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Bengala Legal.


Carta a uma Amiga Médica.


Marco Antonio de Queiroz.

De: MAQ.
Para: Dra. Luisa Cortesão.

Oi Luisa, boa noite.

Já trocamos alguns e-mails e nos visitamos em nossos sites, o que faz de nós dois estranhos mas virtuais amigos. Temos um objetivo comum, o de ajudar, e isso é ótimo. Assim, gostaria de dar para você, na expectativa que repasse a outros, principalmente colegas diabéticos, o meu depoimento de vida.

Sou diabético desde os 3 anos de idade. Nunca, desde que me entendo por gente, fiz uma dieta regular, tratei-me e preocupei-me com minha doença. Aliás, apesar de saber tratar-se de uma doença, de tanto escutar "diabetes não é doença, você é igual a todo mundo, pode fazer de tudo", comecei com o tempo, por nada sentir organicamente em conseqüência dos meus abusos da dieta, a relaxar com as devidas responsabilidades para com essa "dama de mau gênio", a diabetes. O problema que o diabético ignora e por vezes ignora por mera não aceitação de seus limites e não por ignorância propriamente dita, é que o fogo está comendo solto dentro de nós e não sentimos nem um cheirinho de queimado... Se cada vez que abusássemos da dieta o aumento da glicemia nos desse dor de cabeça e, quanto maior o aumento glicêmico maior a dor na cabeça, muitos de nós não chegaríamos onde chegamos: nas complicações crônicas da diabetes.

Aos 20 anos comecei a reparar que minha ereção peniana começava a mostrar dificuldades embaraçosas... Aos 21, em um espaço muito curto de tempo perdi a visão e descobri espantado que todos aqueles açúcares que havia comido em excesso durante toda a minha vida mostravam repentinamente suas garras com uma ferocidade de um desastre! Perdi definitivamente a visão em Barcelona, após tratamento com raios laser na Clínica Barracker. Tratamento tardio, porém. Pensei então que, já que havia perdido a visão, a diabetes não tinha mais nada a me fazer... Ingênuo engano! Aos 39 anos perdi os rins... Diga-se de passagem que, só tive essa perda renal com a idade mencionada porque já havia vestido a camisa do "Clube dos Diabéticos" e assumi minha doença como algo sério que eu tinha de conhecer e respeitar, caso contrário seria muito antes!

Estou só falando de coisas ruins, mas vamos as boas: lutas e conquistas! Desde que fiquei cego comecei a lutar comigo mesmo na superação de meus medos, de minhas inseguranças e rapidamente assumi a bengala e o método de escrita e leitura de cegos, o Braille. Cursava a cadeira de história na universidade e mudando para o mesmo curso mas em uma universidade mais perto de minha casa, dei continuidade aos estudos com dois meses de cego. Nessa abençoada iniciativa de estudar foi que conheci Sônia, minha esposa. Descobri nessa época que estava com sérios problemas com minha ereção sexual e, agora como era de lei, assumi e fui procurar ajuda com minha médica (Dra. Ingeborg Crista Laun, a minha Dra. Ing). Ela, já ciente das dificuldades de vários de nós, me encaminhou para o Dr. Fernando Vaz, urologista que, graças aos céus, resolveu o meu problema com uma cirurgia simples e duradoura, pois até hoje funciono que é uma beleza e sou pai de um garoto maravilhoso, muito amado, chamado Tadzo, hoje adolescente.

Com 25 anos, com muita batalha e estudos, superando vários obstáculos de minha inexperiência como cego ainda novato, depois de um curso de um ano de programação de computadores, realizado em um instituto de cegos aqui do Brasil, o Benjamim Constant, entrei para trabalhar como programador, técnico em informática, na empresa que estou até hoje. Temos ledores de tela (ecrã para os amigos portugueses) que, associados a sintetizadores de voz, nos permitem ser profissionais nessa área.

Aos 39 anos, porém, nova complicação me atingia, a perda de minhas funções renais. Isso é um processo muito lento, ou ao menos comigo o foi, devido a eu ter me tratado muito bem pós cegueira, caso contrário, muito antes eu teria de ter entrado em hemodiálise, tratamento de filtragem do sangue, não mais feito pelos rins. Consegui, apesar de tudo, não abandonar o trabalho e, de uma forma maravilhosa ser agraciado com a doação, feita por parte de duas pessoas amigas, ambas cegas, de um de seus rins! De forma simples, generosa, emocionada, de pessoas de grande quilate de humanidade e solidariedade, Carlos Augusto e Marilene, se ofereceram para me presentear com algo deles, que hoje é meu. O rim de Marilene, mais compatível geneticamente com meu organismo que o de Carlos, está dentro de mim desde setembro de 1998. Ela continua com uma ótima saúde e eu maravilhosamente bem e grato. Eu tenho amigos!

Como você já sabe Luisa, com todo esse "curriculum" resolvi tentar ajudar, como você o faz com sua experiência profissional, a outros diabéticos contando minha história em um livro. Agora estendi essa ajuda em um site onde eu e outros colegas falamos sobre diabetes, cegueira, transplante e fui mais longe... Estou incluindo outras deficiências no site para que as pessoas e nós mesmos nos conheçamos, nos acostumemos com nossas diferenças e todos percebam a força, beleza e emoção que significa superarmos nossos obstáculos saboreando a vida com prazer.

Aos diabéticos que ainda não se depararam com as conseqüências nefastas das complicações da diabetes e que não queiram "conquistá-las", que estudem sua doença, que olhem para dentro de si, que reflitam no que perdem e ganham em seguir as normas da boa conduta diabética. E, se agüentaram até aqui esse "tratamento de choque" de pura realidade, saibam que ficaria muito feliz em saber que coloquei uma semente, pequena que seja, em suas idéias e emoções.

Todo afeto diabético e Atlântico para você, Luisa, e para todos os colegas portugueses!
Marco Antonio de Queiroz.

Disponibilizado em: 8/maio/2000.



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