Marco Antonio de Queiroz - MAQ.
Existe um mito em torno da cegueira que portamos que faz dela um monstro
que ela não é.
A cegueira não machuca, não dói, não limita tão radicalmente
como pensam os que enxergam quando fecham os olhos por um minuto
imaginando serem cegos, também não é doença. Acostuma-se com ela e o dia a dia é
tão comum que esqueço da cegueira e acabo por ver do jeito que
"vejo" sem lembrar que não é visão!
Depois de algum tempo de cegueira
pode-se trabalhar, viver, ter todos os prazeres sexuais, emocionais e
intelectuais que todos podem ter. Nosso problema não é entre nós cegos e a cegueira
e sim entre ela e a sociedade. Ficamos sempre por detrás de um muro que
faz não nos enxergarem como somos em nossas diferenças e em
nossas
igualdades.
Quando percebo os limites dos outros, principalmente os de
saúde, como eu mesmo os tenho, é que sinto com nitidez como a minha
cegueira é o menor problema que possuo, se é que é problema! É uma
diferença, um limite que dependendo de mim pode ser diminuído ou
aumentado. Existem muitos cegos que descarregam como culpa da cegueira
suas incompetências pessoais e educação
desinformada.
Em verdade, nossa deficiência depende de
quem a porta. Ela nos limita de fato, nos diferencia socialmente também,
mas uma boa cabeça pode ultrapassar os obstáculos imaginários reduzindo-os
aos reais, procurando superar as reservas sociais
desnecessárias.
Fazemos um esforço maior, temos que aprender mais coisas, driblar muitas emoções
de rejeição e baixa estima, superar o condicionado estigma de que somos
incapacitados, criado geralmente por pessoas que nem cegos são para sabê-lo,
apenas imaginam! Mas, com persistência, podemos alcançar
um grau de emancipação e independência
excelentes!
Vou acabar como comecei: existe um mito em torno da cegueira que
portamos que faz dela um monstro que ela não é.
MAQ.
Disponibilizado em: 10/03/2002.