Inclusão pede preparo estrutural e pedagógico.

13/09/2010 - Jornal O Estado de S.Paulo.

Adaptar o currículo e encontrar a melhor maneira de explorar o potencial da criança são desafios dos professores.

Com um punhado de giz de cera colorido, Daniel Shumaker, de 5 anos, pinta a folha sulfite da atividade proposta pela professora. Cada pincel é adaptado para caber direitinho em sua mão - Daniel tem paralisia cerebral. "Gosto de brincar com os meus amigos aqui", conta o garoto, que sonha em ser policial quando crescer. Depois que o parquinho da escola municipal em que estuda foi reformado com rampas, Daniel, que é cadeirante, passou a brincar na areia.

Além de adaptações na arquitetura e nos materiais didáticos, a rotina de uma criança com deficiência numa escola regular exige preparo dos educadores e funcionários. Para os professores, os maiores desafios são, principalmente, adaptar o currículo e encontrar a melhor forma de explorar o potencial da criança.

"Eles aprendem do jeito deles. Todos somos diferentes. É o mesmo com eles: cada um tem seu tempo, seu canal de comunicação", sintetiza a professora Catia Ramalheiro, que educa 20 crianças com deficiência em uma das salas de apoio e acompanhamento à inclusão da Prefeitura.

Criar vínculo com o aluno e humanizar a turma para receber a criança são outras tarefas importantes. "A inclusão social começa na escola. Algumas mães, depois que matriculam o filho, passam a ter coragem de levá-lo ao mercado ou ao shopping", conta Débora Corrêa, de 29 anos, professora de apoio e acompanhamento à inclusão.

O processo de inclusão, seja na rede pública ou na particular, é delicado e exige muitos esforços da escola. Não foi o que aconteceu com Marina Massayo Yonashiro. Quando estava na 6.ª série, ela perdeu a visão. A princípio, decidiu ficar no colégio onde estudava há anos, mas percebeu que não foram feitos esforços para atender suas necessidades. "Achei que não era mais bem recebida."

Na 8.ª série ela se transferiu para o Arquidiocesano, onde hoje, com 16 anos, cursa o 2.º ano do ensino médio. "A Marina é sensível, estudiosa, independente. Ninguém tem dó dela. Tê-la aqui é um aprendizado para professores e colegas", diz a assessora pedagógica Marisa Rosseto.

Medo. Ao aceitar a matrícula de um aluno com deficiência, os colégios precisam se dedicar a fazer um bom trabalho pedagógico e de socialização. "Não adianta incluir para excluir em seguida", diz Célia Tilkian, diretora da escola PlayPen, que já teve alunos que ficavam com acompanhante em sala.

Muitos pais, porém, sentem medo de deixar seus filhos em colégios regulares. "As escolas especiais sempre foram associadas à ideia de proteção. O medo é justificável, por isso tem de haver simultaneamente um suporte para a família", afirma Marília Costa, gerente técnica da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

A experiência do Colégio Radial, que recebe alunos surdos desde 1994, mostra que é possível fazer com que todos convivam bem. "Para os surdos, a experiência é vantajosa para aprenderem como se integrar de forma plena, treinando para o futuro profissional. Os ouvintes ganham ao conhecer, conviver e respeitar as diferenças e os limites de cada um", diz Ana Lídia Thalhammer, coordenadora da área de surdez.