Escola, Inclusão e Mercado de Trabalho.

10/10/2003 - Maria Alice Campos Mesquita.

Nunca ouvi um "não" quando solicitava algo em prol de alunos com alguma deficiência. Alojamento em hotel para palestrante, restaurante, colchonete para atividades físicas, jogo de camisas para futebol, materiais pedagógicos ou de reabilitação, transporte, enfim... perdi a conta.

Nem emprego... nunca nenhuma empresa ousou negar vagas para adolescentes ao menos numa resposta direta, quando buscava uma atividade produtiva para alunos sentirem-se úteis. Pediam para aguardar uns dias ou até agendavam entrevistas, mas em vão. Não negavam, mas não empregavam; e não empregam, com raras exceções.

Segundo alguns autores, há uma considerável diferença entre inclusão e integração. Ambas acolhem o diferente, mas na integração as pessoas têm que se adaptar à sociedade como ela é. No mercado de trabalho isso vem ocorrendo muito. A pessoa com deficiência é admitida desde que, além de ter qualificação profissional, consiga utilizar espaços físicos e os equipamentos de trabalho sem nenhuma modificação. A Lei 7.853/89, regulamentada pelo Decreto 3298/99, determina que toda empresa com mais de 100 funcionários deverá ter no seu quadro de 2 a 5% de pessoas com deficiência. Excetuando os órgãos públicos, que divulgam edital atendendo à legislação, as empresas de pequeno e médio porte a desconhecem, assim como a maioria da população que poderia estar cobrando seu cumprimento. No entanto, não basta tornar efetivo o que estipula o Decreto sem uma mudança geral de mentalidade; essa contratação deveria ser uma ação natural do empregador, sem objetivos de propagar o ato de "bondade" com a pretensão única de lucro.

Na época da 2ª Guerra Mundial todos os portadores de deficiência trabalharam e foi um momento importante, porque puderam mostrar a sua eficiência. Em 1914, Henry Ford, dono de uma fábrica com mais de nove mil funcionários, tinha 940 funções de trabalho pesado, mais de 3.000 de força média e as restantes sem exigir força de trabalho. Dessas, 670 eram feitas por pessoas sem as duas pernas; mais de mil por pessoas com uma perna e várias por cegos. Por volta de quatro mil vagas não exigiam que empregados tivessem todas as funções completas. Hoje ainda discutimos a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho...

Um professor da Faculdade Getúlio Vargas, num Congresso em São Paulo que participei, contava como despertou para a importância de adaptar seu currículo do curso de Administração para atender pessoas com deficiência. Numa aula, falando sobre disposição de móveis num escritório em relação à luz do dia, ouviu de um aluno (segundo ele), "espírito de porco: -E se a pessoa for canhota?... E se for cega?... E se usar cadeira de rodas? O professor começou a refletir sobre essas peculiaridades, modificando suas aulas e preparando alunos para, como empregadores, preocuparem-se com essas questões. Dessa forma, disseminou suas idéias aos outros professores que, aos poucos, fizeram o mesmo.

Por esse exemplo, vemos a força da Escola e a importância de todos os cursos de graduação estarem abordando assuntos da Educação Inclusiva. Se começarmos a trabalhar nesse sentido, desde a Educação Infantil, estaremos formando cidadãos que amanhã serão empregados e empregadores mais conscientes quanto ao acolhimento natural do diferente. Se eu não convivi na infância com uma pessoa com deficiência na escola, ficará difícil o convívio no trabalho. o meu colega será sempre uma pessoa com deficiência que não deve pensar normalmente como eu... e suas oportunidades serão sempre escassas. Que homem é este que devemos formar? Não há fôrmas, há formas. Somente a escola poderá valorizar a diferença como elemento enriquecedor do desenvolvimento pessoal e social, definindo a inclusão como um projeto da escola que incorpora a diversidade como eixo central da tomada de decisões.

* Maria Alice Campos Mesquita da Silva é professora da rede pública Estadual com Habilitação em Educação para Pessoas com Deficiência intelectual pela USP e Pós-Graduação em Educação e Reabilitação de Surdos pela UNICAMP.