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Sou Luiz Fernando da Silva Costanza, 51 anos, médico aposentado, diabético e conheci o Marco Antonio (MAQ) através de conversas telefônicas a respeito de transplantes, já que eu tinha mais de 10 anos de transplantado renal e ele queria conhecer minha experiência.
Em 1973 formei-me em Medicina (aos 24 anos de idade), já tendo casado um ano antes e sendo pai aos 25 e26 anos. Tudo corria as mil maravilhas: bem casado, com dois filhos excelentes, chefe de um serviço de pediatria importante, possuidor de casa própria, etc.
Em 1985, aos 36 anos, passei pela terceira "provação" da vida quando comecei a ter pressão alta, com edema em ambas as pernas e, às vezes, enjôos inexplicáveis. Certo dia amanheci completamente edemaciado. Todo o meu corpo estava inchado, disforme. Imediatamente solicitei um exame de uréia e outro de creatinina, que dão uma indicação de como está a função renal, e a minha estava no fim. Fui encaminhado para uma clínica especializada em hemodiálises.
Aquela aparelhagem da hemodialise lembrava-me a imagem do cão Cérbero, guardião da porta das "Profundezas". Assim "vivi" durante 1 ano e 8 meses: vomitando, sem exageros, 300 dias por ano e tendo perdido a maior parte da visão na máquina, devido a uma convulsão após estourar o tubo que conduzia o sangue ao aparato mecânico.
Meu segundo nascimento foi em 28 de outubro de 1987, ao qual denomino a data de minha "revida", pois é a data de meu transplante renal.
Recebendo uma indicação de um colega telefonei para o Dr. Emil Sabaga, na época um dos maiores "experts" do assunto no Brasil, em São Paulo, hoje aposentado. Contei-lhe que era médico pediatra, com 36 anos e dois filhos pequenos(11 e 10 anos), e que no Rio de Janeiro haviam me negado o direito de fazer o transplante por um grupo de psicólogas, porque meu doador não era "relacionado" (parente). Achando um absurdo, mandou-me ir imediatamente a São Paulo e, ao ver-me, disse para minha esposa secretamente, que se não fizesse o transplante com urgência teria, no máximo, 3 meses de vida.
Em pouco tempo estava operado, embora os "médicos" daqui dissessem que morreria na cirurgia. Sem nenhum problema intercorrente recebi o órgão transplantado em 28 de outubro de 1987, como já disse, meu segundo nascimento, ao qual denomino a data de minha "revida".
No pós-operatório, ao acordar,colocaram a minha frente um prato de comida. Hesitei achando que iria "rejeitá-la" vomitando, como de costume, mas, para minha surpresa, nada ocorreu! Depois ingeri um copo d'água, o que não fazia havia muito tempo... Esse não agüentei, chorei!
Essa foi minha passagem, como digo, do Inferno para o Céu, visto que, no período em que fazia diálise fiz 6 cateterismos de subclávia, 2 de femural, punção pericárdica e pleural, fenestrei (janela) o coração, fiquei tetraplégico por 24 horas, devido ao excesso de potássio acumulado no sangue, voltando os movimentos após 8 horas de diálise, bem "apertada". Por isso tudo, criei uma frase que sempre cito: "Só reconhece o Céu quem já passou pelo inferno".
A partir do transplante, para mim, apesar da obrigatoriedade dos medicamentos imunossupressores, da barriguinha e da Cara de Lua devidos ao uso de corticóides, é uma maravilha poder comer de tudo, beber quantidades ilimitadas de água (ao invés de um "dedo" por dia!). Enfim, já se passaram 12 anos e estou bem, minha luta não foi em vão.
Parabenizo aqui a colega Marilene, a quem não conheço, por seu desprendimento e amor ao MAQ quanto à doação, e ao amigo MAQ pelo transplante, a quem, corretamente, aconselhei.
Rio, 14 de março de 2000.
Luiz Fernando da Silva Costanza.
Observação do MAQ:
Este depoimento continua na Bengala Legal em homenagem póstuma ao
meu amigo e conselheiro Luiz Fernando da Silva Costanza, que foi um
lutador que, com sua experiência, ajudou muitos, como eu, a
seguirem pelo melhor caminho.
Disponibilizado em: 15/03/2000.
