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Além de responsabilidade social, investir em acessibilidade e produtos diferenciados pode ser um ótimo negócio. Ao contrário de um tratamento tipo "coitadinhas", as pessoas com deficiência, que a cada dia conquistam mais espaços no mercado de trabalho, querem ser vistas e tratadas como cidadãs plenas. E isto inclui o direito de escolher as próprias roupas, o restaurante e o barzinho que querem freqüentar, o hotel onde se hospedar, o supermercado onde fazer as compras ou mesmo o transporte ideal para ir ao trabalho ou passear. As iniciativas de inclusão econômica desse contingente, estimado em quase 25 milhões de brasileiros (dois milhões na Bahia) com um potencial de consumo que chega a R$5 bilhões, ainda são tímidas. Mas já revelam sinais de cura dessa cegueira empresarial, permitindo distinguir pelo menos uma luz no fim do túnel.
Cardápios e embalagens de produtos em Braille (McDonald's, Sadia, Natura); rampas, portas largas e sanitários adaptados para cadeirantes (Baby Beef, shoppings); carrinhos de compra motorizados e espaços amplos entre as gôndolas dos supermercados (Extra e G. Barbosa); elevadores com sensores de voz e painel de comando em braille; terminal eletrônico de bancos e telefones públicos rebaixados para cadeirantes ou pessoas de baixa estatura; funcionários intérpretes de sinais (Libras); e sites com softwares que permitem o acesso por deficientes visuais. Estes são alguns recursos disponíveis no mercado e que podem ser adotados, sem grandes custos, por empresas públicas e privadas para permitir que as pessoas com deficiência possam se sentir, de fato, incluídas na sociedade, sem precisar depender, sempre, de uma "bengala humana" para acompanhá-las em todos os espaços públicos.
Autonomia e independência, para as pessoas com deficiência, são sinônimos de cidadania, de dignidade. Têm tudo a ver com o atual estágio de conscientização dessa camada da população, que cansou de ficar em casa se lamentando e partiu para a luta pela sobrevivência, com o aval de uma legislação que assegura reserva de vaga de trabalho em empresas com mais de cem colaboradores e que obriga (embora não seja cumprida) a implantação de condições de acessibilidade em todos os espaços públicos do país.
É cada vez maior o número de pessoas com deficiência empregadas e com melhor poder aquisitivo. Na Associação Baiana de Deficientes Físicos (Abadef), por exemplo, o banco de talentos revela que 363 associados cadastrados já foram empregados e outros 400 estão capacitados aguardando uma colocação. A diretora Silvanete Brandão, que é assistente social, diz que poucas empresas já enxergam as pessoas com deficiência como consumidoras. Mas reconhece: "Já estamos conseguindo mudar o paradigma de que o deficiente não sai de casa, não circula pela cidade, não consome. Mesmo porque estamos cada vez mais inseridos no mercado de trabalho".
A resposta a esta pergunta está sendo levantada pela ONG Vida Brasil, associada à Comissão Civil de Acessibilidade de Salvador (Cocas), que está finalizando o guia Salvador, uma cidade deficiente?, apontando 130 locais públicos (ou de uso público) pesquisados, indicados por pessoas com deficiência ou associações ligadas ao segmento. Pesquisadores com deficiência física e visual foram incorporados ao trabalho, realizado entre agosto de 2006 e março de 2007, para conferir os avanços e o que ainda há por fazer.
O guia apontará espaços de 12 categorias diferentes: auditórios e salas de reunião; bibliotecas, livrarias; estação de transbordo e ascensores; casas de espetáculo; compras; hotéis e pousadas; igrejas e terreiros; parques, praças e jardins; praias; restaurantes, lanchonetes e pizzarias; serviços (bancos, hospitais, órgãos públicos, correio...); e teatro, cinema, museu e estádios.
Segundo a arquiteta e urbanista Islândia Costa, coordenadora do projeto de acessibilidade da Vida Brasil, cresceu o número de empresas que se preocupam com a acessibilidade física em suas dependências. Mas, pondera, "ainda existe uma preocupação muito concentrada em cima das pessoas de cadeira de rodas. São poucas as iniciativas para as pessoas com deficiência sensorial (auditiva e visual)". Mais uma vez, observa Islândia, os setores comerciais e privados saem na frente, manifestando preocupação com o consumidor e implementando ações de acessibilidade.
"A pessoa com deficiência foi descoberta como cliente em potencial por muitos setores econômicos (comércio, turismo, lazer e cultura...). Por outro lado, os prédios públicos foram a reboque com a vigência do Decreto n°5296, de 2 de dezembro de 2004, que estabelece normas gerais para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida", diz ela.
As empresas que desejarem transcrever cardápios, folhetos, guias, livros ou qualquer outro material em braile, podem encomendar o serviço ao Instituto de Cegos da Bahia (ICB). Segundo a presidente Sílvia Figueiredo, a demanda tem crescido, mas ainda não é muito significativa. "Este ano fizemos apenas dois cardápios em braile", exemplifica, citando como iniciativas importantes a da Coelba, que imprime contas de consumo em braile para clientes cegos, e a da Bahiatursa, que produziu cartilhas em braile sobre os principais destinos turísticos do estado.
Rampa de acesso, portas largas e banheiros adaptados para pessoas com deficiência. Estas foram algumas das providências adotadas pelos sócios do Baby Beef, em 2000, quando decidiram adquirir o tradicional restaurante criado por Mamede Paes Mendonça em 1980, ao lado do Hiper Iguatemi. Outra decisão foi a de manter o recepcionista Erundino, que tem nanismo e se transformou no cartão de visitas da empresa - é ele, inclusive, quem abre as portas do site do Baby Beef aos visitantes, repetindo o que faz diariamente no restaurante. O reconhecimento de empresa responsável foi dado pela presidente da Abadef, Luiza Câmara, quando visitou as instalações para conferir a reforma.
"Temos vários clientes cadeirantes, idosos e pessoas com outros tipos de dificuldade de locomoção que são assíduos justamente porque sabem que aqui vão poder se locomover com comodidade", explica o gerente Sílvio Carvalho, contando que o próximo passo será a inclusão do cardápio em braille. Além disso, a empresa, que tem menos de cem funcionários, contratou dois funcionários com deficiência visual para a área administrativa.
Quem chega pela primeira vez à praça de alimentação do Shopping Metrô Santa Cruz, em São Paulo, logo percebe que há um diferencial de eficiência no ar. Ao contrário das demais, chama a atenção o grande número de mesas ocupadas por pessoas que se comunicam pela linguagem dos sinais (Libra). Dezenas de pessoas, com ou sem deficiência auditiva, interagem com alegria e desenvoltura, fazendo seus pedidos e curtindo momentos de descontração com amigos e familiares. A simples presença de alguns funcionários intérpretes dos sinais faz com que pessoas surdas, seus amigos e parentes sintam-se à vontade para freqüentar o local e consumir como qualquer outro grupo. Mesmo que a iniciativa tenha sido motivada por um interesse financeiro, pela presença de entidades representativas de deficientes auditivos na região, mostra que a presença desses consumidores é bem-vinda e que eles são vistos como qualquer outro mercado consumidor, com potencial econômico significativo.
Tecnologia & Acessibilidade é uma empresa paulista especializada em oferecer soluções de acessibilidade, visando a inclusão social e econômica das pessoas com deficiência. Segundo o sócio Marcelo Soares, que recentemente participou como palestrante da IX Exposição e Congresso de Automação Comercial (Autocom), as empresas ainda estão muito resistentes a investir em projetos efetivos de acessibilidade. Uma prova foi o "choque" de empresários participantes do evento por conta da inclusão do tema na pauta de debate. "Mas a tendência é que elas venham a enxergar esse público em potencial e acredito que a virada já esteja começando", apostou. Entre os recursos que a Tech Access oferece no mercado estão os leitores eletrônicos de preço com sistema de voz, para permitir a utilização por deficientes visuais, e softwares de leitura de tela também para lojas eletrônicas.
Disponibilizado em: 25/07/2007.
