Educação Física e Pessoas com Deficiência.

23/07/2007 - Miguel Lopez Melero.*

A Educação Física e as Pessoas com Deficiência:

1. Introdução.

Considero esta conversa como um espaço para a análise, o debate e a reflexão sobre o papel que eu atribuo à Educação Física e ao esporte na vida e nas relações das pessoas com deficiência. Eu não sou um desportista, apesar de gostar muito de esportes e, portanto, não posso falar a partir deste âmbito. Sou educador, e é partindo da educação que eu vou falar. E vou fazê-lo com relativa experiência já que, durante dois anos, os princípios do projeto de investigação que eu dirijo, conhecido como Projeto Roma (que é subvencionado pela DGICYT - Direção Geral de Investigação Científico-Técnica de Madri), originaram um modo diferente de conceber e de desenvolver a prática do atletismo em pessoas com Síndrome de Down, como meio de desenvolver processos cognitivos, autonomia e competências sociais para o seu desenvolvimento no "labirinto da cidade de Málaga".

Repito que eu não sou atleta e sim educador. Por isso não vou falar de diminuições do tônus muscular ou de alterações metabólicas, nem de disfunções da tireóide, nem de menores conexões sinápticas, nem de incapacidades motrizes, nem de faltas de capacidade... Vou falar de pessoas que têm direito de ser diferentes. Mas antes de começar o meu discurso, quero expressar o meu agradecimento mais sincero aos organizadores deste evento por me convidarem a participar dele, já que esta é uma oportunidade a mais de falar e de expandir a cultura da diversidade.

Investigações recentes manifestaram que a simulação adequada e a utilização de métodos educativos apropriados conseguiram o desenvolvimento de competências físicas e desportivas antes inacessíveis às pessoas com deficiência, por causa do critério da falta de possibilidades dessas pessoas. A superação, com base em dados científicos, desse determinismo e desse fatalismo paralisante no tratamento e na educação das pessoas com deficiência, fizeram com que as intervenções educativas tradicionais tenham mudado - do isolamento primitivo e da segregação em instituições fechadas para a inclusão social e escolar atual, participando ativamente do desenvolvimento da sua autonomia pessoal e social.

Suponho que todos aqui presentes, treinadores e entendidos do esporte e da Educação Física, já terão ouvido falar da inclusão escolar e social das pessoas com deficiência como algo necessário para mudar os referenciais da escola e da sociedade. Vocês, treinadores, suas famílias e a escola, conhecedores das condições inerentes às pessoas com deficiências, não podem dar as costas a esta realidade. E é por isso que estamos aqui hoje, para reconceituar os papéis da Educação Física e do esporte para as pessoas com deficiência.

Pois bem, o fato de que sejamos conscientes disso não é razão suficiente para estabelecer, desde a mais tenra idade, como vem ocorrendo durante tanto tempo, modelos educativos diferentes tanto no âmbito específico da educação física e do esporte como na aquisição da cultura escolar. Sob esse modelo pseudo-educativo se esconde uma série de prejuízos às possibilidades das pessoas com deficiências. Elas são consideradas como seres incapazes de aprender e, quando os profissionais (de qualquer área que sejam) se aproximam deles, o fazem partindo de que são seres inferiores, e com um modelo subnormalizante. Fizeram-se profissionais não de Educação Física, mas de uma educação física subnormal e de segundo escalão. Não nos esqueçamos de que a Educação Física como disciplina é primeiro "educação" e depois "física".

Assim, de acordo com o que já dissemos anteriormente, as necessidades básicas das pessoas que são objeto desta conversa são o reconhecimento e o direito de ser atendidas e educadas adequadamente como pessoas e não como "deficientes". Neste sentido, se vocês não tem isso absolutamente claro em suas mentes, não se metam a treinar essas pessoas. Eles têm os mesmos direitos que o resto das crianças: manipular, conhecer, experimentar, brincar, relacionar-se, sentir, emocionar-se, desfrutar, rir...viver. Não estamos falando de caridade: estamos falando de direitos de pessoas.

A inclusão das pessoas com deficiência na vida escolar e social supõe uma profunda mudança na maneira de pensar do professorado e uma mudança no conteúdo e nos estilos de ensinar. No caso das disciplinas das quais falamos, a Educação Física e o esporte devem ser considerados dentro do currículo como matérias formativas e não complementares. Daí que a primeira mudança significativa da Educação Física dentro do currículo escolar é substituir o tradicional sentido de competitividade pelo da cooperação e da solidariedade.

A Educação Física e o esporte devem desenvolver a auto-estima dos alunos, e também a consciência de uma auto-exigência sadia, respeitando a identidade, a singularidade e a diversidade de cada um deles. Esse sentimento de nobreza no esporte é um dos elementos relevantes em outras culturas, como a dos esquimós no Canadá e dos tagus da Nova Guiné, onde a cooperação e a colaboração no desenvolvimento de atividades esportivas são premiadas, e a competitividade é rejeitada.

As pessoas com deficiência necessitam adquirir e dominar o movimento como as demais crianças. Por isso, não há como eliminar de sua educação as atividades esportivas, nem as de Educação Física nem as idas ao campo ou à rua. Há, isso sim, que dar a eles os apoios suficientes, tanto materiais como pessoais. E vocês, os profissionais, terão que buscar os meios técnicos que tornem possível a sua participação na atividade desportiva.

O fato de andar em uma cadeira de rodas, ou quando usa muletas ou tem um caminhar lento, ou não ouve ou não vê, não pode impedir-lhe que fique fora da atividade esportiva que esteja sendo realizada. O professor de Educação Física tem que saber mudar os estilos de ensinar para que não exista nenhum excluído. Vocês têm que buscar essas formas novas, e não pedi-las a mim como entendido em educação. Eu sei ensiná-los a criar cenários para que a aprendizagem se produza, mas não sei nada da atividade desportiva específica.

2. A Educação Física é muito mais do que saber praticar um esporte, é uma outra cultura.

No decorrer da História da Educação, podemos observar como a incorporação dos aspectos motrizes como elementos de valor pôde melhorar o âmbito intelectual, tanto nas dimensões neurológicas como sensoriais e de pensamento. O ser humano é uno e, portanto, não podemos separar o físico do emocional e do intelectual. Por isso, as experiências motrizes são tão importantes dentro do currículo escolar como o são as Matemáticas, a Literatura e a Física, para citar alguns exemplos. E os alunos têm que viver a Educação Física com o mesmo valor que vivem o resto das disciplinas do currículo.

Eu considero os professores de Educação Física e os treinadores como os profissionais que devem ter autonomia para desenvolver a sua profissão de modo cooperativo com o resto dos seus colegas. A partir dessa perspectiva, deverão receber uma formação teórico-prática dos diferentes tipos de deficiência e de suas possibilidades no mundo da Educação Física e do esporte.

Deverão, no entanto, receber em sua formação inicial não apenas um conhecimento específico, mas sim um conhecimento do saber-fazer em um contexto integrado, e desenvolver a sua matéria diferenciando o que é uma competição de elite do que é apenas uma matéria a mais no currículo. É de competência desse professor o saber identificar as necessidades específicas das pessoas com deficiência e determinar as diversificações para cada caso, e não a exclusão da prática de determinado esporte.

A inclusão das pessoas com deficiência na vida escolar e social supõe uma mudança de pensamento e de conteúdo na área de Educação Física. Essa mudança se orientará no sentido de considerar a Educação Física e o esporte como potenciais de transformação da própria matéria e do próprio esporte. Por exemplo, o esporte é considerado e comumente aceito como algo intrinsecamente competitivo e que gera competitividade. A reconceituação que a Educação Física vai experimentar é de, precisamente, evitar a competitividade como elemento de definição e, assim, desenvolver a auto-estima e a consciência de uma auto-exigência sadia, respeitando a identidade, a singularidade e a diversidade de cada uma das pessoas com deficiência. Essa é a minha maneira de pensar sobre a Educação Física, caso ela queira realmente cumprir seu papel dentro da escola. Ela deve ser uma disciplina não competitiva, mas cooperativa e solidária. Ao contrário de alguns autores que ressaltam que a competitividade na vida do ser humano alimenta uma maior produtividade e um desejo maior de perfeição em si mesma, o meu pensamento é de que o que ocorre é exatamente o contrário, e costuma-se confundir competitividade com ter êxito. Uma coisa é despertar a auto-estima e a autoexigência nas pessoas com deficiência - outra é despertar o sentimento de que têm que derrotar as demais.

Minha visão, portanto, sobre a importância da Educação Física e do esporte, vem marcada, desde o ponto de vista psicocinético, dentro do que podemos denominar de "método natural" ou a "educação em movimento", como costuma afirmar Le Boulch , ao assegurar que devemos utilizar o movimento humano em todas as suas formas para melhorar as faculdades humanas, como a coordenação, a organização espaço-temporal e os processos cognitivos de atenção, processamento e planejamento.

A partir do âmbito cognitivo e sob a influência vygotskiana, concretamente através da interpretação que faz J. Bruner, alguns autores, como Mosston, M. (1978) desenvolveram, partindo da educação motriz, uma teoria bastante aplicável a pessoas com deficiência e à qual chamou de "espectro de estilos e dissonância cognitiva", como os diferentes modos e ritmos de aprendizagem em todas as crianças. Mesmo que seus trabalhos sejam aplicáveis às pessoas com deficiências, ele não distingue, em suas considerações educativas, duas classes de pessoas (as deficientes ou não), mas diz que todas as crianças podem aprender, e a única educação válida para ele é aquela na qual todas as crianças, independentemente dos seus problemas, podem e participam efetivamente das atividades esportivas e motrizes de maneira lúdica.

Nessa mesma linha, Mosston está convencido de que, nos contextos de ensino e aprendizagem, o professor deve estabelecer situações diversas (e simultâneas, nós acrescentaríamos) que favoreçam a dissonância cognitiva, tais como modificação do contexto, provocando situações cognitivas nas crianças enquanto buscam uma solução para o problema proposto. Esse autor assegura que depois da superação da dissonância cognitiva há um aumento da atividade motriz e cognitiva.

É bastante interessante, nesse sentido, o pensamento de Cratty, B.J (1972), que desenvolveu uma teoria na qual tenta averiguar a relação existente entre a motricidade, as atividades escolares e a inteligência. Ele denomina esta teoria de desenvolvimento de "Teoria dos Quatro Canais". Os pontos essenciais são os seguintes:

  • A atividade motriz é um componente e não a única base do desenvolvimento das habilidades e destrezas humanas;
  • Quando se trabalha com crianças com problemas, há que se estruturar a atividade motriz, e não se pode desenvolvê-la de maneira indiscriminada com todas as crianças da escola elementar;
  • As áreas às quais as atividades motrizes podem ser de maior ajuda aos processos educativos são:
    • nas dificuldades que algumas crianças têm na escrita;
    • em ajudar algumas crianças a vencer problemas de autocontrole, a melhorar a atenção e acomodá-las às exigências de algumas tarefas de aula;
    • em melhorar algumas funções acadêmicas através da atividade motriz.

Nossa experiência no âmbito da Educação Física e do esporte, dentro do Projeto Roma, segue essa mesma linha. Tentamos fazer com que penetre (e não impor) o discurso da cognição e da metacognição no currículo escolar e nas provas esportivas que não sejam de elite. O mais importante é que a Educação Física e o esporte ajudem e favoreçam a organização e a representação mental de espaço, tempo, movimento, ritmo... É claro que existem objetivos a alcançar através da atividade esportiva! Mas eles não devem ser esperados no final do processo como prêmios (medalhas, no jargão desportivo), e sim encontrados na superação de todos os obstáculos do próprio processo de aprendizagem encontrados no dia-a-dia, e que existem desde que preparam a sua bolsa de material esportivo, tomam o ônibus ou vão andando sozinhos até o ginásio de esportes, compartilham os vestiários e façam a prova selecionada. Mas não podemos, de modo algum, pensar que o objetivo da Educação Física e do esporte está em competir e em vencer ao outro.

Eu sou dos que pensam que toda a atividade esportiva ou todo o jogo requerem um objetivo, e de que não há que esperar para o final da atividade para consegui-lo. Ele se encontra na superação de obstáculos durante o processo de realização, e eu não compartilho a opinião de que o objetivo seja o de vencer o companheiro. Por que há de haver vencedores e vencidos? Não há nenhum esporte ou jogo onde os participantes se esforcem para conseguir os objetivos de modo cooperativo? Se não há, temos que inventá-lo. Temos que despertar a emoção pelo esporte e pela Educação Física, simplesmente por que esporte é cultura.

Assim, todos os objetivos educativos fundamentais da Educação Física e dos seus profissionais serão a iniciação da criança nessa busca do conhecimento cultural e da tomada de consciência do próprio corpo (o conhecimento de si mesmo). Não me refiro aqui a tratar as crianças a partir da Psicomotricidade, nem a partir da Fisioterapia, que são disciplinas muito importantes em aspectos específicos - mas não o são para todas as pessoas. Não alcançar todos esses sentimentos e essas vivências nas pessoas com deficiência é condená-las, a priori, a uma educação inadequada, que fomentará o isolamento por causa das suas "condições" de movimento. A Educação Física e vocês, como técnicos, devem despertar nessas pessoas o sentimento de que são competentes cognitiva, afetiva e culturalmente, e que suas alterações funcionais não são um obstáculo para levar uma vida desportivamente sadia.

Sabemos que a aquisição da cultura (qualquer manifestação cultural) se produz sempre e quando se desenvolvem nas pessoas duas vias de acesso à mesma. Essas duas vias são, por um lado, a linguagem como instrumento de comunicação e de relação permanente entre as pessoas e, por outro, o movimento como forma de aproximarmos do mundo dos objetos, para o seu conhecimento e a sua compreensão. Desde a idade mais precoce, a família e a escola aprenderam que têm que ser lugares de descobrimento, de brincadeiras e de expressão de vivências que estimulem a criança com deficiência à vida de relação com o seu entorno. A Educação Física e o esporte, assim, têm que apresentar-se em um ambiente natural.

A criança com deficiência tem que aprender a relacionar-se com outros de sua idade e, por isso, precisa movimentar-se nessa riqueza relacional, tanto através da linguagem quanto através do movimento. Do contrário, produzir-se-á uma enorme pobreza experiencial, que a impedirá de adquirir a cultura. Competência cultural e qualidade de vida devem vir através de sua própria experiência. As normas de um esporte ou prova atlética devem ser adquiridas em um ambiente natural de aprendizagem, como atividade que dê prazer, o que deve ser finalidade permanente na vida das relações. Saber que se faz algo com um objetivo evitará o aborrecimento, o tédio e a rotina para as pessoas com deficiência. Também o saber o "por que se faz" e o "como se faz" - ainda que se faça como movimentos trôpegos ou pouco vistosos - ou seja, conhecer a utilidade e a funcionalidade da atividade esportiva é muito mais importante do que a "maestria do especialista", por que esse conhecimento vai permitir desenvolver processos de atenção e de memória, já que desperta a curiosidade e a reflexão sobre o que está sendo feito.

Tudo isso vai permitir, sem traumas, que a criança vá descobrindo o próprio corpo. Esse conhecimento e o controle do próprio corpo vão possibilitar que ela forme uma imagem de si mesma valorizando a sua identidade (auto-estima), valorizando suas competências expressivas e de ação (comunicação), adquirindo segurança na sua competência afetiva, emocional e relacional (segurança) e, por fim, desenvolvendo hábitos de saúde e atividades da vida cotidiana (autonomia). Se a educação para as pessoas com deficiência deve procurar, nos seus primeiros momentos, a iniciação no conhecimento cultural e o descobrimento das possibilidades do seu corpo para o movimento, as etapas posteriores devem aprofundar-se nesses mesmos âmbitos.

Nessa área, há que partir do princípio de que todas as pessoas, independentemente de sua deficiência, têm uma dimensão criativa e de que é preciso saber como descobri-la. Há que saber valorizar muito positivamente as atividades esportivas que elas realizem, por mais insignificantes que possam parecer. Essa valorização deve ser feita em função das possibilidades, competências e sensibilidades de cada uma das pessoas com deficiência, potencializando a dimensão criativa e divergente das mesmas e jamais comparando ou estabelecendo critérios competitivos com as outras crianças. A partir dessa perspectiva, há que cuidar para que as atividades não sejam uma ocasião para despertar sentimentos adversos e negativos que provoquem uma exclusão das pessoas com deficiência da vida de relação esportiva .

Estou de acordo de que exista uma finalidade nas atividades esportivas e de educação física? Claro que sim, e que elas devam estar dirigidas a:

  • estimular o desenvolvimento muscular necessário para alcançar desempenhos físicos equiparáveis aos das demais crianças;
  • conseguir o equilíbrio metabólico nas áreas deficitárias;
  • ser meios de inclusão, como componentes de equipes;
  • treinar e adquirir a disciplina esportiva necessária, aceitando e compreendendo as normas;
  • desenvolver a auto-estima e a vida de relação social.

Evidentemente que sim, mas sem esquecer em momento algum que a Educação Física e o esporte têm que garantir para as pessoas com deficiência a competência cognitiva, cultural e social suficiente para garantir uma vida de qualidade, como para qualquer outra pessoa. Essa educação deve focalizar-se na autonomia como um sentimento e um estado de espírito profundo, e não como uma permanente preocupação com a (dis)função muscular.

A falta ou dificuldade de movimento deve ser contemplada no currículo como um fator a atender, nunca como uma impossibilidade insuperável de levar uma vida autônoma. O conceito de autonomia, como nós o entendemos, tem que restabelecer nas pessoas com deficiência o controle e o domínio do seu próprio corpo e, sobretudo, do seu estilo de vida. Isso significa que seja qual for a ajuda institucional que recebam essas pessoas, elas devem viver a sua diferença como um sentimento próprio e pessoal de que não há nada que as impeça de conseguir aquilo que se propõem.

O conceito de vida autônoma acentua que o "problema" da pessoa com deficiência não está enraizado no próprio indivíduo e sim, fundamentalmente, nas respostas contextuais. Será, portanto, o contexto (familiar, escolar e social) que deverá mudar qualitativamente para que as pessoas com deficiência desenvolvam o seu estilo de vida com total direito, em uma sociedade aberta, plural e democrática.

Todas as pessoas, e as pessoas com deficiência não podem ser uma exceção, têm direito à cultura, à diversão, ao exercício físico, ao lazer, ao tempo livre... em condições normalizadas. As atividades culturais oferecem oportunidades únicas e insubstituíveis para que as pessoas descubram a si próprias e aos demais. Por isso, rejeitemos qualquer manifestação cultural, esportiva ou da vida cotidiana que suponha marginalização. Atividades assim só buscam uma imagem social aparentemente sensibilizada (estética?), por que motivam a participação e o intercâmbio de atividades esportivas das pessoas com deficiência, mas sem mudanças profundas (ética) no pensamento nem nas atitudes dos agentes sociais. É uma mudança mais aparente do que real.

No entanto, o pensamento da cultura da inclusão, como potencial de transformação social, é muito diferente e penetra no mais profundo do ser humano, no mundo dos valores e na moral. Daí resulta uma tomada radical de consciência (não dogmática) nos pais, no professorado e nos dirigentes, que permite uma mudança profunda em sua gestão e em seu pensamento. O movimento da cultura da diversidade não supõe apenas uma mera mudança estrutural nas instituições, mas requer uma mudança profunda no ideológico-político, nos sistemas de gestão administrativa, nos conceitos psicológicos, nos princípios e nos sistemas educativos e nas relações de comunicação entre as pessoas. A partir desse último ponto de vista, é simplesmente uma alternativa educativa aos modelos existentes.

Em uma sociedade pluralista, se aceitarão as diferenças e as heterogeneidades das pessoas como potencial para que a sociedade avance e chegue a ser eticamente madura. É um discurso que transcenderá a filosofia da normalização sempre e quando a sociedade seja eticamente madura para oferecer a todas as pessoas com deficiência as mesmas oportunidades que o restante da humanidade, tem de viver a sua própria vida com dignidade, e tenham consciência de si mesmas e de sua responsabilidade pessoal e social como pessoas ativas em uma sociedade aberta à diversidade.

Toda a sociedade democrática garante o direito de educação, de autonomia e de ter uma vida digna às pessoas. Ou seja, o reconhecimento da pessoa pelo que ela é e não por aquilo que a sociedade gostaria que ela fosse. As pessoas com deficiência são, primeiro e substancialmente pessoas e, segundo e acidentalmente, diferentes.

Isso tudo deve nos dar base para reflexões mais profundas - nós, ao menos, as fazemos - sobre considerar a cultura da diversidade como processo de troca de papéis e funções dos componentes que constituem a sociedade de final do século XX. Este é, para mim, o grande valor do trabalho do treinador e do professor de Educação Física, tanto dentro do currículo escolar como nos ginásios esportivos. O esporte é cultura e, no nosso caso, o esporte vai fomentar e desenvolver a cultura da diversidade.


* Miguel Lopez Melero - Professor doutor da Faculdade de Educação da Universidade de Málaga.