário, mas a vida é bem
maior.
Juliano.
Queridos, meu sorriso hoje está desse tamanho! (sorrindoooooooooooo).
Quero deixar aqui registrado um dia muito especial para mim. Parece até brincadeira mais é verdade, que uma mulher de 33 anos, hoje pela primeira vez, conquistou sua liberdade. Que sensação gostosa! Peguei um táxi e fui a casa da minha querida amiga Flavia, (aproveito para agradecer aos meus amigos Flavia e Eduardo pelo dia agradável demais que eu tive, valeu!). Aos poucos, agora, acho que vou conseguir fazer minha mãe entender que eu preciso ter minha independência e o quanto isso é importante para mim.
Hoje levantei cedo e disse; "estou indo". Antes de ir, logicamente, tinha
que avisar minha mãe. Liguei para ela e disse que ia sair. Teve uma
pequena "discussão" mais deu para controlar e pela primeira vez impus minha
vontade. Foi muito bom! Realmente é uma árdua conquista, que há
muito tempo vinha tentando e só hoje consegui!
Mostrei a mim mesma que sou
capaz e com isso, com certeza, minha auto-estima e minha auto-confiança
elevaram-se um pouco.
Um Grande beijo a todos.
Elis.
Disponibilizado em: 02/02/2001.
