Acessibilidade Web: Tudo tem sua Primeira Vez.

01/11/2006 - Marco Antonio de Queiroz - MAQ.

Tudo tem sua primeira vez.

O maior incentivo que tive em estudar e aprender desenvolvimento de sites com acessibilidade, foi a fascinação de como eu, e pessoas com a minha deficiência, poderíamos facilitar nossas vidas caso tivéssemos um acesso fácil à web.

Eu já era um entusiasta da Internet quando, em 1995, comecei a trocar e-mails com colegas com deficiência visual de todo o Brasil. Era uma loucura saber que estava escrevendo e obtendo respostas de cegos contando suas vivências de tão longe. No entanto, meu maior deslumbramento foi quando, em 1999, entrei no site de um conhecido jornal carioca e, com absoluta autonomia, sem precisar que alguém o fizesse para mim, li uma notícia! A princípio, dei um sorriso satisfeito e meio bobo mas, logo depois, a emoção me tomou totalmente. Minha liberdade!

Após isso, por ser dia de aniversário de uma pessoa amiga, comprei um livro e o enviei de presente sem sair de minha cadeira em frente ao micro. A amiga recebeu o presente em casa e telefonou, agradecendo a lembrança e dizendo que eu não precisava me preocupar e ter tanto trabalho em deslocar alguém para fazer o que fiz. Disse-lhe que eu tinha feito tudo sozinho e ela começou a chorar. Para não estragar a emoção dela com "todo o trabalho que tive", calei-me sem contar que não necessitei me deslocar com minha bengala até a livraria e muito menos tinha ido ao correio. Mas, lá do fundo, minha emoção veio brotando novamente, ao ter a sensação de que eu estava, graças à internet, me tornando um sujeito mais comum.

Eu e outros curiosos íamos espalhando as novidades pela lista de colegas com deficiência. Todos se entusiasmavam! No entanto, começamos a perceber que "nem tudo eram flores", e que existia uma tal de inacessibilidade, que havia páginas nas quais quase nada podíamos fazer, ou mesmo onde éramos totalmente barrados. Assim, fui pesquisar a causa disso. Parte desse conhecimento está nesse capítulo, e para todos.

Introdução.

Este texto tem o objetivo de demonstrar o que é acessibilidade quando navegamos numa página da internet. Apresentamos aqui alguns conceitos que permitirão ao leitor entender bem este tema. Abordaremos o próprio conceito de acessibilidade, a junção desta com o que chamamos de usabilidade, o que essas coisas têm a ver com pessoas com deficiência e pessoas sem deficiência, as relações com desenvolvimento tecnológico, tecnologias assistivas, softwares amigáveis, cultura, juventude, modernidade, inclusão e exclusão digital, educação, mercado de consumo e trabalho e, finalmente, como o leitor pode se inserir em tudo isso.

O que é Acessibilidade?

A primeira vez que nos deparamos com a palavra acessibilidade, pensamos, naturalmente, que ela seja proveniente ou derivada da palavra acesso. Mas, e daí? Em geral essa palavra não está sozinha, vem contextualizada de conceitos técnicos ou práticos, normalmente associados a pessoas com deficiência. Sua aplicação, de fato, teve origem na necessidade da transposição dos obstáculos arquitetônicos que impediam e impedem o acesso de pessoas com deficiência a lugares de uso comum e público.

Mas, ao longo do tempo, o conceito de acessibilidade assumiu dimensão mais ampla. Qualquer tipo de barreira para qualquer pessoa, mesmo sem deficiências ou apenas com limitações temporárias, passou a ser relacionado à acessibilidade. Por exemplo, calçadas esburacadas, perigosas para mulheres grávidas que não podem enxergar os pés, ou um site na internet cujo código não permita o acesso por meio de celulares, passaram a ser inacessíveis. Uma grávida e um proprietário de celular com bons recursos não são pessoas reconhecidamente com deficiência, mas podem encontrar inacessibilidades comuns às pessoas com deficiência. Assim, o conceito adquiriu sentido mais amplo. Hoje, na prática, acessibilidade diz respeito à qualidade ou falta de qualidade de vida para todas as pessoas.

Cultura e Tecnologia.

Desde os anos 80, segundo a UNESCO, cresceu o entendimento de que as dificuldades impostas pelos limites de uma deficiência a um indivíduo variam segundo a cultura e desenvolvimento tecnológico de cada país ou região. Não são apenas o tipo e o grau de deficiência sensorial, cognitiva ou física que determinam a limitação de uma pessoa; o ambiente no qual se insere também pode fazer com que fique mais ou menos limitada. Aplicando-se essa idéia às páginas da web, podemos entender como a tecnologia tanto pode, quando bem utilizada, contribuir para maior qualidade de vida para inúmeras pessoas, como a se constituir, se for mal empregada, numa grande fonte de frustração. Se as pessoas com deficiência visual ou dificuldades motoras que não utilizam mouses, por exemplo, pudessem navegar pela internet e fossem a agências bancárias on-line realizar transações financeiras sem sair de casa; se lojas virtuais de vendas e supermercados tivessem sites com um acesso fácil e possível a esses internautas, evitando uma locomoção desnecessária na hora de comprar um livro para um amigo ou um CD de música para escutar; se tal tecnologia permitisse a leitura, na internet, do jornal preferido por elas; se pudessem estudar e se divertir; se, enfim, conseguissem utilizar de todas as facilidades que a internet, especialmente a web, oferece à maioria de seus usuários, essas pessoas estariam cada vez menos limitadas. A tecnologia da web não seria mais uma barreira a ser transposta mas, ao contrário, um veículo de transposição de barreiras e melhora da qualidade de vida.

A legislação, sobretudo por meio da Lei nº. 8.112/90, de reserva de mercado, abriu as portas das empresas e do mercado para as pessoas com deficiência. Geram-se empregos e salários e, conseqüentemente, relacionamento social, econômico e maior participação política, permitindo a inclusão de um número cada vez maior de pessoas nas atividades comuns de toda a sociedade. Para isso, cultura inclusiva e tecnologia têm de estar juntas, oferecendo novos espaços, como esse espaço quase infinito que é a web.

Web, Pessoas com Deficiência e Tecnologias Assistivas.

Acessibilidade nas páginas da Web significa, antes de mais nada, termos um acesso regular a essas páginas. Dependemos, então, para começar, do próprio computador que utilizamos, seus periféricos, como mouse, teclado, monitor, áudio etc. Além disso, de programas como navegadores (Internet Explorer, Firefox, Opera e outros) e tecnologias assistivas.

Tecnologia Assistiva é qualquer tipo de tecnologia especificamente concebida para ajudar pessoas com incapacidades ou deficiência a executarem atividades do cotidiano. A tecnologia assistiva abrange as cadeiras de rodas, as máquinas de leitura, próteses, etc. No domínio da acessibilidade da web, tecnologias assistivas para a navegação na web são hardwares, periféricos e programas especiais que permitem, ou simplesmente facilitam, o acesso de pessoas com deficiência à internet. Entre eles podemos citar os leitores de tela, sintetizadores de voz, ampliadores de tela, para pessoas cegas ou de baixa visão; programas de comando de voz para cegos e pessoas com dificuldades na digitação; teclados e mouses especiais, controlados por um joystick ou pelos movimentos da cabeça, por exemplo, para pessoas com dificuldades motoras, etc. O desenvolvimento da tecnologia possibilita que cada vez mais pessoas estejam capacitadas para acessar a internet e as novidades nesse campo são permanentes.

Navegação Via Teclado.

Se pensarmos em acessibilidade nas páginas da web para pessoas com deficiência, somos obrigados a refletir no modo de navegação, que podemos dividir em três: navegação via mouse, navegação via teclado e navegação por comando de voz.

A maioria das pessoas navegam via mouse e só se utilizam do teclado para preencherem formulários, fazerem pesquisas, escrever e-mails etc. No entanto, a maior parte das pessoas com deficiência que necessitam de acessibilidade, usam o teclado para a navegação na internet. Uma pessoa cega, ou de baixa visão, não tem como posicionar o cursor, movido pelo mouse, nos links, ícones, formulários etc. das diversas páginas. Outras pessoas com deficiência, que têm comprometimento da coordenação motora nas mãos, a ponto de não conseguirem posicionar mouses para clicar, mas que possuem coordenação suficiente para teclar em teclados comuns ou mesmo com teclas de dimensões maiores, e pessoas que se utilizam de tecnologias assistivas específicas para uso do teclado, navegam através deste sem a utilização do mouse. Assim, um site que, além de sua navegação via mouse, permita uma boa navegação via teclado, possibilita sua utilização por um número muito maior de indivíduos.

Imagem de Ronaldo Correia Junior.
Ronaldo Correia Junior, paralisado cerebral, que tem a necessidade
de navegar via teclado e faz isso com os dedos dos pés.

Técnica de uso do teclado por pessoas cegas.

No caso específico de pessoas cegas ou de baixa visão, o uso do teclado comum se dá através dos dedos indicadores colocados nas teclas das letras "F" e "J" que, por padrão, possuem um relevo em sua parte inferior. A partir dessas referências, pode-se teclar decorando-se as posições de cada letra. Assim, seguindo-se o posicionamento do indicador esquerdo na letra "F", onde existe o relevo, sabe-se que o dedo mínimo, também esquerdo, encontrará a letra "A", que subindo-se o dedo médio uma carreira, encontraremos a letra "E", e por aí em diante. Também teríamos exemplos para a mão direita, orientando-se a partir da tecla da letra "j". Caso não haja relevo nas teclas mencionadas, basta grudar um durex ou esparadrapo nas mesmas para poderem servir de referência. O número 5 do teclado numérico, à direita, também possui relevo. Tecnologias assistivas como os leitores de telas, associados a sintetizadores de voz ou monitores e linhas Braille, complementam o acesso dessas pessoas na internet; nesse caso, o teclado comum para escrever, e as tecnologias assistivas para ler.

Letra F e seu relevo
Teclado de computador com a letra F e seu relevo.

Teclas de navegação e teclas de atalho.

Como se navega pelo teclado? Esta é a pergunta que os usuários de mouses, em geral, se fazem. Para podermos navegar via teclado, a princípio, não existe a dependência de qualquer programa especial. Os próprios navegadores permitem que, através de teclas de navegação próprias, se possa cumprir inúmeras funções que, normalmente, são realizadas através do mouse. Assim, por exemplo, podemos sair de um navegador clicando, com o mouse, um "x" na parte superior direita da tela, como também indo no menu "fechar" do navegador. No entanto, podemos fazer o mesmo através do conjunto das teclas alt e f4, quando tecladas simultaneamente. Ao se pressionar o alt e logo o f4, o programa fecha. Da mesma forma, boa parte das outras funções do navegador que são realizadas pelo mouse, possui algum simultâneo que possa ser realizado pelo teclado. Quando pensamos em acessibilidade, podemos acrescentar às teclas de navegação do navegador, outras existentes em alguma tecnologia assistiva, como um leitor de telas, e ainda, teclas de atalho programadas em uma página da web por seu desenvolvedor.

O desenvolvimento de recursos de acessibilidade em uma página web é muito importante. As pessoas com deficiência, ao dependerem da acessibilidade dos navegadores e dos sistemas operacionais, podem ter dificuldades quando esses, nas trocas de versões, não as trouxerem com os mesmos recursos ou eles não lhes forem acessíveis, quando estiverem longe de seus micros e os que forem utilizar estiverem com outras configurações, ou mesmo se os navegadores e sistemas operacionais não possuírem, originalmente, os recursos que necessitam. Assim, as páginas consideradas acessíveis são aquelas que trazem a acessibilidade em si mesmas, que não dependam de onde e como estão sendo expostas.

As regras de acessibilidade e o desenvolvimento de páginas na Web.

Quando um desenvolvedor quer fazer páginas da web acessíveis pode contar com uma série de regras. Estas permitem não apenas torná-las acessíveis para um determinado grupo de pessoas com deficiência, mas também a todas as pessoas com deficiência que necessitam desses recursos. Pode-se fazer acessibilidade de forma tão completa que auxilie a todos, não apenas às pessoas com deficiência. A acessibilidade permite que as páginas carreguem mais rápido, independentemente do tipo de conexão, aumenta as possibilidades de estas serem encontradas pelos robôs de busca e as torna mais fáceis de navegar, independente das condições da pessoa e por qualquer tipo de dispositivo móvel, como os celulares, palmtops, laptops, etc. Uma página assim estaria incluída no que chamamos de "desenho universal". As diretrizes internacionais de acessibilidade que mais proporcionam o caminho para todas essas vantagens estão relacionadas nos WCAGs 1.0, 2.0, Samurai e, no Brasil, às diretrizes de acessibilidade do governo eletrônico (EMAG - Versões 1,2 e agora a 3)*.

Diretrizes e Técnicas Internacionais de Acessibilidade.

O W.C.A.G. 1.0 e 2.0 (Web Contents Accessibility Guidelines) são documentos disponibilizados pelo W3C (WWWC - World Wide Web Consortium), através de seu departamento WAI (Web Accessibility Initiative). Esses documentos são uma espécie de guias internacionais de acessibilidade, mais conhecidos como diretrizes de acessibilidade do W3C, ou diretrizes de Acessibilidade ao Conteúdo da Web.

O WCAG 1.0 foi, desde sua criação em 1999 até os dias de hoje, a base para o estudo e a prática de acessibilidade para a web em todo o mundo. essas diretrizes estão sendo substituídas desde o final de 2008 por sua atualização, o WCAG 2.0 do próprio W3C. Segundo o consórcio, as Diretrizes para a Acessibilidade dos Conteúdos da Web 2.0 (WCAG 2.0 Site Externo. devem ser recomendadas e utilizadas preferencialmente, embora seja possível seguir tanto as WCAG 1.0 como as WCAG 2.0, ou ambas, o W3C sugere que os conteúdos novos e atualizados utilizem a versão WCAG 2.0.

Já o WCAG SamuraiSite Externo. é uma criação de Joe Clark, ex colaborador e desenvolvedor do WCAG 1.0 da WAI/W3C que, não estando de acordo com as ideias propostas no WCAG 2.0, criou uma errata para o WCAG 1.0, bastante aceita pelos desenvolvedores web, embora não possua a oficialidade do WCAG 2.0. Segundo Joe Clark, "A WCAG Samurai é uma alternativa à WCAG 2.0. Você pode seguir a WCAG 2.0 ou esta errata, ou mesmo não seguir nenhuma delas, mas não é possível seguir ambas.

Essas três opções de documentos internacionais criaram uma certa insegurança nos desenvolvedores que acabaram, muitas vezes, aproveitando-se das melhores práticas sugeridas por cada documento para realizar seus próprios itens de acessibilidade particulares que, infelizmente, na maioria das vezes, resultam em inacessibilidades por não contemplarem deficiências que desconhecem o modo de navegação ou necessidades específicas.

Por estarem algumas diretrizes de acessibilidade do WCAG 1.0 realmente em desuso, quando se faz um site acessível tem-se de optar ou pelo WCAG 2.0 ou pelo Samurai, sendo o primeiro o mais oficial e reconhecido internacionalmente.

Essas diretrizes explicam como tornar o conteúdo das páginas da web acessível a pessoas com deficiência. Destinam-se a todos os desenvolvedores de sites e aos programadores de ferramentas para criação de conteúdo web: "O principal objetivo destas diretrizes é promover a acessibilidade. No entanto, a sua utilização fará também com que os sites da web e todo o seu conteúdo se tornem de mais fácil acesso para todos, independentemente dos respectivos agentes dos usuários utilizados : navegadores comuns, navegadores por voz, celulares, PCs de automóveis, leitores de tela, ampliadores de tela, em qualquer que seja a limitação associada. Além disso, à respectiva utilização destas diretrizes irá ainda ajudar as pessoas a encontrarem informações na web mais rapidamente. Estas diretrizes não visam de modo algum restringir a utilização de imagem, vídeo, etc., por parte dos produtores de conteúdo; antes explicam como tornar o conteúdo de multimídia mais acessível a um público mais vasto1."

E complementam: "Muita gente não faz idéia do que é, nem que importância possa ter, a temática da acessibilidade associada ao desenvolvimento de páginas para a web. Pede-se, pois, ao leitor que pense que há muitos usuários que atuam em contextos muito diferentes do seu. Referimo-nos a usuários que podem estar numa das seguintes situações:

  • Não ter a capacidade de ver, ouvir ou deslocar-se, ou que podem ter grandes dificuldades, quando não mesmo a impossibilidade, de interpretar determinados tipos de informações;
  • Não ter um teclado ou mouse, ou não ser capazes de os utilizar;
  • Ter um navegador que apenas apresenta texto, um monitor de dimensões reduzidas ou uma ligação à Internet muito lenta;
  • Não falar ou compreender fluentemente a língua em que o conteúdo da página foi escrito;
  • Ter os olhos, os ouvidos ou as mãos ocupados ou de outra forma solicitados (por ex.: ao volante a caminho do emprego ou ao trabalhar num ambiente barulhento);
  • Ter uma versão muito antiga de um navegador, um navegador completamente diferente dos habituais, um navegador por voz, ou um sistema operacional menos vulgarizado.

Os criadores de conteúdo têm de levar em conta estas diferentes situações ao conceberem uma página para a web. Embora haja uma multiplicidade de situações, cada projeto de página, para verdadeiramente potencializar a acessibilidade, tem de dar resposta a vários grupos de incapacidades ou deficiências em simultâneo e, por extensão, ao universo dos usuários da Web1."

Por esse e mais motivos, fazer acessibilidade sem levar em conta as sugestões dos WCAGs, pode significar, ao contrário do que o desenvolvedor de sites possa pensar a respeito de acessibilidade, um atraso para todos os usuários da web. Para fazer uma acessibilidade completa, para atender os requisitos básicos para a melhor navegação possível para todos, devemos estar atentos a essas diretrizes e sugeri-las aos criadores de páginas que ainda não as conhecem.

Acessibilidade e Usabilidade.

Esse texto não pretende ser um guia técnico de acessibilidade, apenas um orientador do que seja uma página acessível que possa ser usada com conforto por todos os usuários da web, especialmente pessoas com deficiência.

Assim, já sabemos que para além da acessibilidade que um navegador possa ter através de suas teclas de navegação originais, existem formas de se criar teclas de navegação e atalho pelo desenvolvedor nas páginas da web. Quando pensamos em fazer acessibilidade estamos querendo adaptar os sites para além das possibilidades já existentes nos navegadores comuns, como também superar barreiras de acesso criadas por funcionalidades programáveis que, estando fora dos padrões web, se tornem incompatíveis com tecnologias assistivas e o bom uso da navegação via teclado ou por voz. Por outro lado, algumas vezes, mesmo estando acessíveis as informações ou funcionalidades programadas pelo desenvolvedor, essas não possuem um acesso fácil, gastando-se tempo para entendê-las em sua utilização ou mesmo para se chegar a elas. Por exemplo: um usuário com tetraplegia e que faz uso da navegação via teclado, quer preencher um formulário de cadastro. Esse formulário encontra-se após o quadragésimo segundo hiperlink da página e, no entanto, na parte central da mesma, bem visível a seus olhos. Para podermos entender sua dificuldade, temos de conhecer a lógica da navegação via teclado.

Quem utiliza um mouse pode chegar com tranqüilidade ao formulário se posicionando diretamente na edição das respostas do mesmo, mas quem utiliza apenas o teclado, tem, nesse caso, de pressionar a tecla TAB 42 vezes para chegar ao formulário. Nesse tipo de recurso, a navegação é seqüencial, da esquerda para a direita e de cima para baixo. Mesmo que esses hiperlinks estejam distribuídos visualmente de forma harmônica pela página, se sua codificação for anterior ao formulário, este só se apresentará disponível ao usuário que navegue pelo teclado, depois de, seqüencialmente, passar por todos os hiperlinks e a forma de fazê-lo é, como foi escrito, pressionando a tecla "TAB" 42 vezes.

Existem outras formas de navegação que seriam mais fáceis para quem utiliza um leitor de tela gráfico de qualidade, como a "teclagem rápida", que se aproveitando dos padrões web (web standards), poderia chegar ao formulário somente teclando a letra "f", para que o cursor do leitor de telas encontrasse o elemento form e parasse no formulário. Poderia também, em outras ocasiões, teclar a letra "h" para chegar a um cabeçalho, "g" a um gráfico (imagem), "l" para chegar a uma lista de itens, "t" para encontrar uma tabela etc. A teclagem rápida, no entanto, depende da utilização de tableless na codificação da página e de tabelas acessíveis, para o seu encontro, no caso específico da letra "t".

no nosso caso, no entanto, o usuário não é cego e necessita saltar os links ou fazer uma procura por palavra chave do formulário no menu do navegador. Dependendo da dificuldade motora do usuário, essa tarefa também poderia ser dificultosa. O formulário pode estar acessível, mas sua utilização é cansativa para tal pessoa. Dizemos, nesse caso, que a usabilidade dessa página não é boa, independentemente de sua acessibilidade.

Todas as páginas que possuem menus padronizados em um site, para serem além de acessíveis, terem uma boa usabilidade, têm de possuir teclas de atalho que permitam o salto para o conteúdo principal da página. Essas teclas de atalho podem ser colocadas pelo desenvolvedor sem prejuízo de qualquer outro conteúdo. O salto com âncora é o mais recomendado por sua universalidade.

Equivalente Textual, o que é isso?

Todas as informações de uma página acessível devem ser apresentadas em texto. Isso significa que, se for usada alguma outra mídia, como imagens e sons, as informações que elas contêm devem ser repetidas numa descrição textual. Essa descrição deve ser "equivalente", isto é, deve transmitir as mesmas informações que os elementos disponibilizados.

Não devemos confundir a equivalência textual com a confecção de uma página somente texto, o que deixaria um site visualmente pobre, páginas esteticamente ruins não têm a ver com acessibilidade. A intenção, quando se diz que as informações devem estar disponíveis em texto, é a de uma informação redundante em texto quando da existência de outros elementos, como imagens e sons. Esse modo de informação se deve à necessidade que um leitor de tela (software de leitura para pessoas com deficiência visual e surdocegueira) tem para transmitir as informações, uma vez que não consegue ler nada além de textos.

Criar duas versões do site, uma gráfica e outra somente texto para pessoas com deficiência visual, além de ir contra a prática de uma única versão acessível a todos no chamado desenho universal, pode ocasionar erros como, na pressa, atualizar-se a página na versão gráfica e deixar a versão texto desatualizada por esquecimento. Além disso, pessoas que enxergam, mas que por qualquer motivo necessitam de uma navegação via teclado de bom nível, seriam obrigadas a utilizar páginas que não foram pensadas para elas.

Podemos dizer que os exemplos mais comuns de elementos não textuais são imagens de figuras, fotografias, botões, animações, linhas horizontais separadoras, mapas, filmes e sons.

Letras e textos artisticamente planejados, desenhados na imagem, usados para títulos, cabeçalhos ou logos de empresas não são texto. Texto significa somente o que é chamado de "texto real", digitado no teclado.

Esses elementos não textuais podem ser tranqüilamente utilizados numa página acessível, apenas devemos usar equivalentes textuais para dar oportunidade de todos os usuários percebê-los.

Funcionalidades feitas em objetos programáveis, como scripts e applets, são outro tipo de elemento não textual. São partes de uma funcionalidade escrita em linguagens outras que não HTML, para criar um comportamento dinâmico ou iterativo, como os escritos Java ou Macromedia Flash. Esses elementos, no entanto, possuem uma dificuldade toda especial em se fazer acessibilidade, embora sempre seja necessária a tentativa de fazê-la e o WCAGdesde o 1.0 tenta ajudar nisso também.

Sons incluem fala, sinais de áudio, sons de alerta, narrativas e trilhas de áudio em vídeo. Nem todos os usuários podem acessar ou utilizar esses elementos diretamente, especialmente surdos e pessoas com deficiência auditiva, e, assim, necessitam também que a informação ou funcionalidade seja fornecida de outra forma, ou seja, no formato texto ou visual.

De qualquer maneira, o equivalente textual tem a função de traduzir em texto, em linguagem clara e simples, a imagem ou som, especialmente se ele possui uma funcionalidade.

O texto alternativo, para a maioria das imagens, pode ser colocado no código da página através de marcações e fica "transparente" na tela para quem enxerga, apenas sendo "captado" pelos leitores de tela que passam pelas imagens e os procuram no código.

Alguns navegadores, quando apontamos o cursor na imagem com o mouse, mostram a existência do equivalente textual abrindo uma janela com seu texto, ou mesmo quando a imagem ainda não surgiu no momento de carregar a página, essa janela com o texto alternativo aparece em seu lugar. Outra forma de percebermos a existência, ou falta, dos equivalentes textuais numa página, é desativando as imagens nas configurações do navegador. Se os equivalentes estiverem lá, seus textos aparecerão no lugar das imagens. Assim, esse recurso só existe ocasionalmente para a maioria dos usuários da web, mas surgem efetivamente para aqueles que se utilizam dos leitores de tela.

Demonstração de texto alternativo
Imagem do Chaplin sem e com equivalência textual

Detalhes da equivalência textual.

Os equivalentes textuais são implementados através de técnicas3 que podem ser encontradas nas diretrizes internacionais e em sites especializados Site Externo. e são um acréscimo à acessibilidade que se faz para termos uma boa navegação via teclado, sendo fundamentais para alguns grupos de pessoas com deficiência, nomeadamente cegos, surdos e surdocegos. Podemos chamar a atenção para alguns detalhes ao utilizá-los:

  • Os equivalentes textuais utilizados em elementos simples, como em imagens de figuras, botões e menus gráficos, devem fazer pequenas descrições da função da imagem, ou mesmo uma simples repetição do que está sendo escrito em desenho de letra na imagem. Assim, se numa imagem estiver escrito, com letras desenhadas "Fale Conosco", é esse o conteúdo que deve ser digitado no texto alternativo.
  • Se a imagem for apenas decorativa, do tipo uma linha separadora, a equivalência textual deve existir vazia em conteúdo, com espaço, para que a pessoa cega não tenha de ouvir mais que o necessário para entender a página. Imagine que um título seja enquadrado por 4 pequenas imagens decorativas e que, em cada uma delas exista uma equivalência textual; poderíamos através de um sintetizador de voz acoplado a um leitor de tela, escutarmos o seguinte trecho:
    • "imagem superior esquerda, imagem superior direita, Nossa Empresa foi feita para você, imagem inferior esquerda, imagem inferior direita. Imagem superior esquerda, imagem superior direita, Temos tudo que você quer e precisa, imagem inferior esquerda, imagem inferior direita"... Somente nesses casos de imagens decorativas, é recomendada a colocação de imagens em fundo de tela.
  • Da mesma forma, se na imagem houver o desenho de um telefone com o número do telefone da empresa, não é necessário que na equivalência haja a descrição do telefone, sua cor, sua forma e outros detalhes inúteis, e sim cumprir a função proposta pela imagem, ou seja, a informação: "Tel.: (21) 2222-2222", que seria, supostamente, o número do telefone da empresa.
  • De forma semelhante, se o logo da empresa proprietária da página só tiver a função de anunciar a empresa, o equivalente deverá ser somente um título do tipo "Logo da xxx", em que xxx é o nome da empresa. A descrição visual do logo para pessoas com deficiência pode ser feito através de uma página só com essa finalidade e existem marcações que podem levar o usuário de leitores de tela, ou mesmo pessoas de baixa visão não usuárias desses leitores, a entrarem nessa página de descrição para conhecerem a descrição minuciosa do logo.
  • Se, nesse mesmo exemplo, o logo da empresa tiver a função de um hiperlink que leva para a página principal, nas páginas internas do site deve estar também o nome da empresa só que acrescido de um "Voltar", ou outro texto que traduza a função do logo.
  • Quando uma pequena descrição não é suficiente para a compreensão de todo conteúdo existente na imagem, por exemplo, se a imagem mostra a população de cada capital brasileira. A imagem, assim, deverá ter um equivalente com um pequeno texto do tipo: "População das capitais brasileiras". Como complemento deve-se fazer uma página em html com todas as capitais e suas respectivas populações, que poderá ser acessada através da própria imagem, ou por técnicas perceptíveis pelos usuários que não naveguem via teclado, mas que precisem de uma descrição.

Os equivalentes textuais também são fundamentais para pessoas surdas, só que, ao invés de descreverem imagens, deverão descrever sons. Se existirem sonorizações na página, como sinais de alarme ao se fazer uma tarefa de forma errada, mensagens sonoras, vídeos com informações orais, estas devem estar redundantes em texto, para que a pessoa surda ou com uma deficiência auditiva severa possa absorver o conteúdo transmitido pela sonorização. Nesse caso, a língua gestual também pode ser importante.

Surdocegos e tecnologias assistivas.

A deficiência da surdocegueira é algo além da soma das dificuldades da deficiência visual e da auditiva. Tem contornos específicos, sendo a dificuldade de comunicação muito maior. No que tange ao uso da internet, a utilização de leitores de tela associados a monitores em Braille, é o recurso mais usado por ser o Braille um sistema tátil que não necessita da visão e nem da audição para ser lido.

"O leitor de tela é um programa que interpreta os conteúdos de texto da tela e os apresenta através de um sintetizador de voz ou impresso em Braille1". Assim, tanto quanto os cegos e surdos, os surdocegos necessitam da equivalência textual para ter acesso aos conteúdos da web.

Equivalentes não textuais.

Da mesma maneira que existem equivalentes textuais para sons e imagens, existem também os equivalentes não textuais para os mesmos elementos, além do equivalente não textual para o próprio texto.

WCAG 1.0: "Os equivalentes não textuais de texto, como o discurso pré-gravado ou um vídeo de uma pessoa traduzindo o texto para língua gestual, podem tornar as páginas web acessíveis a pessoas que tenham dificuldade em acessar a texto escrito, entre elas as que tenham deficiências cognitivas, dificuldades de aprendizagem ou surdez1". Da mesma forma, os equivalentes não textuais de texto podem também ser úteis a pessoas que não lêem, como as pessoas analfabetas.

O exemplo de um equivalente não textual de informações visuais é a descrição sonora (audiodescrição). A descrição falada de uma passagem visual de uma apresentação multimídia, beneficia quem não consegue ver as informações visuais de um vídeo, como as pessoas cegas, da mesma forma que um equivalente textual, como as legendas, ou um não textual, como a tradução em língua gestual, possibilitam o entendimento da informação pelo surdo.

Pode-se fazer testes para validar a descrição sonora e a própria informação visual. Se desligando o monitor a descrição sonora do vídeo passar todas as informações anteriormente entendidas e, se ao desligar o som das caixas a informação visual também for completa, esta mídia estará muito boa.

Cores, Daltonismo e Web.

O WCAG 1.0, em seu item 2.1, sugere: "Assegure-se de que todas as informações fornecidas com cor estejam também disponíveis sem cor...1"
A cor pode ser útil para fornecer informações, mas não se deve basear nela como a única maneira de comunicar um significado. É importante mais do que somente a cor para informar, deve-se utilizar outros meios.

Para as "Diretrizes Irlandesas de Acessibilidade"2, que possui fundamentações e explicações técnicas para deixarem mais didáticas as diretrizes do WCAG 1.0, as informações baseadas na cor têm também a seguinte fundamentação:

"Nem todas as pessoas percebem facilmente as diferenças de cor, podendo ter dificuldades para entender as informações que são transmitidas somente através delas. Por exemplo: imagine dois botões em uma tela, ambos idênticos em termos de tamanho e forma. Um é verde, o outro vermelho. O clique no botão vermelho pode causar dano ao computador do usuário. Se o usuário não puder distinguir entre as cores e não houver textos equivalentes nos botões, ele não tem como fazer a escolha certa.

Os usuários têm dificuldade de perceber as cores se eles trabalham com monitores de baixa qualidade , monocromáticos ou se são daltônicos. Do mesmo modo, é difícil ler um texto sobre um fundo cuja cor seja muito próxima, ou sem contraste com a cor do texto. Algumas combinações de cores, tal como um texto vermelho sobre fundo verde, também são difíceis de diferenciar.

Não confie somente na cor para transmitir o significado. Escreva, por exemplo, 'Os botões desta página web baseiam-se na capacidade do usuário distinguir entre o vermelho e o verde'"2.

Existem inúmeros exemplos de inacessibilidades baseadas nas informações transmitidas somente por cores. Por vezes, a própria incidência de luz na tela pode alterar as cores originais, assim como a qualidade da placa de vídeo, óculos inadequados, distância entre a tela e o usuário etc.

A diferença de contraste entre as cores de primeiro plano e de fundo, nas imagens, e entre texto e cor do fundo da tela, deve ser suficiente para que os usuários percebam corretamente as imagens e textos, inclusive os usuários que tiverem deficiências cromáticas de visão, com vista cansada ou que usem uma tela em preto e branco.

Epilepsia fotossensível pode ser provocada na web.

É possível fazer com que a tela trema inserindo comandos no código de uma página web, normalmente para criar um efeito visual. Segundo as Diretrizes Irlandesas:

"Nem sempre é possível que o usuário controle a taxa na qual a tela treme. Enquanto o usuário não tiver esse controle, não devem ser criados efeitos de tremidos.

Isso se deve porque é difícil concentrar-se em uma tela tremendo. Uma tela que treme também pode provocar ataques epiléticos. Pessoas com epilepsia fotossensível podem ter ataques provocados por tremidos ou flashes na faixa de 2 a 60 flashes por segundo (Hertz), com um pico de sensibilidade em 20 flashes por segundo, bem como por mudanças bruscas de escuro para claro (como nas luzes estroboscópicas)."

"É difícil ler conteúdo que esteja aparecendo e desaparecendo, ou ler conteúdo quando alguma outra coisa na página estiver apresentando luz intensa. A intermitência causa particular desvio de atenção também em usuários que tenham capacidade limitada de leitura ou dificuldade de concentração, devido a ruído, stress, ou problema de aprendizado."2

Sendo assim, deve-se assegurar que a tela trema dentro de uma faixa de segurança e não a alterar bruscamente de escuro para claro. Se isso não acontecer, criar mecanismos de congelamento desses tremidos e mudanças bruscas de cor. Isso vai além das questões de acesso, para ser uma questão de segurança e saúde para alguns usuários.

Linguagem simples e clara para todos.

A simplicidade e clareza da redação, cabeçalhos e textos dos links, que sendo objetivos, sem ambigüidades e corretamente escritos levem a um rápido entendimento do conteúdo da página, é fator fundamental de acessibilidade em qualquer site, mesmo os especializados em matérias técnicas.

Para isso é sempre bom que se faça uma boa revisão do texto, que se coloque um bom título nele, que se divida o mesmo em parágrafos afins, utilizando cabeçalhos que definam o que vem a seguir. Se necessário, no caso de haver palavras pouco utilizadas, específicas de determinada matéria, criar um glossário de fácil acesso, para que a linguagem do texto seja entendida pelo maior número de pessoas possível.

Verificar a pontuação e utilizar um corretor ortográfico são medidas importantes, pois os sintetizadores de voz reproduzem exatamente o que um leitor de tela lê. Assim, um texto mal escrito ortograficamente, com abreviaturas do tipo qdo (quando), palavras acentuadas de forma incorreta, e coisas do gênero, pode deixar um usuário sem entender o texto, ou tendo de parar a leitura corrente para voltar a trechos não entendidos pelos quais acabaram de passar.

Os sintetizadores de voz são a voz do leitor de tela, e a maioria deles identifica a pontuação através de pausas, de silêncios na "voz", por alguns deles quase imperceptíveis. Assim um ponto tem um tempo de silêncio até que se leia a próxima palavra, um tempo menor para a vírgula e tempos mais fracionados ainda para dois pontos e ponto e vírgula. A exclamação e a interrogação têm sonoridades semelhantes ao que representam, tanto quanto a reticências. A tecnologia anda tão avançada nesse aspecto, que alguns sintetizadores reproduzem fantasticamente a voz humana.

Saiba Mais! Clique aqui!

Ainda com o intento de chamar a atenção para a necessidade de uma linguagem clara e simples, devemos citar os textos colocados nos links de acesso à outras páginas, ou mesmo links para a mesma página. Pessoas cegas, em geral, apesar de existirem, quando usam leitores de tela sofisticados, vários tipos de navegação, se utilizam apenas dos dois principais tipos de leitura de telas: a leitura corrida de absolutamente todo o texto que se encontra em uma página, ou a leitura sintética que é a leitura da página passando somente pelos textos dos links e campos de formulários, a fim de obterem uma condensação ou resumo do conteúdo total do site ou página. Isso é fácil de fazer, bastando, a partir do início da página, passar pelos links e formulários com a tecla TAB. Corre-se pela página de link em link, ou campos de formulários, pulando-se os textos, imagens, enfim, tudo que não é link ou formulário.

A maioria dos navegadores comuns fazem isso, sem a necessidade de um leitor de telas para tal. Qualquer pessoa, pressionando TAB, pode testar esse uso da tecla. A cada link onde se estiver, em geral, um pontilhado aparece em torno do link, caracterizando o posicionamento de onde se está. Assim, a pessoa com deficiência visual também vai, só que escutando (sintetizador de voz) ou tateando (monitor Braille) os textos, sejam os textos simples dos links, ou equivalentes textuais colocados nos links com imagens. São muito utilizadas, nesses casos, expressões muito conhecidas na web: "Saiba mais", "clique aqui." etc.

Quando uma pessoa com deficiência visual observa essa expressão no link, não pode continuar sua navegação via links, pois tal texto não é completo e objetivo o suficiente para ele ter conhecimento sobre o que ele deve saber mais, ou mesmo porque deve clicar naquele link. Em geral, antes de um link com essas expressões, existe um início de notícia, uma síntese sobre o que se deve saber mais se entrarmos no link. Para a pessoa que enxerga, basta correr os olhos antes do link e rapidamente saber se deseja ou não entrar nele. Para a pessoa com deficiência visual, ela deve parar sua leitura sintética, posicionar seu leitor de telas linhas antes e fazer uma nova leitura, agora mais detalhada (lembremos que as pessoas com deficiência visual só tomaram conhecimento do texto do link, que era "Saiba mais") . Devemos destacar que a leitura silenciosa, um olhar ligeiro sobre um texto, é sempre muito mais rápido do que uma leitura em voz alta, como a leitura de uma pessoa, de um sintetizador de voz, ou uma leitura tátil em um monitor Braille, basta experimentarmos isso na prática.

Assim, uma linguagem clara significa, nesses casos, o texto do link ter uma continuidade como: "Saiba mais sobre zzz, onde zzz é o assunto explicitado no texto anterior ao link.

Variações de idioma na página Web.

Mais que o simples idioma, a variação da língua natural no texto da página e nos equivalentes, textuais ou não textuais, deve ser identificada. As línguas naturais são a língua falada, escrita e a gestual. No Brasil a língua falada e escrita é o português e a gestual é a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).

Assim, quando em um texto em português encontramos a palavra SITE, por exemplo, um leitor de telas enviará exatamente essa informação, ou seja, será lida palavra igualmente como no idioma principal da página, o português: será lido site. Quando se faz a marcação da mudança de idioma, as pessoas que estiverem escutando o texto ouvirão como no idioma de origem da palavra marcada no código, o inglês. Escutarão foneticamente como "saite", com a pronúncia certa.

Da mesma forma que os equivalentes textuais, as marcações de variação de idiomaSite Externo. não aparecem na tela, ficando somente no código da página que é transmitido pelo leitor de tela. No entanto, se formos passar um corretor ortográfico no texto da página, ao chegar em palavras de outros idiomas ele mostra como erro. Por outro lado, se estiver marcado o idioma correto da palavra, ele só apresentará erro se a palavra também não for reconhecida no idioma indicado.

Muitas vezes a pronúncia incorreta das palavras dificulta o entendimento das informações. No entanto, se mal aplicadas as marcações de mudança de línguas, podemos nos deparar com uma página em português totalmente pronunciada em inglês, o que dificultará o entendimento da mesma forma.

Isso pode acontecer por dois motivos: um desenvolvedor de outro país colocar que a página é toda em inglês e alguém copiar a página colocando o texto em português. Isso acontece muito em blogs estrangeiros utilizados por brasileiros, ou mesmo com programas editores de páginas da web que estão no idioma inglês.

A outra forma é quando um criador de páginas abre uma marcação para o inglês e se esquece de fechá-la. Essas marcações têm início e fim, servindo tanto para apenas uma palavra como para expressões, citações e até parágrafos e, assim, as marcas têm de ser bem colocadas no início e fim da variação do idioma. Demos o exemplo do idioma inglês por ser aquele em que esses erros são mais comuns.

A identificação da língua natural também auxilia os tradutores automáticos: softwares ou máquinas capazes de ler o conteúdo de uma página e traduzi-lo para outro idioma. Quando tais tradutores se deparam com uma marcação de mudança de idioma, ele não o traduz, pois pode ser um termo técnico ou mesmo uma expressão conhecida no idioma marcado.

Conteúdos dinâmicos.

Conteúdos dinâmicos são informações que se atualizam em tempo real. Podem ser conteúdo em texto, vídeo, áudio e conteúdo apresentado por meio de scripts e applets, ou qualquer tipo de conteúdo que transforme a página ou parte dela periodicamente.

As Diretrizes irlandesas de acessibilidade baseiam-se nos seguintes fundamentos para a boa utilização desse item do WCAG:

"Alguns métodos causam problemas para usuários com mobilidade limitada, dificuldades de leitura ou deficiência visual. Isso pode acontecer quando o conteúdo dinâmico muda continuamente ou se renova automaticamente em uma única área da página de internet, ex.: um noticiário resumido (news ticker) de rolagem contínua. Esse tipo de apresentação causa problemas para leitores de tela. Usuários com mobilidade limitada podem ter dificuldades para clicar nos links em movimento. Usuários com deficiência visual ou dificuldade de leitura não têm facilidade para ler textos em movimento."2

Assim, informações apresentadas com recursos dinâmicos não possibilitam a navegação por aqueles que não possuem meios capazes de fazê-lo. Deve-se adequar o acesso às informações dessa dinâmica à uma forma estática, de maneira que tecnologias assistivas para pessoas com deficiência possam ter acesso. Pode-se também desenvolver acessos não obstrutivos a essas tecnologias, mesmo que os recursos continuem dinâmicos para quem não as utilize, caso contrário, os usuários ficarão mal informados.

"Frames" ou "Quadros".

Os "frames", ou "quadros", são recursos que apresentam numa só tela do monitor mais de uma página da web. Assim, por exemplo, podemos ter uma tela com um "frame" à esquerda com os menus e links de navegação, que é uma informação fixa. Do lado direito da tela, teremos o conteúdo relativo aos links que estão à esquerda. Esse conteúdo é um quadro (frame) com informações dinâmicas, pois as páginas se alteram à direita a cada clique dado ao lado esquerdo.

Os "Quadros", ou "frames", têm alguns problemas para pessoas com deficiência visual. Esses usuários não percebem, de uma só vez, a estrutura da página. O leitor de telas apresenta o conteúdo linha a linha, ou mesmo somente o pedaço que está lendo, sem uma visão geral da tela. A percepção do todo se dá ao final de toda a leitura, caso cada "frame" esteja bem intitulado, como por exemplo: "Frame superior, Cabeçalho", "frame esquerdo - menus", "frame principal, conteúdo" etc.

No caso dos usuários cegos que se utilizam de navegadores somente texto, como o Webvox ou Lynx, uma lista de frames, na forma de links, lhe é apresentada ao entrar no endereço principal do site. Se os frames não estiverem adequadamente contextualizados, a estrutura da página estará mal apresentada e pode não ser percebida. Dessa forma, a pessoa com deficiência terá de entrar em cada "frame" para saber do que se trata e, aos poucos, ir montando o todo em sua imaginação. Isso pode ser demorado e frustrante. Colocar títulos em "frames" não necessariamente precisa ser no modo visual, podendo ser por marcação na configuração do "frame".

Um "frame" acessível deve conter também, quando seu conteúdo é constituido de vários menus, um salto do início para o final, dando a possibilidade ao usuário da navegação via teclado de passar por todos os menus de uma só vez, pois os mesmos se repetirão em todas as páginas do site.

Atualmente não se recomenda o uso de frames por ser uma técnica antiga, de difícil manuntenção e que restringe a indexação de robots de busca no site, limitando em muito sua visitação através dos buscadores. Está cada vez mais em desuso essa forma de apresentação e só deve ser utilizada em ocasiões muito específicas.

Tabelas de Dados.

As tabelas de dados servem para organizar informações mediante interseções entre linhas e colunas. Assim, por exemplo, se seguirmos as colunas até uma determinada linha correspondente, conseguimos encontrar os dados procurados. No entanto, se estivermos utilizando um leitor de telas, talvez nossa pesquisa não seja tão fácil assim.

Vamos nos utilizar de uma tabela de dados simples como exemplo. Imaginemos que estamos organizando os dados da quantidade de pessoas que visitaram determinado site da internet, a cada mês e dia do ano. Poderíamos ter os 12 meses nas colunas horizontais, de janeiro a dezembro, e os dias nas linhas verticais, de 1 a 31.

O leitor de telas procura os dados linha a linha e, portanto, se o número de colunas for grande, pode confundir seu usuário. Vamos supor que ele queira saber quantas pessoas entraram em seu site no dia 15 de setembro. Passando a linha horizontal dos meses do ano, a próxima linha seria o dia 1. Ele correria, dependendo do tipo de tabela, até o dia 15, quando escutaria o 15 do dia e as 12 informações subseqüentes de cada mês, mês a mês, ou todos os meses de uma só vez. Ou seja, faria uma leitura linear do dia 15 e teria de contar mentalmente quantos resultados passaram até chegar o que deseja, no caso, o do mês em questão, setembro, que seria o nono resultado após a leitura do dia. O usuário escutaria algo mais ou menos assim:

15 353 381 402 324 397 299 306 332 411 391 392 305

enquanto que, se acessível, esta tabela reproduziria: 1 setembro 353, 2 setembro 381... até 15 setembro 411, bastando que, com as teclas de atalho, posicionasse sua audição no dia 15 e fosse pressionando nove vezes até chegar no mês 9 (setembro).

Algumas tabelas de dados, como as estatísticas do IBGE, que já não são muito fáceis de serem interpretadas pela maioria das pessoas que enxergam, são impossíveis para usuários de leitores de telas se não forem feitas acessíveis. Para além das coordenadas a serem encontradas numa tabela, esses usuários ainda têm de entender, pela leitura dos cabeçalhos, o que significam inúmeras abreviaturas que não têm explicação imediata, e se eles estão procurando exatamente aqueles tipos de dados.

Também existe acessibilidade para isso, através de marcações em html que fazem o leitor de tela ler por extenso o que está abreviado, ajudando, além disso, as pessoas que não utilizam tais auxílios, pois se passando o mouse na abreviatura, assim como nos equivalentes textuais já mencionados, dependendo do navegador utilizado, abre uma janela com a abreviatura ou acrônimo estendido.

Conteúdo, estrutura e apresentação (HTML & CSS).

O WAI, Web Accessibility Initiative, departamento do W3C, responsável pelo WCAG, documento de diretrizes de acessibilidade para a web, recomenda que, para se ter um acesso rápido às páginas da internet, deve-se desenvolvê-las separando conteúdo e estrutura da apresentação.

O conteúdo é o principal agente de informação; é constituído do texto, formulários, listas de itens, parágrafos, hiperlinks etc., formando juntos a estrutura da página. As técnicas sugeridas pelo WCAG3 seguem, naturalmente, os padrões web, e são em html, que é uma codificação de marcações.

A apresentação de uma página é o tamanho, forma e cores do texto, do fundo da página, das bordas de imagens e tudo aquilo que faça parte do estilo visual do site. A recomendação é que essa apresentação seja feita em CSS (Cascading Style Sheets).

A linguagem HTML é limitada quando se trata de aplicar a apresentação a uma página. Isto porque trata-se de uma linguagem que foi concebida para usos mais específicos que os atuais. Para solucionar este problema, os desenvolvedores de páginas começaram a utilizar técnicas, tais como o uso de tabelas para formatar o layout das páginas, imagens transparentes como espaçadoras de largura e altura de células de tabelas, codificações que não são padrões do HTML e outras, que degradam a acessibilidade e velocidade no momento de sua utilização pelo usuário.

O funcionamento das CSS consiste em definir, mediante uma sintaxe especial, a apresentação que os desenvolvedores de sites podem aplicar à um site inteiro, considerando-o em todas as suas páginas, à uma página em especial, ou mesmo a um pedaço de página.

Na apresentação feita pelo CSS, reconhecemos inúmeros recursos já conhecidos do html, só que muito mais amplos e rápidos. A potência da tecnologia é muito maior:

  • Pode-se definir, por exemplo, vários tipos de parágrafos: em vermelho, em azul, com margens, sem margens, com letras grandes, médias ou pequenas...
  • Pode-se definir a distância entre as linhas do texto;
  • Pode-se aplicar recuo às primeiras linhas do parágrafo;
  • Pode-se colocar elementos na página com maior precisão, e sem lugar para erros;
  • Possibilita definir a visibilidade dos elementos, margens, sublinhados, riscados, etc...

A principal razão para o desenvolvimento desta tecnologia, foi a de que as páginas web têm misturado em seu código HTML o conteúdo da página com a codificação necessária para lhe dar estilo, ou seja, fazer a apresentação visual.

Assim, a recomendação sugerida nos WCAGs é exatamente a separação do conteúdo e estrutura da apresentação, em espaços diferentes, que possam ser unidos na visualização da página na hora de ser carregada. No momento em que entramos em uma página, o conteúdo se "veste" de sua apresentação, ou seja, o html se "veste" de CSS.

Navegadores somente texto, como o Lynx e Webvox, para pessoas com deficiência visual, não chamam nunca a "apresentação", apenas o "conteúdo" e, assim, para esses, a navegação é muito rápida. A exemplo desses navegadores somente texto, a idéia desde o WCAG 1.0 é a de que, um navegador gráfico seria quase tão rápido quanto um somente texto, utilizando-se folhas de estilo (CSS) e conteúdo separados, para qualquer navegador, como para qualquer auxílio técnico, pois o código do conteúdo e estrutura a ser carregado seria mais simples e menor, enquanto o código da apresentação, apesar de ter mais recursos técnicos, seria muito mais rápido.

Essa técnica é excelente para conexões lentas, como as discadas, banda larga muito compartilhada e para usuários com baixa visão, pois podem ter suas folhas de estilo particulares, que são atualmente aceitas pelos navegadores, com letras ampliadas e de cores diferentes, ajudando-os na visualização da página (mesmo que não fique tão bonita como o designer idealizou). As folhas de estilo trazem uma acessibilidade importante para alguns usuários que necessitam mudar a apresentação, e para todos que gostam de uma navegação rápida e eficiente.

Dispositivos de entrada, dispositivos de saída e acessibilidade.

Dispositivos de entrada são os dispositivos através dos quais entram informações que são trabalhadas por programas, eventos, ou mesmo apenas formulários, envio de e-mails, etc., existentes no site e que serão utilizadas pelo o usuário, ou apenas tarefas comuns como acionamento de links, lista de opções etc. Esses dispositivos podem ser o mouse, o teclado e o comando de voz. Os dispositivos de saída são os receptores dessas tarefas. Podem ser, por exemplo, a tela do monitor, as saídas de som, Braille, etc.

Alguns eventos produzem efeitos puramente visuais, "enquanto outros são usados para completar tarefas críticas, tais como submissão de conteúdos de formulários, conclusão de cálculos ou envio de mensagens. Eventos fundamentais para completar tarefas devem sempre ser independentes do dispositivo de entrada."2

As "diretrizes Irlandesas de Acessibilidade" observam que:

"as interfaces que não oferecem flexibilidade no tipo de dispositivo em que o usuário deve confiar para dar entrada em informações ou receber saídas, são inerentemente inacessíveis. Os usuários de laptops talvez prefiram trabalhar sem o mouse e com o teclado. Nesse caso, se os recursos do site exigirem um recurso do tipo "arraste e solte" como único meio de interagir, sua utilização não será possível." (...) isso (...)não está restrito somente à entrada de informações. É importante também oferecer saídas independentes do dispositivo. Os usuários de leitores de tela podem abrir um menu, mas se não receberem feedback sobre os nomes dos links que estão selecionando, o menu não terá utilidade."2

Essa observação se ajusta exatamente aos menus programados para que, ao serem apontados através do mouse, haja a abertura de uma janela onde aparecem inúmeros links de navegação, e ao ser retirado o ponteiro do mouse desses menus, essa janela com links desapareça. Essas janelas, no entanto, não são iguais as que aparecem nos textos alternativos para mostrarem os equivalentes textuais, pois são preparadas através de programas feitos por desenvolvedores e com seus códigos fechados aos dispositivos de entrada, como o teclado, e os de saída, como sintetizadores de voz.

Esse tipo de recurso é utilizado para o maior aproveitamento possível do espaço na tela, porém, é totalmente dependente do mouse. Por exemplo: vamos supor que um governo esteja apresentando suas várias secretarias. Quando, com o mouse, o usuário passa seu ponteiro sobre o item educação, abre-se uma janela com inúmeros submenus como: "secretaria, escolas, bibliotecas, ano letivo, novas matrículas, corpo docente, eventos", sem, no entanto, entrar em uma outra página. Assim, só aparecem esses novos submenus (links) desse menu quando apontados com o mouse, dificultando, ou mesmo eliminando, os usuários de outros dispositivos, como o teclado, do uso desses links.

Menu
Imagem do menu antes dos submenus serem ativados pelo mouse.

Submenus
Imagem dos submenus depois de serem ativados pelo mouse.

Nesse sentido, as diretrizes irlandesas complementam:

"Quando se desenvolve interfaces que possibilitam entradas com independência do dispositivo, produz-se a usabilidade do site para uma gama maior de mecanismos de computação, inclusive aparelhos portáteis, PCs e sistemas de resposta interativa por voz [Interactive Voice Response systems (IVRs)]."

Além disso "os usuários de leitores de tela confiam plenamente no teclado para interagir com os websites. Se não houver suporte para o teclado como dispositivo de entrada, a utilização do site não será possível. Outros usuários podem usar a entrada de voz para operações sem uso das mãos em escritórios muito ativos ou em caso de limitação de destreza." (Item 2.202)

Para se verificar a existência dessa inacessibilidade, basta passar o ponteiro do mouse sobre o item do menu, que automaticamente submenus aparece logo abaixo, com diversos links específicos sobre o item em questão. Outra forma é, naturalmente, navegando-se apenas através do teclado e, sabendo-se da existência dos links de abertura, passar pelo menu sem conseguir abri-los. (acessibilidade e usabilidade zero).

Hoje em dia já conseguimos fazer com que efeitos desse tipo sejam acessíveis ao teclado, aparecendo os submenus como em uma lista de itens que, na verdade, fica sempre ativa como conteúdo e que é "apagada" por escript e não aberta como nos não acessíveis.

Existem outras tarefas que também podem ser testadas dessa forma. Por exemplo, em uma lista de opções, ao se passar pela primeira opção, esta seja ativada automaticamente apenas por ter sido marcada pelo teclado sem que o usuário tenha tido intenção de fazê-lo. Assim, o usuário da navegação via teclado, nunca consegue passar da primeira opção, pois essa já fica acionada, entrando por ali, querendo ou não. Assim, se seu interesse for a terceira das opções, ele se vê obrigado a entrar na primeira, voltar e, esta estando focada, passar com o teclado para a segunda que, acionada sem intenção, novamente a tarefa será realizada e, voltando novamente, passar da segunda para a terceira, quando a ação irá fazer realizar a real intenção do usuário. (Péssima acessibilidade e usabilidade).

Uma inacessibilidade muito comum e especial para cegos.

A partir de um determinado momento, e por motivo de segurança, inúmeros aplicativos em sites começaram a possuir senhas numéricas e alfanuméricas em imagens para que fossem repetidas pelo usuário através do teclado. Isso impede completamente o acesso de pessoas com deficiência visual a esses aplicativos. Essas pessoas sem poderem ver as imagens e sem que essas imagens tenham equivalência textual, pois softwares inteligentes conseguiriam ler esses textos e colocá-los no campo de edição, onde deveria ser digitada a senha, ficam sem poder entrar em diversas seções dos sites, como as de bancos on line, por exemplo. Isso acabou por se tornar uma grande barreira de acesso em diversas partes da web, deixando as pessoas cegas fora de serviços essenciais para elas.

Uma das formas de solucionar esse grande problema, é se fazer perguntas básicas e de dificuldade mínima, a ser escolhida pelo próprio usuário. Por exemplo: qual o primeiro mês do ano? Qual o mês que se costuma comemorar o Natal? Nenhum software consegue responder perguntas, ainda mais quando são periodicamente trocadas. Além disso, é claro, em lugares de maior segurança, como nas contas bancárias, somente o dono da conta conhece sua senha pessoal, que pode e sempre é colocada por via do teclado.

Outra possibilidade é a de ser repetida a senha que está na imagem por voz, contanto que seja devagar e com poucos caracteres, para que a pessoa cega possa digitar as letras e números "falados" sem se perderem pelo caminho.

Padronização, uniformidade, consistência.

Quando entramos em um site que não conhecemos, acabamos por nos acostumar a ele, desde que se utilize, em suas páginas, recursos de navegação mais ou menos uniformes em todo o site, tais como:

  • Apresentação visual - os elementos de navegação devem parecer idênticos em cada página. Se cada uma tiver um visual diferente, poderá frustrar o entendimento do conjunto, ou até mesmo o usuário achar que mudou de site.
  • Ordem - os elementos de navegação serem apresentados em uma mesma seqüência consistente. Se um link de "Fale Conosco" vier ao final de uma seqüência de links, não deve aparecer como primeiro em outra página do mesmo site.
  • Comportamento - os links e os controles de navegação devem realizar a mesma operação quando ativados.
  • Linguagem - a terminologia deve ser repetida nas páginas e não alterada em cada uma, assim como textos diferentes nos links NÃO devem levar a lugares iguais, ou mesmo textos iguais nos links levarem a lugares diferentes.

Essas pequenas regras ajudam demais na rapidez da navegação por usuários que estiverem entrando pela primeira vez na página, assim como aqueles que não estiverem familiarizados com o uso de computadores ou da web, que tenham dificuldades de aprendizagem ou estejam com pressa.

"A uniformidade torna o site mais previsível e mostra aos usuários como ele funciona, tornando cada nova visita ao site mais simples e facilitando a obtenção da informação desejada. Isso também ajuda os usuários a pularem aquelas partes já conhecidas, facilitando a conclusão das tarefas ou a obtenção das informações."2

Nem economia, nem estatística, apenas percentuais.

Não é raro encontrarmos em sites mais antigos, e mesmo em alguns atuais, a expressão: "Melhor visualizado em 1024 X 786". Isso em geral acontece devido ao fato do desenvolvedor da página ter determinado medidas absolutas nos tamanhos das marcações de html.

Dessa forma, por exemplo, se ele fixar que sua tabela de dados terá a largura de 400 pixels, ela ficará assim em qualquer tela, seja a de um monitor de 17 polegadas, quanto na de um visor de telefone celular. Se esse mesmo desenvolvedor estipular que o tamanho é em percentual, ou seja, um percentual relativo ao tamanho total da tela, esta página poderá se adaptar a qualquer espaço. Assim, controlados por marcação ou folhas de estilo, os tamanhos devem ser definidos em unidades relativas, e não em unidades absolutas.

Se uma página for projetada tendo-se em mente um tamanho de janela de navegador "fixa", para uma resolução determinada, ela poderá ficar menor que o total da tela, ou ainda poderá se tornar completamente inútil se ficar maior, já que os principais recursos desaparecerão pela borda da tela.

Isso atinge especialmente usuários com monitores menores, como os de telefones celulares, e usuários que necessitam de aumentar o tamanho do texto para poderem visualizar a página, como por exemplo pessoas com baixa visão, ou visão cansada.

Quando uma página é dimensionada por medidas absolutas torna-se muito fácil de se identificar. Basta alterar o tamanho do texto nos menus do navegador. Se você não conseguir redimensionar é porque o tamanho da fonte foi definido como absoluto pelo criador da página. Observe que as imagens são exceção. Elas não podem ser alteradas de forma a fluirem para um outro tamanho como acontece com o texto.

Para pessoas com deficiência e para todos.

As diretrizes que norteiam a acessibilidade de páginas na web vão além das necessidades específicas de pessoas com deficiência. No entanto, este é o seu foco principal, que procuramos seguir nas nossas explicações sobre acessibilidade e usabilidade. É difícil descrever literariamente uma coisa que, afinal, se concretiza de forma totalmente técnica. Cada observação textual tem correspondente numa marcação em html, ou em qualquer linguagem dos padrões web. Quando saímos dessa linguagem, protocolos como os da folha de estilo também necessitam se fazer acessíveis e, mais uma vez, caímos na técnica para concretizar a acessibilidade. Deixamos de lado outros itens que, devido à sua complexidade, tornariam este texto muito cansativo.

As coisas que as pessoas sem deficiência vislumbram na tela do monitor sem saberem que se trata de acessibilidade ou de inacessibilidade, ou as barreiras à navegação com que pessoas com deficiência já toparam e que podem ser perfeitamente contornadas por um bom desenvolvedor de páginas, já são assunto suficientemente amplo. O desenvolvedor, em geral, conhece algumas técnicas, mas nem desconfia de que algumas delas, se executadas nas páginas como produz, seriam de enorme valia para grande número de pessoas.

O bloco a seguir constitui-se como uma espécie de panfleto técnico para qualquer projetista de conteúdos web e, principalmente, para os clientes que pagam por uma página para que esta seja visitada pelo maior número de usuários possível e também para que seja garantida visibilidade para sua empresa por meio de uma página de qualidade.

Este panfleto também é dirigido para desenvolvedores de páginas amadores, pessoas com deficiência ou sem deficiência, leigos ou profissionais da área, jovens que gostem de assumir causas importantes para si e para outros. e tem como objetivo contribuir com alguma metodologia no sentido de fazer acessibilidade comprometida com inclusão social, econômica, política e individual de pessoas com os mais variados tipos de deficiência. Seguindo essa metodologia, um bom profissional pode checar a acessibilidade de páginas. Além disso, na seqüência, serão apresentadas ferramentas de acessibilidade para que qualquer pessoa possa verificar se a metodologia foi bem aplicada, bastando colocar o endereço completo da página. Embora somente um conjunto de fatores possa, realmente, validar a acessibilidade, essas ferramentas emitem relatórios, alguns bastante precisos, relativos à acessibilidade das páginas avaliadas.

Métodos e ferramentas de acessibilidade.

"A validação da acessibilidade deve ser feita por meio de ferramentas automáticas e da revisão direta. Os métodos automáticos são geralmente rápidos, mas não são capazes de identificar todas as vertentes da acessibilidade. A avaliação humana pode ajudar a garantir a clareza da linguagem e a facilidade da navegação"1. Deve-se começar por utilizar métodos de validação automáticos nas fases iniciais do desenvolvimento. Assim, as questões de acessibilidade identificadas anteriormente serão mais fáceis de evitar e corrigir.

Os importantes métodos de validação que se seguem são abordados com mais profundidade na seção de validação do documento de técnicas do WCAG 1.04 e das técnicas do WCAG 2.05 e são:

  1. Utilizar uma ferramenta de acessibilidade automatizada. Note-se que as ferramentas automáticas não incidem sobre todas as questões da acessibilidade, como seja a clareza de um texto, a aplicabilidade de um equivalente textual, etc. (Ler bloco abaixo).
  2. Validar a sintaxe (por ex., HTML, XML, etc., em: validador HTML do W3C - http://validator.w3.org. Site Externo. Essa validação do código importa em que sua interpretação pelo navegador seja mais rápida e eficiente, já que estará em contato com um código totalmente correto;
  3. Validar as folhas de estilo (por ex., CSS, valide em: Validador Css do W3C - http://jigsaw.w3.org/css-validator/Site Externo. Pelo mesmo motivo que se deve validar o código do html, se deve fazer o mesmo com o do CSS.
  4. Utilizar um navegador só de texto (Lynx ou Webvox) um emulador ou mesmo retirar o CSS através do Browser para averiguar a integridade das informações sem a presença da apresentação;
  5. para se averiguar se o conteúdo está completo, Utilizar vários navegadores gráficos na verificação do conteúdo, com:
    1. o som e os gráficos ativos;
    2. sem gráficos;
    3. sem som;
    4. sem mouse;
    5. sem carregar frames, programas interpretáveis, folhas de estilo ou applets.
  6. Utilizarmais de um navegador, como por exemplo Internet Explorer e Firefox, para verificar a consistência dos dados entre eles;
  7. Utilizar um navegador de emissão automática de fala, um leitor de tela, software de ampliação de tela, uma tela de pequenas dimensões, etc. Este item é difícil de ser realizado, mas importantíssimo para uma página realmente acessível;
  8. Utilizar corretores ortográficos e gramaticais. Uma pessoa que, para ler uma página, se sirva de um sintetizador de voz, pode não ser capaz de decifrar a melhor aproximação do sintetizador a uma palavra que contém um erro de ortografia. A eliminação dos problemas gramaticais e ortográficos aumenta o grau de compreensão da página.
  9. Rever o documento, verificando-lhe a clareza e a simplicidade. O melhor é pedir a uma outra pessoa que não conheça a página que a leia e avalie a clareza da redação;
  10. Peça a pessoas com deficiências que revejam os documentos. Estes usuários , com ou sem experiência, são uma fonte inestimável de informações sobre o estado dos documentos, no que diz respeito ao seu grau de acessibilidade e de facilidade de utilização. Não se esqueça, porém, que este é somente um dos itens e não o único de averiguação de acessibilidade, inclusive ele é restrito a qualidade da tecnologia assistiva que estiver utilizando no momento, ao conhecimento que ele tenha da página, assim como à deficiência específica que tiver .

Avaliadores de Acessibilidade - Validadores Automáticos.

Os avaliadores ou validadores de acessibilidade, são ferramentas automáticas que fazem uma pesquisa no código de uma página emitindo relatórios onde indicam os erros de acessibilidade segundo as prioridades sugeridas nas Diretrizes para a Acessibilidade dos Conteúdos da Web - 1.0 e 2.0.

O número de avisos em relatórios de acessibilidade normalmente supera em muito a quantidade de erros listados. Isso ocorre em razão da capacidade limitada das regras que podem ser testadas automaticamente por esses softwares.

Existem diferenças relevantes entre as ferramentas de avaliação de acessibilidade, principalmente na sua aderência aos Web Standards (padrões web), portanto, para obter um bom resultado, é mais garantido testarmos em mais de um desses softwares.

É também bom lembrar que a metodologia para se fazer uma boa acessibilidade numa página não se resume na aprovação desses avaliadores automáticos, eles são tão somente referência para se chegar a uma acessibilidade de excelência, para descobrirmos erros muitas vezes imperceptíveis numa avaliação manual. Uma avaliação também só feita por pessoas com deficiência incorre no erro da página ficar acessível somente aquela deficiência, ou à tecnologia assistiva que ela esteja utilizando. Acessibilidade é se fazer algo o mais universal possível, para todas as pessoas com deficiência, para todos os tipos de acesso (rápidos ou lentos, banda larga ou discado) e para todos os tipos de dispositivos (laptops, celulares, de tecnologias assistivas, etc.).

Aí estão os avaliadores mais conhecidos e utilizados:

O preço do costume.

Algumas pessoas, apesar de saberem a respeito de acessibilidade nas páginas da web, têm medo de que sua implementação seja muito cara. É certo que, fazer do início uma página com acessibilidade é muito mais simples que tornar acessível uma página em que a acessibilidade nunca foi pensada. Implementar textos equivalentes e alguns saltos em páginas da web podem ajudar sua navegação para pessoas com deficiência, mas não significa exatamente que a página se tornará uma página acessível. Existem aproximadamente 60 itens de acessibilidade que podemos observar nos sites, cada qual com sua prioridade e atendendo a necessidades específicas. No entanto, não podemos só pensar em acessibilidade para pessoas com deficiência, uma boa acessibilidade é boa para a navegação de todos.

A acessibilidade de uma página tem de vir associada à sua usabilidade e ambas a um desenho e conteúdo atrativos. Não podemos produzir páginas maravilhosas para pessoas cegas e completamente desinteressantes ou de mal gosto para quem vê. Se acessibilidade pretende ser a prática de um desenho universal, então, como dissemos antes, é para todos.

Acessibilidade e usabilidade têm de andar juntas, têm lógica própria, exigem estudo e experiência. No entanto, nada que o costume, a rotina de suas implementações não possam ser absorvidas, e os desenvolvedores de páginas não consigam fazê-las "no automático" um dia. Só é preciso começar a entendê-las, torná-las algo natural e não especial, e o custo final do acréscimo de acessibilidade e usabilidade poderá, no futuro e por conseqüência, ser muito baixo. Isso justamente porque já estaremos acostumados a esse processo e não o trataremos mais como um acréscimo. Entretanto, isso será para um dia...

Conclusão.

O WCAG 1.0, mencionado aqui desde o início do texto afirma: "Os criadores de conteúdo web devem tornar as suas produções compreensíveis e navegáveis. Isto passa não só por uma linguagem clara e simples, mas também pela disponibilização de meios compreensíveis para proceder a navegação entre páginas e no interior delas. A inclusão de ferramentas de navegação e orientação nas páginas é um fator que potencializa a acessibilidade e a facilidade de utilização para todos"1.

O que o W3C, o WAI, através do WCAG demonstra, é a possibilidade de se fazer com que pessoas com deficiência possam se utilizar da internet. O que nós, consultores de acessibilidade, desenvolvedores de páginas inseridos nas questões de acesso inclusivo e pessoas com deficiências usuárias da internet sabemos, é que a acessibilidade nas páginas da web, hoje em dia, é algo mais que a possibilidade prática do uso da internet por pessoas com dificuldades de acesso, é algo além de ser uma ferramenta de inclusão digital da pessoa com deficiência, ao menos aquelas que necessitam de recursos acessíveis programados. Atualmente a web está se tornando uma verdadeira ferramenta de transposição de barreiras, transformando a internet como um todo numa autêntica tecnologia para todos E não apenas para pessoas com deficiência. A acessibilidade digital chegando a lugares nunca antes pensados, ajudando na qualidade de vida de comunidades, comunicação e ensino à distância, gente comum sendo incentivadora e agente do desenvolvimento da tecnologia e cultura a serviço da inclusão de cidadãos mais iguais, mais próximos, mais fortes.

Por outro lado, nós, pessoas com deficiência, cada vez mais, nos tornamos conscientes de que as páginas por onde estamos navegando também foram pensadas em função das diferenças e para que o uso comum nos torne iguais. Iguais por direito, iguais pela luta, iguais pela solidariedade, iguais porque todos assim o sentem e querem.

Desejamos uma acessibilidade por uma sociedade inclusiva, constituída de indivíduos que enxerguem o que há a frente das deficiências: pessoas. Que percebam o que há por traz das incapacidades: falta de tecnologia, conhecimento e atitude. Toda incapacidade tem uma solução a **ra de ser descoberta. A acessibilidade já está aí, olhando para todos e esperando ser aplicada.

Marco Antonio de Queiroz (MAQ).

Referências:

  1. Web Contents Accessibility Guidelines 1.0 - Diretrizes para a Acessibilidade dos Conteúdos da Web - 1.0 Site Externo. (www .utad.pt/wai/wai-pageauth.html)
  2. Diretrizes Irlandesas de Acessibilidade na Web Site Externo. (www .acessibilidadelegal.com/13-irlandesas.php).
  3. Documento de técnicas do WCAG 1.0.Site Externo. (www .w3.org/TR/WAI-WEBCONTENT-TECHS)
  4. Seção de validação do documento de técnicas do WCAG 1.0Site Externo. (www .w3.org/TR/WAI-WEBCONTENT-TECHS#validation).
  5. Técnicas de acessibilidade web do WCAG 2.0.Site Externo. (www .w3.org/TR/WCAG20-TECHS/)

* Marco Antonio de Queiroz - MAQ.

  • Consultor especialista em acessibilidade e usabilidade digital, com 23 anos de experiência em programação de sistemas de informação no SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados) e desenvolvedor de acessibilidade nas páginas da web desde o ano 2000;
  • Ministra cursos de acessibilidade Web para empresas e universidades: UNISYS, SERPRO, UNIRIO, Acesso Digital, Future Kids do Brasil, Porto Digital, CHESF, Prefeitura de Angra dos Reis, entre outros;
  • palestrante em eventos como RioInfo, WAIU, Encontro Dosvox, Encontro de Acessibilidade dos países lusófonos, em universidades como UNIRIO, UFRJ, UFJF, PUC-Rio e em empresas como Petrobras, Fiocruz, Eletrobras, Golden Cross, CET/SP entre outras;
  • Editor de artigos, desenvolvedor da versão portuguesa das Diretrizes Irlandesas de Acessibilidade, criador e conteudista dos sites:
  • Membro fundador e atual consultor do grupo Acesso Digital: estudos, pesquisa e desenvolvimento de acessibilidade em páginas web, produtores do vídeo:
    Acessibilidade web: Custo ou Benefício?
  • Consultor do Centro de Vida Independente Araci Nallin (CVI AN) SP - www. cvi.org.brSite Externo. (site desativado);
  • Autor do livro: "Sopro no Corpo - Vive-se de Sonhos, RiMa Editora, 2005, onde escreve sobre a perda de visão aos 21 anos e sua reabilitação.
  • Cego, divulgador e incentivador da inclusão social e digital para pessoas com deficiência.

Este texto foi escrito com o intúito de ser um capítulo de um livro organizado pela socióloga Marta Gil, onde seria um dos quatro capítulos, sendo os outros criados por Marta Gil, Teófilo Galvão e Paulo Romeu Filho. Infelizmente, apesar de encomendado e pago pelo governo de São Paulo, com o objetivo de orientar monitores de telecentros do Estado, ele não saiu do prelo devido a troca de governo.