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Fazer um depoimento a respeito do meu transplante de pâncreas não é fácil. Não é fácil porque, digamos, foi um transplante especial para mim e para a própria equipe da Beneficência Portuguesa de São Paulo. A expectativa que um diabético do tipo I desde os 3 anos de idade tem a respeito é enorme, levando-se em conta que eu já tinha 42 anos de diabetes na época da cirurgia, com perda renal que me levou em 1998 a fazer um transplante de rim devido a uma nefropatia diabética, passando por um total descontrole da doença, por mais cuidados e atenções que eu dava, com ajuda médica e familiar, às exigências da mesma.
Perdi a visão aos 21 anos em conseqüência de uma retinopatia, como sempre diabética, e a partir dessa perda ficou constatada a situação de vasculopatia em que eu já me encontrava em tal idade. Em outras palavras, a equipe está acostumada a fazer transplantes em pessoas que estejam mal da diabetes, que estejam já observando alguma perda de qualquer espécie, para que uma operação de tal vulto seja um risco válido e compensador. Mas meu caso estava no limite, pois já tinha os ditos 42 anos de diabetes e o mais velho a fazer tal cirurgia tinha seus 37, sendo o mais comum nos operados de 20 a 30 anos de doença. Os entupimentos de vasos e veias são mais acentuados em pessoas com mais tempo de diabetes, o que torna as coisas um pouco mais complicadas.
O transplante de pâncreas só é feito no diabetes do tipo I, pelo simples fato que nesse tipo de diabetes a falta de insulina é total e só um novo órgão pode acabar com esse problema. A melhora da qualidade de vida da gente é acentuada, mesmo que o transplante seja um sucesso parcial. Se não houver rejeição total do pâncreas e ele produzir insulina o sujeito, de cara, já se livra das injeções, da instabilidade glicêmica, no máximo em 40/60 dias, sendo que na maioria dos organismos isso é imediato. Não existe diabético que tenha se arrependido de fazer tal cirurgia, mesmo que tenha perdido o pâncreas posteriormente devido à rejeição do órgão. O fato de, por algum tempo, ter sabido e sentido como se vive sem a diabetes, faz alguns de nós enfrentar o re-transplante sem a mínima dúvida.
Toda essa introdução é para se entender o que houve comigo. Meu transplante foi cirurgicamente complicado devido a um vaso ilíaco que estava endurecido em dois pontos. Os exames, por mais minuciosos que tenham sido, não conseguiram deixar bastante claro sua situação. Assim, o cirurgião teve que, na hora, fazer uma plástica nesse vaso, retirando-lhe um pedaço e o emendando para que funcionasse bem no auxilio ao novo pâncreas. Para minha sorte e alegria, até hoje esse vaso não me dá problemas, mas isso prolongou a colocação do órgão no organismo e esse já tinha algum tempo de isquemia (tempo de congelamento fora de qualquer organismo). Tive altas glicêmicas pós cirúrgicas, altas exageradas, que tiveram de ser contidas com insulina artificial, como eu sempre fiz. Só após 2 meses consegui acabar com o uso de insulina e isso não é o comum... o comum é parar a insulina logo após o transplante, ou se tomar uma quantidade irrisória, 1 ou 2 unidades/dia até o pâncreas funcionar melhor e isso, no máximo, demora 40 dias.
Hoje não tomo mais insulina, fazem 6 meses de novo pâncreas e 4 sem insulina artificial. Isso, porém, não acabou com meus problemas. Não posso comer açúcar na forma de doces, bolos, balas, sorvetes etc, como a maioria dos transplantados, pois a glicemia sobe. Começaram as pesquisas do porque dessa situação e hoje já se sabe que produzo insulina em quantidade suficiente para comer o açúcar, não tanto quanto deveria, mas suficiente para comê-lo... mas meu organismo não consegue absorver a insulina que meu novo pâncreas produz! Em outras palavras, sou resistente a insulina, caso não raro, mas muito difícil de acontecer em um diabético do tipo I. Sendo assim, apesar de produzir insulina em quantidade que jamais produzi, eu não a absorvo na quantidade certa. É como eu fosse diabético do tipo I e II que, depois do transplante, tenha resolvido a original e ficado com a do tipo II bem suave.
Não tomo insulina, como a vontade, massas, grãos, tudo que alguém pode comer, mas nada de açúcar. O melhor para mim, apesar da frustração desse limite, é que os entupimentos de vasos e veias, a má circulação, as conseqüências negativas do excesso de açúcar no sangue, pararam de evoluir desde o momento que eu parei de tomar insulina artificial, devido ao transplante, equilibrando minha taxa de açúcar com a insulina natural produzida pelo novo pâncreas.
Não tenho mais baixas glicêmicas noturnas, comuns em diabéticos do tipo I que se tratam, não tenho mais as altas glicêmicas, comuns aos que não se tratam. Fazendo dieta de açúcar tais problemas de diabetes estacionaram no dia 20 de outubro de 2002. Estacionaram, não acabaram... Não deixarei de ser cego porque deixei de ser diabético do tipo I: o que ajudei a diabetes a fazer no passado já está feito.
Com tudo que já passei em minha vida devido ao desconhecimento, negação e conseqüente abuso da diabetes, estou satisfeitíssimo com o que conquistei, apesar de ainda, vez em quando, sonhar com a cura total, acontecida com a maioria dos transplantados de pâncreas que conheço, pelo menos os 9 que tive contato e mais uns tantos que vi depoimentos por aí... Sou um caso diferente mas, mesmo assim, positivo.
Só gostaria de dizer mais algumas coisinhas... Alguns endocrinologistas ainda não acreditam na cura do diabetes por meio do transplante, mas isso é por falta mesmo de observação empírica e pessoal do que está acontecendo com os transplantados e as novas drogas anti-rejeiçao, os chamados imunossupressores. Minha médica endócrino ficou muito preocupada quando eu disse que iria fazer o transplante e tive de ter fibra para enfrentar sua autoridade sobre mim, já que me trato com ela há mais de 20 anos, desde que perdi a visão... Agora que estou bem, que fui até ela mostrando todos os exames pós-transplante e que ela me viu, já enviou uma paciente para a fila na intenção de fazer a cirurgia, pois acha que estou tendo muitas vantagens em ter feito o que fiz... (E perceba que eu não sou o melhor caso dos transplantados...).
A segunda questão é a dos imunossupressores: apesar de fazermos exames para haver compatibilidade genética entre doador e receptor do órgão, a genética do novo órgão nunca é igual a nossa, é apenas compatível. Igual só a de gêmeos univitelinos. Assim, a diferença ainda existente depois de selecionados os sujeitos do evento, têm de ser tratadas e esse tratamento é feito através dos ditos imunossupressores, remédios que procuram suprimir, ao limite do possível, as defesas do organismo de quem recebe o novo órgão, para que elas não o ataquem como algo estranho e invasivo que é. Com isso, as bactérias, vírus, fungos e tudo que pode se aproveitar dessa baixa imunológica cai em cima da gente com uma defesa mínima de nosso organismo. Nossas defesas passam a ser os antibióticos. Esse é o lado pesado e ainda limitador de todo e qualquer transplante. Todos precisam de imunossupressores e, sendo assim, deixam o sujeito com uma saúde mais afeita a infecções oportunistas. Por esse motivo é que os transplantes são feitos somente em pessoas que já estão mal, pois seria tranqüilo fazer um transplante em qualquer um que se dispusesse a tal, se a única conseqüência fosse a melhora do mesmo. Um diabético do tipo I, que ainda não tenha perdas devido à conseqüências crônicas da doença, não deve se arriscar a um transplante que vai fazer com que fique com o coração na mão quando alguém espirrar no elevador e este estiver cheio! Cuidados devem ser tomados, mas a diferença para quem tem um diabetes complicado é compensadora, com imunossupressão e tudo mais.
O último detalhe é que ficamos com dois pâncreas. O antigo que só não produz a insulina que precisamos e o novo que a produz. Mas o novo além de produzir a insulina, produz também o suco pancreático e outras substâncias que o antigo já produzia... isso tem de ser eliminado e o é, através da bexiga, pela urina, ou pelo intestino... Não podemos ficar com tantos sucos ácidos no estomago, produzidos duplamente pelo novo e antigo órgãos. Por isso esse transplante não é tão simples como o de um rim... fiz os dois e sei disso. Aquele vaso ilíaco "tratado" em minha cirurgia foi justamente para cumprir o papel de levar essas substâncias pancreáticas para a bexiga. Além disso, se retirássemos o antigo, se houvesse rejeição do novo... iríamos pro céu, no meu caso, claro, que sou quase um santo! (Mamãe me diz sempre isso, que sou santo, mas minha esposa me manda pro inferno de vez em quando, acho que é para instalar um ar condicionado por lá!).
Aos poucos vou me lembrando de tantas coisas a serem ditas, mas é impossível dizê-las todas... o imprescindível é que amemos a vida, que gostemos de nós com todos os nossos desagrados e que sempre tenhamos esperanças de sorrir com gosto e prazer mais uma vez! Sou cego, já fui doente renal crônico, passando pela hemodiálise durante 3 anos, tive uma diabetes incontrolável que só quem tem mais de 30 anos de doença sabe como é. Perdi muito pelo caminho, mas o amor pela vida, o amor por mim mesmo, pelos meus e a esperança desse sorriso de prazer acontecer cada vez mais em minha vida, me alimentaram a ponto de dizer hoje que, com todas as minhas limitações e diferenças, lutei, luto e sou feliz. Como é bom estar aqui escrevendo isso para vocês, vejam minha carinha lá em baixo! (smile).
MAQ.
Disponibilizado em: 14/02/2003.
