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Reportagem de Teresa Caram.

"Ainda temos que enfrentar muito preconceito, proveniente do desconhecimento
e da ilusão de quem não conhece a nossa
realidade.
Diabético aos 3 anos e cego aos 21, em conseqüência de
retinopatia diabética, Marco Antonio de Queiroz não deixou que
isso se transformasse numa
barreira intransponível. Pelo contrário, armou-se de coragem e
enfrentou a vida de peito aberto. Estudou história na PUC Rio, fez um
curso de
programador de computadores e trabalhou durante 23 anos até se
aposentar em conseqüência de dois transplantes, um de
pâncreas e outro de rim. Casado,
pai de um filho, publicou em 1986 o livro Sopro no Corpo, no qual narra sua
história até 1985, contando como ficou cego, como aprendeu a
usar a
bengala e a perder o medo e a vergonha de ser deficiente e ir à luta.
Agora, ele relança a obra com o título Sopro no Corpo: Vive-se
de Sonhos, pela
Editora RiMa. Além de contar sua história até hoje,
também explica como a vida dos cegos mudou com a internet. Nessa
autobiografia, optou por narrar
sua vida da mesma forma que a leva, com bom humor e suavidade. "Revelo
minhas vitórias e derrotas, dores e prazeres para, no final, o leitor
sentir
que ela é um romance intenso, movimentado, que amo a vida justamente
porque, com todos os meus limites, realizei meus maiores sonhos",
afirma. O livro
pode ser definido como uma declaração de amor à vida.
- ESTADO DE MINAS - Como você aprendeu a lidar com a
deficiência visual?
- Marco Antonio de Queiroz - Ser cego, realmente, não é como
as pessoas imaginam ser quando fecham os olhos por um minuto e tentam fazer
algo. Fiquei
cego aos 21 anos e não tinha nenhum tipo de contato com essa
realidade. Não dá para acreditar muito que aquilo que
aconteceu é definitivo. Você não se
sente cego, mas percebe a coisa como se fosse momentânea, até
que a consciência da realidade aparece de frente e não
há saída possível. Passei, então,
por uma fase de entendimento da deficiência em que aprendia a andar, a
me vestir, a tomar banho, pegar condução e, aos poucos,
já estava retomando
minha faculdade e aprendendo cada vez mais como fazer as coisas sem ver.
Arrumei trabalho, casei, tornei-me pai e escrevi um livro. Ou seja, retomei
a
vida.
- A perda da visão foi gradativa ou aconteceu de uma vez?
- MAQ - Sendo simplista, posso dizer que encostei meu carro na garagem, no
sábado de Carnaval de 1978, subi para o apartamento, dormi e acordei
cego.
Apesar de perceber vultos que poderiam me dar orientação se
tivesse experiência, não consegui andar só. Depois, no
entanto, os vultos se foram. Agora,
faço tudo o que posso sozinho, e não é pouco. No livro
conto tudo isso.
- Teve algum momento em sua vida que você se desesperou ou ficou se
perguntando: "Por que isso aconteceu comigo?" Você procurou
respostas ou aceitou o
fato naturalmente?
- MAQ - Acho que aceitei minha cegueira com muita rapidez. Para isso ser
entendido, posso explicar que já era uma pessoa que, apesar de ter
muitos
amigos, sentia-se meio fora de esquadro, diferente dos outros. Quando veio a
deficiência visual, ser mais diferente do que já me sentia por
ser
diabético não foi traumático, foi tão somente
uma importante dificuldade a ser ultrapassada. Sentir-se diferente e ser
diferente podem ser coisas que
venham juntas ou não. Eu já me sentia diferente. Socialmente,
tive vergonha de ser cego, mas logo que encarei o fato, fui à luta.
À falta das imagens
a gente se adapta até com rapidez. O problema quase sempre é
muito mais emocional que prático.
- Você fala no livro que o cego é educado dentro de conceitos
distorcidos. O que significa isso?
- MAQ - Significa que, em geral, nós, os cegos, somos educados para
não fazer nada. Tudo chega às nossas mãos. A
família se reveza para que não
toquemos nas coisas, com medo que nos machuquemos ao realizar as tarefas
mais simples. Isso é a superproteção. Quando o cego
consegue, por exemplo,
usar uma faca para cortar o pão, o queijo, aprende a utilizar a
torradeira automática ou mesmo, por vezes, tenta pegar um copo
d'água, a família fica
tensa e, muitas vezes, corta-lhe a iniciativa. Assim, alguns de nós
acabam ficando exatamente o que as pessoas imaginam que seja um
"ceguinho", ou
seja, uma pessoa incapacitada para qualquer coisa prática. No
entanto, tenho amigos cegos que já escalaram o Pão de
Açúcar, já foram à Inglaterra
desacompanhados para fazer cursos de inglês, trabalham e moram
sozinhos ou casados com pares cegos ou com visão. O cego tem que ter
atitude para
conseguir sua emancipação, sua liberdade.
- Você enfrentou preconceito na faculdade e no trabalho?
- MAQ - O preconceito, com o tempo, vai se desfazendo socialmente. Mas esse
é um processo bastante lento. As pessoas, cada vez mais, se acostumam
a
ver um cego no cinema, no teatro, no trabalho, nas reuniões, andando
com certa independência pelas ruas, aparecendo aqui ou ali. A
mídia, a novela, as
páginas da internet (www.bengalalegal.com é meu site), enfim,
nossa presença cada vez maior no meio social acaba por fazer as
pessoas acostumarem
conosco, questionarem-se sobre o que podemos ou não fazer. No
entanto, ainda temos que enfrentar muito preconceito, proveniente do
desconhecimento e
da ilusão das pessoas que imaginam, mas não conhecem, nossa
realidade. Passei por preconceitos na faculdade e no trabalho, mas sempre
dei a volta por
cima e espero que isso continue. Por outro lado, a convivência com as
pessoas cegas faz com que todos acabem por perceber que não somos
exatamente
como pensam. Com isso, o preconceito se modifica, tornando-se mais ameno.
- O que mudou depois do transplante de rim e pâncreas? A expectativa
que você tinha antes se realizou ou você teve que se adaptar?
- MAQ - Tanto os meus transplantes quanto a cegueira são
conseqüência crônica da diabetes. Se ela não for bem
tratada, se o diabético não assumir a
camisa de que tem a doença, e não seguir as regras que ela
dita inexoravelmente, poderá passar por tudo o que passei. Os
transplantes são a solução
mais moderna e completa existente para nós, diabéticos que
perderam - ou estão por perder - as funções renais ou
qualquer outra perda, como a da
visão, e que estão com uma diabetes completamente
descontrolada. Meu transplante de rim foi sucesso total. Eu fazia tratamento
de hemodiálise há três
anos e a mudança foi da água para o vinho. Diria mais: do
inferno para o céu. O transplante de pâncreas eu repetiria mil
vezes, se fosse necessário,
mas seu sucesso, ao contrário do que acontece com a maioria das
pessoas que o fazem, para mim não foi completo. Ele é feito
para acabar com os
sintomas da diabetes e, no meu caso, não preciso mais tomar insulina.
Portanto, deixei de ser um diabético insulino-dependente, mas ainda
tenho que
fazer dieta e tomar remédios para resistência à
insulina, pois o açúcar no sangue sobe quando cometo abusos. A
qualidade de vida que esses
transplantes me proporcionaram foram excepcionais. Posso dizer que,
organicamente, sou outra pessoa. É bom salientar que o transplante de
pâncreas só
é feito em pessoas com diabetes do tipo 1, que já estejam com
alguma conseqüência crônica da doença. Tratar a
diabetes, controlar o nível glicêmico é
muito mais simples que fazer transplantes e se submeter à
imunossupressão, tratamento para que nossas defesas orgânicas
não ataquem os órgãos
transplantados.
-É fácil viver numa sociedade que coloca muitas barreiras para
a pessoa com deficiência?
- MAQ - É mais fácil ser cego do que ser visto como cego.
É mais fácil ser uma pessoa com qualquer deficiência que
seja, do que ser visto como uma
pessoa deficiente. É mais fácil ser gordo do que ser visto
como gordo... (sou magro). Todos gostaríamos de olhares mansos sobre
nós. O olhar
preconceituoso pode ferir, pois é ele que gera as atitudes.
- Já mudou muita coisa ou a sua percepção é de
que o preconceito ainda é muito forte?
- MAQ - As idéias mudam antes que as atitudes. Podemos ser
politicamente corretos nas palavras, fica bonito, mas na hora da coisa
acontecer
espontaneamente, o preconceito aparece na maioria das vezes. Porém,
nesses 27 anos de cegueira, percebo mudanças acontecendo e a
sociedade, em geral,
se aproximando, querendo saber, solidarizando-se.
- O que você pretende passar no livro? - MAQ - Pretendo mostrar minha
história de vida. Sopro no Corpo: Vive-se de Sonhos é uma
autobiografia na qual
revelo minhas vitórias e derrotas, dores e prazeres para, no final, o
leitor sentir que ela é um romance intenso, movimentado, que eu amo a
vida
justamente porque, com todos os meus limites, realizei meus maiores sonhos.
Por isso, com toda a luta, não deixo de sonhar. Todos que lerem meu
livro
vão perceber que a vida me deu muitos presentes e que, por isso
mesmo, não a deixo, aos pedaços, pelo caminho. Estou vivo, amo
a vida.
Disponibilizado em: 19/09/2005.
