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Bengala Legal.


"Da minha Vida Cuido Eu!"


Ricardo Collório.

Minha Experiência com o Diabetes.

Meu nome é Ricardo Collório, nasci no dia primeiro de junho de 1966 na cidade de Canela, na região serrana do estado do Rio Grande do Sul. Meus primeiros anos da infância foram como os de qualquer um. Minha história realmente começou a ser diferente a partir dos 8 anos de idade e é isso que vou lhes contar a partir de agora.

 

A Descoberta.

Em 1972 acontecia, como era de costume, campanha de vacinação contra várias doenças e juntamente com meus pais me dirigi até o local da vacinação, que transcorreu sem maiores problemas. Entretanto, durante a noite algo estranho começou a acontecer; a partir daquele dia uma constante e insaciável sede passou a conviver comigo, fazendo com que constantemente tivesse que beber água, mesmo durante a noite. Por esse motivo meus pais procuraram assistência médica e após vários exames descobriram o motivo de tal sede, eu estava com diabetes, que por coincidência ou não começou a apresentar os sintomas logo após a vacina.

 

A vida continua!

Depois de assimilar a doença minha vida seguiu praticamente normal, com algumas pequenas escorregadas na dieta seguidas de hipoglicemias e hiperglicemias esporádicas, que no entanto não afetaram o meu dia-a-dia.

No entanto, com o passar do tempo, na minha adolescência, a coisa começou a mudar; eu me sentia diferente! Por que eu não podia comer o que os outros comiam? Que sabor tem um chocolate? será que isso é bom? eram perguntas que sempre estavam presentes e comecei escondido provar aquelas coisas que desde os 8 anos eu estava proibido de desejar. E minha vida foi seguindo sem maiores obstáculos.

Em 1984 depois de concluir o segundo grau, atual ensino médio, prestei vestibular em Porto Alegre para Engenharia Elétrica e tive a felicidade de obter êxito. Mudei-me para a capital onde comecei a freqüentar a universidade, a PUC-RS. Novos horizontes pareciam se abrir para mim, um jovem do interior que realiza o sonho de qualquer um na sua idade, morar sozinho e ser dono do próprio nariz! Só que o que parecia o começo de um sonho, o que realmente foi durante dois anos, pois era a tão esperada liberdade que todo jovem deseja trouxe-me conseqüências que vão me acompanhar o resto da vida.

 

O Que Aconteceu?

Foram dois anos de completa liberdade para fazer tudo o que tinha vontade sem ninguém para controlar nada. Isso era bom mas a gente demora pra aprender que nem tudo que a gente pensa é o mais correto e que nem tudo vai acontecer da maneira que a gente planeja.

Várias pessoas diziam para mim ao ver que eu não fazia a dieta que deveria: - Você pode ter problemas graves se não se cuidar.
Ao que eu prontamente respondia:
- Da minha vida cuido eu!

Ou então:
- Se aparecer algum problema eu passo a me cuidar.

ou ainda:
- Prefiro viver até os 30 assim do que até os 60 da maneira que querem que eu viva!

Tudo parecia correr bem até que em abril de 1987 incessantes dores de cabeça começaram a acontecer seguidamente, mas não dei muita atenção e eu as tratava simplesmente com analgésicos. Nunca imaginei que isso fosse o começo de uma parte bem complicada de minha vida. E assim foi por três meses, até que em julho internei no hospital local com uma aparente gripe, mas que na realidade não era simplesmente uma gripe. Não conseguindo sucesso com o tratamento aqui fui transferido para Porto Alegre e lá foi constatado que eu estava com princípio de insuficiência renal. Não dei muita importância pois eram simplesmente algumas dores de cabeça! que engano!

o quadro evoluiu rapidamente e em setembro de 87 eu já me submetia a sessões de hemodiálise duas vezes por semana; em novembro passaram a ser 3 sessões semanais e comecei a perder gradualmente a visão. Dia 8 de dezembro de 1987 aconteceu a minha pior crise; durante o meu deslocamento até a clínica onde iria realizar a hemodiálise tive um acidente vascular cerebral e por causa disso fiquei vários dias sobrevivendo com o auxílio de máquinas e nesse período minha visão se foi totalmente. Por causa da série de complicações e das constantes sessões de hemodiálise a que eu era submetido, minha situação se tornava cada vez mais crítica sem muitas esperanças que os médicos pudessem dar a meus pais; nessa época chamaram um padre para que me fosse dada a extrema unção, que era uma prática da religião católica para aqueles que estavam próximos à morte.

Em 1988 meu peso que antes dos problemas era de 68 kg, um peso razoável para os meus 1,70 m de altura, se reduziu a 46 kg e eu simplesmente estava tão debilitado que não conseguia caminhar mais do que algumas dezenas de passos. Eu e meus pais morávamos em Porto Alegre perto da clínica onde eu fazia hemodiálise. As sessões de hemodiálise aconteciam três vezes por semana, nas segundas, quartas e sextas na parte da manhã. Eu sempre ia acompanhado por meu pai pois após cada sessão que era extremamente traumática para o organismo, apresentando várias vezes náuseas, mal estar, tonturas causados pelas constantes alterações na pressão arterial fazendo com que ao final das mesmas eu precisasse sair em uma cadeira de rodas por não conseguir nem ao menos me manter de pé.

Essa rotina seguia semana após semana até que o destino novamente alterou o meu rumo que certamente seria em breve a morte pela evolução da doença e pela falta de perspectivas que pudessem mudar isso.

 

Um Anjo Surgiu na minha Vida!

Aos poucos a hemodiálise, apesar de me manter vivo, estava tirando o resto de energia que ainda me mantinha por aqui e, certamente, se eu continuasse nela provavelmente estaria bem próximo da morte. Na metade do ano conheci uma moça chamada Susana Reis, que assim como eu era diabética, com deficiência renal e cega. Ela realizava um tratamento alternativo à hemodiálise que se chamava diálise peritonial ambulatorial contínua, tratamento também conhecido pela sigla americana C.A.P.D. Como ela era cega e não poderia fazer sozinha esse tratamento, sua mãe era a responsável e estava sempre junto dela. Por isso em determinado mês do ano Susana voltava à clínica para que sua mãe pudesse ter um tempo de "férias". As sessões de hemodiálise duravam 4 horas e a nossa distração era conversar; eu e a Susana ficamos muito amigos e através dela eu tomei conhecimento do C.A.P.D. e ela sempre me incentivou muito que seria a solução ideal para mim. Conversei com os médicos e rapidamente já estava eu pronto para iniciar o novo tratamento.

Em 26 de dezembro de 1988 submeti-me à cirurgia para a implantação do material apropriado para que eu pudesse iniciar o C.A.P.D. Em janeiro de 1989, já com o novo tratamento, eu e meus pais voltamos a morar em Canela;lentamente eu ia recuperando a minha condição física porque o C.A.P.D. estava cumprindo bem o seu papel.

 

Hoje.

Depois de ter passado uma fase muito difícil, quando estive perto de morrer e tendo passado por tudo, hoje a minha situação está estável, apesar de que o diabetes continua me acompanhando e silenciosamente afetando meu organismo. Apesar de não sentir nada a última informação que tive foi de que meu sistema circulatório encontra-se em uma situação complicada e que seria indicado para mim uma ponte de safena. Isso foi descoberto porque no ano passado resolvi tentar fazer um transplante para resolver a deficiência renal e após vários exames ficou constatada a lesão que já possuo nas coronárias, o que inviabiliza o transplante. Para que esse transplante possa ser feito, o que ainda está nos meus planos, preciso submeter-me à essa cirurgia cardíaca. No próximo inverno vamos lá!

Ricardo Collório.

Obs: Infelizmente este depoimento, feito por meu amigo Ricardo, continua na "Bengala Legal" como homenagem póstuma. Ricardo não teve como fazer o transplante, como eu e outros fizemos. Chegamos a conversar muito sobre isso. Como todos aqueles que amam a vida, Collório foi um lutador.
MAQ.

Disponibilizado em: janeiro/2001.



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