do livro: Sopro no Corpo.
Espalharam a Notícia.
A minha não-aceitação à diabetes era bastante perceptível desde criança. Por
algumas vezes, cheguei a percorrer os apartamentos de vários prédios,
arrecadando donativos para flagelados de alguma enchente. Só que os flagelados
não deviam ficar tão satisfeitos quanto o dono da padaria: gastava tudo em
doces.
Recordo-me, também, das festas de aniversário infantis a que eu ia. A
princípio, se me oferecessem doces ou Coca-Cola, dizia que não. Se insistissem
dizia que não podia porque era diabético, e aí recebia logo elogios por ser um
menino responsável. Aquilo me deixava orgulhoso...
Havia, no entanto, as
festinhas em que as pessoas eram avisadas previamente do meu problema; mas eu
logo sacava o lance. Alguém sempre vinha com uma bandeja de Coca-Cola e oferecia
para o coleguinha da frente, o da direita e o da esquerda, e passava direto por
mim. Ficava certo de que já haviam espalhado a notícia... Pegava, escondido, o
máximo possível de Coca-Cola e doces e ia comer, trancado no banheiro, de frente
para o espelho, fazendo os mais variados tipos de caretas, como se meus pais
estivessem ali para vê-las. Ficava com muita raiva, principalmente de meu pai,
que era quem, normalmente, avisava das minhas proibições nas
festinhas.
Trecho do meu livro
"Sopro no Corpo: Vive-se de Sonhos".
Disponibilizado em: 21/06/2000.