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Era verão e o País comemorava a eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República quando Marco Antonio, preso à cama em conseqüência de um sério acidente de moto, resolveu aproveitar os dias tão longos daquele janeiro para escrever sua história. O depoimento transformou-se em livro. "Sopro no corpo" (lançado ontem pela Rocco e já com os cinco mil exemplares da primeira edição vendidos), deixando o leitor com a sensação de ter aberto indiscretamente o diário de um homem em seus 28 anos. Só que o tal homem não é como qualquer um desses que cruza por nós em alguma esquina da cidade: Marco Antonio é cego desde os 21, foi impotente durante dois anos e desde a infância tem uma rotina de vida completamente alterada em função do diabetes.
Qualquer semelhança com "Feliz Ano Velho", o livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, será mera coincidência. Marco Antonio de Queiroz, que já foi modelo (tem 1,82 m e olhos claros) e hoje trabalha como programador do SERPRO, assegura não ter se inspirado em qualquer outra história para escrever a sua, nem em algum filão do gênero para contar tragédias pessoais. O autor admite características idênticas entre os dois livros - Marcelo escreveu suas memórias depois de um acidente que o deixou paraplégico, - mas lembra que, no seu caso, o principal não foi relatar o impacto provocado pelas armadilhas do destino: - Quando escreveu "Feliz Ano Velho", Marcelo ainda não tinha tomado contato com todos os seus novos limites. "Meu depoimento foi feito seis anos depois de ter ficado cego. Eu não vivia mais as fantasias do que significaria isso na minha vida: já estava sofrendo as transformações causadas pela cegueira e diabetes no meu cotidiano muito concretamente".
Embora sem maiores preocupações literárias - Marco rejeita a idéia de escrever outras obras depois de "Sopro no Corpo", - o livro não pretende se esgotar na descrição de episódios dolorosos. Há várias razões que levaram o autor a escrevê-lo, e uma delas é a de alerta a outros diabéticos. Se não fosse tão displicente com a doença, nem relutante e ingenuamente machista ao negar até para si mesmo sua impotência sexual (começou a perceber seus sinais já na adolescência), talvez pudesse ter evitado a cegueira: - "Em casos graves, o entupimento das veias provocado pelo diabetes começa atingindo os órgãos sexuais e só depois passa para a visão" - ele explica. - "Quem se trata a tempo, pode evitar problemas sérios nas duas áreas".
Não foi o que aconteceu com Marco Antonio, hoje com 30 anos recém-completados (fez aniversário no último dia 20), casado com a professora Sônia, de 32, e louco para ter um filho - "a cada mês eu tento convencê-la a parar de tomar pílula, mas ainda não a ganhei para a idéia", brinca ele. De qualquer forma, ele consegue eliminar sentimentos de autopiedade, ao lembrar sua trajetória cheia de surpresas trágicas: "As vezes me sinto triste, mas já deixei a revolta de lado: a vida ainda está aí para ser explorada".
Quando conheceu Sônia, Marco já era cego. Ele cursava História na PUC, depois de uma viagem à Espanha, para onde havia embarcado meses antes em busca de tratamento numa clínica especializada. Em Barcelona, através de sessões de fotocoagulação, Marco tentou evitar a cegueira causada por uma retinopatia diabética (os vasos se entopem de açúcar até que a pressão do sangue os faz estourar). Não teve sucesso: voltou deprimido ao Brasil, mas disposto a reconstruir a rotina de sua vida, ingressando numa faculdade e fazendo psicoterapia.
Ao tornar mais freqüentes os contatos com Sônia, de quem era colega de turma - "A dona daquelas mãos de unhas compridas que roçavam na pele de meu braço, para me avisar que ela estava ali" - Marco ainda insistia em usar suas antigas referências para conhecê-la melhor. Ele perguntava aos amigos se Sônia era mesmo ruiva, qual a cor de sua pele, como era seu sorriso. Queria porque queria, admite agora, compor em sua memória a imagem visual daquela mulher. Oito anos depois, ele assegura ter formado outras imagens da mesma Sônia: - "Eu conheço seu corpo principalmente pelo tato, que sem dúvida invade de forma muito mais objetiva do que a visão. Cada contato da minha mão no corpo dela, ou da sua mão no meu corpo, é mais um momento vital para a gente se conhecer. E, além disso, há o cheiro, vários deles; o timbre e a velocidade de sua voz, dependendo da emoção de cada instante; o barulho que ela faz com as mãos, ou com os pés, quando então eu percebo se está ansiosa, angustiada, mais ou menos carinhosa".
Para Sônia, que sempre achou Marco tão bonito e cheio de expressão, o fato de ele ser cego nunca impediu a aproximação. Os dois costumam ouvir muita música juntos, acompanham novela na TV, visitam os amigos e sempre vão ao cinema em programas de filmes nacionais.
Até fazer uma operação relativamente simples para resolver a impotência, entretanto, o casal precisou enfrentar oito meses de tentativas frustrantes na relação sexual. Marco estava impotente, mas por orgulho - "Daqueles que os machistas sabem ter como ninguém" - procurava razões circunstanciais para o problema. Talvez não tivesse encontrado a pessoa certa, ou a cabeça não estivesse boa no momento, justificava-se ele. - "Foi difícil pra nós, é claro, mas todo mundo precisa fazer seus ajustes" - diz Sônia. "Hoje conseguimos contornar esse problema, mas ainda convivemos com uma rotina complicada. O diabetes do Marco nos obriga a regularizar horários de todas as refeições, além de fazer medições periódicas de glicemia. Me perguntam se essa relação não é tão complicada. Eu acho que é uma relação diferente de todas as que eu já tive, mas é a melhor delas".
Até que Sônia chegue das aulas, à noite, Marco escreve cartas para amigos em Braille, prepara trabalhos para a Vila Serena (centro de recuperação de alcoólatras, onde é terapeuta familiar aos sábados, em Santa Teresa) e ouve livros em fita cassete. Ele adorou "A Insustentável Leveza do Ser" e agora está lendo/ouvindo "A Idade da Razão", de Jean Paul Sartre. Desse, confessa não gostar muito: - "Não estou numa fase muito existencialista, talvez. Estou mais preocupado em superar desafios.
Disponibilizado em: 3/03/2000.
