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Meu nome é Gesuel Tonon, tenho 33 anos, sou de uma cidade do interior de Minas Gerais. Vou tentar contar um pouco da minha experiência com a Diabete e as suas conseqüências.
Como um garoto do interior, tive uma infância comum, igual a de qualquer outro. Mas aos nove anos de idade, comecei a sentir algo que não era normal nos meus amigos: eu tinha muita sede e uma vontade incontrolável de urinar. Quando estava brincando com os amigos, tinha que sair correndo pro banheiro ou então fazia tudo nas calças!
Passei alguns dias assim: levantava a noite pra fazer xixi e pra tomar água, muita água. Até que meus pais perceberam que eu não estava legal. Então, me levaram ao médico. Este já pediu um exame de sangue. Exame que demorou mais um dia para ficar pronto. Lembro-me bem que era uma quinta-feira de Semana Santa quando tive a notícia de que estava com Diabete!! Mas o que era isso?? Pra um menino de 9 anos não tinha muito sentido essa palavra "DIABETE".
Desse dia em diante, fui controlado pelos meus pais para não fazer nenhum tipo de "extravagância". Isso queria dizer: comer doces, beber refrigerantes, balas, sorvetes e tudo mais que tivesse açúcar, pois afinal, naquela época, era difícil encontrar "dietéticos" numa cidade do interior. Além disso, era obrigado a tomar uma injeção todos os dias, a tal da insulina.
Apesar dessa diferença entre mim e os meus amigos, a minha infância não foi diferente dos demais meninos de minha idade. Mesmo com as restrições de alimentação eu estudava, jogava bola com os amigos, brincava com todos os colegas. Por alguns anos minha vida foi assim.
As coisas começaram a mudar, de maneira mais radical, quando comecei a achar que já era um adulto e podia fazer o que quisesse sem ouvir meus pais e os meus amigos, os que já estavam a par do que eu tinha: a "diabete". Assim, comecei a sair da linha com o regime, a comer coisas que não podia, a beber refrigerantes, tomar cerveja e outras bebidas alcoólicas...
O protesto dos amigos era ouvido mas eu dizia para mim mesmo -"eu não estou sentindo nada, é porque não ta fazendo mal". Grande o meu engano! A diabete estava me corroendo em silêncio e eu era alertado pelas pessoas que gostavam de mim, que conviviam comigo. Sabia disso mas não dava crédito a essa situação. Tomava minha dose de insulina todos os dias e achava que isso era o suficiente para controlar a diabete. Comia e bebia o que tinha vontade, fosse o que fosse...
Esse descontrole foi me levando ao quadro em que vivo hoje: a cegueira e a deficiência renal. Isso ocorreu aos meus 25 anos. Daí em diante, tive que afastar-me do serviço, dos estudos e da liberdade que tinha em minha vida, pois passei a fazer hemodiálise. No início por duas vezes na semana, durante um ano mais ou menos. Depois passei a fazer a hemodiálise três vezes na semana. Esse tratamento é uma "prisão" que os renais têm de enfrentar sem poder deixar sequer um dia sem fazer. Ter que se ligar a uma máquina pra ter seu sangue limpo não é uma situação nada cômoda. São 4 horas por dia, sujeito a pressões baixas, enjôo, câimbras e desgaste físico massacrante para o organismo. Sem contar que a diabete me iniciou a deficiência visual, a hemodiálise acabou levando o resto da minha visão. Esta já estava comprometida pela diabete quando comecei a fazer hemodiálise. Hoje, não tenho mais visão alguma...
Apesar de tudo isso sou um grande otimista, gosto da vida e luto muito para que ela esteja presente todos os dias em mim. Hoje me apóio em meu pai, pois já não tenho mais minha mãe, em meus amigos e em minha própria experiência já vivida para ter disposição e esperança de ainda viver muito e poder passar essa vivência para outras pessoas, que têm essa doença chamada "DIABETE" e ainda não tiveram a consciência de que ela é malvada e nos prejudica em silêncio. Cuide-se, faça exames regularmente, consulte um bom médico, trate bem de sua alimentação, não faça uso de bebidas alcoólicas, deixe os excessos para traz, pratique esportes, tenha uma vida saudável. Essas são sugestões de quem não as praticou!
Andradas, 06 de maio de 2000.
Gesuel Tonon.
Observação feita por Gesuel no início de 2001:
Sou um diabético, ou melhor, eu era um diabético!
Isso mesmo, eu era um diabético!
No final do ano de 2000 fiz um transplante duplo (rim e pâncreas), que
me proporcionou o fim das seções de hemodiálise, as quais me submeti
durante 8 anos, e também me libertou do uso da insulina e dos regimes
alimentares exigidos pela diabetes...
Observação feita por mim em Abril de 2006:
Gesuel continua tremendamente bem e é um excelente exemplo de um
transplante com total sucesso.
Disponibilizado em: 08/02/2002.
