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Meu nome é João Teófilo, sou transplantado duplo - rim/pâncreas - há quatro anos e fui diabético desde os onze anos de idade. Lembro-me que era uma criança obesa que de repente começou a perder peso. Na época, isso foi uma alegria para mim e uma grande preocupação para meus pais. Nos primeiros anos de doença era fácil controlar a glicose, bastava uma insulina rápida, um pouco de exercício e pronto.
A satisfação de não ser mais chamado de "elefante", "hipopótamo", "rolha de poço" e outros apelidos era bastante para esquecer dos riscos de complicações crônicas que os médicos me alertavam que poderiam acontecer. Aproveitava, também, a preocupação dos meus pais para chamar a atenção comendo doces escondido e sempre dando um jeito para que alguém descobrisse. Apesar de quase todos me tratarem como "coitadinho" e de eu me aproveitar bastante disso, meu pai me obrigava a fazer muito exercício. Ele dizia que este era o método mais eficiente de evitar-se as complicações secundárias da doença. E realmente foi.
Apesar dos grandes abusos na infância e no início da adolescência, mais ou menos com 17 anos resolvi me cuidar e a fazer dieta rigorosa. Adorava andar de bicicleta e qualquer outro esporte solitário. Mas aos 25 voltei a abusar novamente da dieta e desta vez não era somente doces e massas: bebia bastante cerveja e outras bebidas alcoólicas. As complicações começaram a aparecer. Neuropatias me queimavam o dorso dos pés, desequilibravam minha digestão e me trouxeram outras conseqüências. Comecei a fazer aplicação de laser por causa de uma retinopatia que evoluiu rapidamente e os rins começaram a ficar preguiçosos.
Mesmo assim, cheguei aos trinta e três relativamente inteiro. Foi quando fiquei sabendo de um milagre que poderia evitar que as complicações que estavam avançando sem controle continuassem avançando: o transplante duplo rim/pâncreas. Não tinha saída. Ou fazia ou logo estaria sem visão e na hemodiálise. Só havia dois casos e elas estavam muito bem. Decidi que iria fazer e foi a melhor decisão que já tomei na minha vida. Isso aconteceu há quatro anos e hoje agradeço a Deus e à equipe de médicos pioneiros que tiveram a audácia de enfrentar barreiras e implantar esta técnica de cirurgia no Brasil.
João Teófilo Rodrigues Maia - transplantado na Beneficência Portuguesa - São Paulo/SP em 09/08/1996.
Disponibilizado em: 25/01/2001.
