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Sou Luiz Fernando da Silva Costanza, 51 anos, médico aposentado, diabético e conheci o Marco Antonio (MAQ) através de conversas telefônicas a respeito de transplantes, já que eu tinha mais de 10 anos de transplantado renal e ele queria conhecer minha vivência. Vou tentar mostrar aqui minhas experiências pessoais, pelas quais, espero, muitos outros não passem.
Aos 14 anos de idade, depois de uma infância feliz, com muita saúde e alegrias, após visitar uma "Feira da Providência", na qual ganhei como prêmio de uma barraca, uma lata de leite condensado que sorvi de uma só vez, chegou o momento de minha primeira "provação" na vida. Na manhã seguinte acordei com uma vontade imensa de urinar, com sede excessiva e fome intensa. Passei muitos dias escondendo essa situação de meus pais, pois eles trabalhavam fora e eu fiquei com receio que achassem que fiz alguma coisa errada (meu pai era muito severo). Comecei imediatamente a emagrecer, chegando a pesar 41 quilos assustando-me bastante, já que meu peso normal era de mais ou menos 60 quilos.
Preocupados devido à brusca perda de peso, meus pais levaram-me à casa de um tio que era médico. Este, quando me viu, pensou imediatamente que eu estava com leucemia, devido também a uma intensa astenia, recomendando um hemograma completo com urgência. No mesmo dia do exame recebemos o resultado: 496mg% de glicose. Meu tio quando viu o resultado exclamou: "Graças a Deus!", porque verificou que não se tratava de leucemia, doença que em 1963 muito pouco se sabia a respeito.
A partir daí começaram as "leis unânimes": "você não pode se machucar, pegar doenças, correr, nem praticar esportes etc.". Então, como não sentia nada, com o açúcar controlado pela insulina e pela dieta, comecei a treinar jiu-jitsu escondido de meus pais. Daí por diante fiz toda sorte de esportes, sobressaindo-me em alguns. Meus pais, na verdade, só tomaram conhecimento de minhas atividades "clandestinas", quando tirei segundo lugar num campeonato expressivo de caratê! Ficaram um pouco atônitos mas depois de saberem a quantos anos eu praticava esportes absorveram a idéia.
Comecei, então, a me achar o "inatingível", iniciando a comer doces numa crescente ilusão. Como não sentia nada e me destacava nos esportes, apesar de tomar insulina, entreguei-me à "embriaguez" do açúcar. Hoje em dia dou graças a Deus por ter praticado esportes intensamente, pois até guia alpinista fui, tendo em vista que, provavelmente devido a isso, não apresentei um enfarto até o momento (intensa circulação colateral).
Em 1973 formei-me em Medicina (aos 24 anos de idade), já tendo casado um ano antes e sendo pai aos 25 e26 anos. Tudo corria as mil maravilhas: bem casado, com dois filhos excelentes, chefe de um serviço de pediatria importante, possuidor de casa própria, etc. De repente, a segunda "provação" na vida: comecei a ficar impotente, embora não totalmente. Em várias ocasiões aconteceu o terror da falta de ereção, acompanhada de profunda depressão emocional. Mas, antes que essa se instalasse completamente, procurei um cirurgião que havia voltado da Europa, acompanhando as mais recentes técnicas de implante de próteses penianas. Em 1983 fiz a cirurgia, da qual não me arrependerei nunca, pois resolveu tranquilamente a problemática, inclusive a psicológica. A partir daí passei a ter relações sexuais normais, até melhoradas, num período de tranqüilidade total.
Em 1985, aos 36 anos, passei pela terceira "provação" da vida quando comecei a ter pressão alta, com edema em ambas as pernas e, às vezes, enjôos inexplicáveis. Certo dia amanheci completamente edemaciado. Todo o meu corpo estava inchado, disforme. Imediatamente solicitei um exame de uréia e outro de creatinina, que dão uma indicação de como está a função renal e estava mal. Fui encaminhado para uma clínica especializada em hemodiálises. Aquela aparelhagem da hemodiálise lembrava-me a imagem do cão Cérbero, guardião da porta das "Profundezas"... Assim "vivi" durante 1 ano e 8 meses: vomitando, sem exageros, 300 dias por ano e tendo perdido a maior parte da visão na máquina, devido a uma convulsão após estourar o tubo que conduzia o sangue ao aparato mecânico.
Meu segundo nascimento foi em 28 de outubro de 1987, ao qual denomino a data
de minha "revida", pois é a data de meu transplante
renal.
(Ler depoimento em
Doenças Renais e Transplante).
Após um ano de transplante, começou minha quarta "provação" na vida: já tendo circulação deficiente, principalmente nas extremidades, devido à diabete (diabetes mellitus), tendo machucado o pé esquerdo tive gangrena em dois dedos, tendo que amputá-los conseqüentemente. Apresentei um quadro de osteólise nesse pé, que é a reabsorção dos ossos pelo organismo (Mal de Charcot) e devido a isso fui obrigado a amputar metade do pé esquerdo (amputação transmetatarsiana). Há 4 anos atrás tive que amputar metade do pé direito, pelos mesmos motivos, ficando, portanto, sem a ponta dos pés. Mesmo tendo feito uma cirurgia intermediária para correção de estenose de ureter, continuo otimista em relação a minha vida, tanto que, há pouco tempo larguei a cadeira de rodas que era companheira inseparável para voltar a caminhar por mim mesmo, apenas com a ajuda de uma bengala de apoio.
Sou otimista e meu otimismo é devido ao fato de, se permanecer com bom estado geral, poderão surgir novas perspectivas quanto às complicações da diabete, como a desobstrução de artérias com novas substâncias descobertas, além do fato de que, apesar de todos os meus limites, curto muito a vida! Se você é diabético e gosta da vida, não abandone seu tratamento, seja consciente e assuma suas restrições.
Rio, 14 de março de 2000.
Luiz Fernando da Silva Costanza.
Observação: este depoimento está na "Bengala
Legal", como homenagem póstuma ao amigo e conselheiro que foi,
para mim, Luiz Fernando.
Agosto de 2002.
Disponibilizado em: 15/03/2000.
