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Rio de Janeiro, sábado, 03 de dezembro de 2016 - 09:49.

 

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terça-feira, 20 de janeiro de 2015.

Claudia Werneck atua na inclusão de pessoas com deficiência

Jornalista é fundadora da ONG Escola de Gente, que promove ações em diferentes áreas pelo fim da exclusão.


Nome: Claudia Werneck.
Profissão: jornalista.
Atitude transformadora: atua na inclusão de pessoas com deficiência.
Crédito: Felipe Fittipaldi.

Com catorze livros lançados sobre o tema e 28 comendas nacionais e internacionais — entre elas uma condecoração da Organização das Nações Unidas —, a jornalista Claudia Werneck, 57 anos, é uma referência pelo seu trabalho no combate à discriminação de pessoas com deficiência. O interesse pelo assunto começou em 1991, quando ela fez uma reportagem sobre síndrome de Down. “Fiquei muito sensibilizada com a dificuldade e a discriminação que essas pessoas enfrentavam no dia a dia. Foi uma matéria que mudou a minha percepção de vida”, conta. Mesmo sem ter nenhum parente ou amigo com deficiência, Claudia se engajou nessa luta e passou a viajar por todo o país realizando palestras e oficinas sobre o assunto. Procurada pela Fundação Banco do Brasil, interessada em apoiar sua iniciativa, fundou, em 2002, a ONG Escola de Gente, que promove uma série de ações inclusivas. “É preciso entender que todos fazem parte da sociedade. São cidadãos e devem ter seus direitos respeitados”, diz Claudia.

“Enquanto eu tiver o sentimento de que o nosso trabalho é útil, serei uma sonhadora”.

Com a vida totalmente voltada para a causa, ela acabou mobilizando a família. Sua filha, a atriz Tatá Werneck, por exemplo, criou um grupo de teatro focado em produzir espetáculos inclusivos — que contam com recursos como intérprete de Libras, legendas eletrônicas, audiodescrição e visita guiada ao cenário. As ações realizadas pela Escola de Gente englobam ainda a formação artística de jovens com deficiência. Lá também foram desenvolvidos os parâmetros que mostram o grau de acessibilidade das cidades. Além disso, a ONG faz consultoria e produz conteúdo sobre direitos humanos, diversidade e inclusão para empresas privadas. Desde a sua fundação, essas iniciativas já alcançaram mais de 400 000 pessoas de dezessete países das Américas, África, Oceania e Europa. “A Escola de Gente surgiu de um sonho. Enquanto eu tiver o sentimento de que o nosso trabalho é útil, serei uma sonhadora.”

Fonte: VEJA RIOSite Externo.

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Gil Porta às 11:31.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014.

Marta Gil

Um dos nomes mais respeitados no meio, essa paulistana, formada em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é especialista em comunicação e disseminação da informação na área da deficiência, especialmente em temas como trabalho e educação.

Marta Gil falando ao microfone. A trajetória de Marta Gil junto a pessoas com deficiência começa em 1976, quando foi convidada pela Fundação de Atendimento na Cegueira (FACE) a elaborar uma pesquisa sobre o perfil sociológico das pessoas com deficiências visuais (cegueira e baixa visão) no Brasil, com parceria da Fundação Projeto Rondon e Associação Brasileira de Educação de Deficientes Visuais (ABEDEV). Não havia, na época, nada sistematizado sobre o assunto: a “invisibilidade” dessas pessoas era ainda maior do que hoje. O quadro encontrado foi desolador nos nove estados pesquisados até 1982: pessoas com deficiências visuais não trabalhavam, pouco saíam e nem conheciam o sistema Braille, entre outras dificuldades.

Outro ponto de destaque em sua trajetória é a organização da Rede de Informações Integradas sobre Deficiência, na USP, em 1990, que teve como desdobramento a Rede SACI – Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação – projeto que coordenou até 2006 e que existe até hoje. Ela acredita que informação e comunicação são faces indissociáveis da mesma moeda: uma não existe sem a outra. É uma das fundadoras, e atual Coordenadora Executiva, do Amankay – Instituto de Estudos e Pesquisas (www.amankay.org.brSite Externo.), ONG que, desde 1989, atua na área de disseminação da informação para segmentos sociais em situação de risco, com ênfase no tema da deficiência. Atua como consultora para empresas e órgãos públicos, é palestrante em encontros nacionais e internacionais, tem um livro publicado sobre a história das pessoas com deficiência no SENAI-SP, participa de publicações e tem artigos em revistas, jornais e sites. Por sua trajetória, já ganhou vários prêmios, como uma Menção Honrosa no concurso “Projetos Inovadores Sociais”, promovido pela CEPAL/ONU e apoiado pela Fundação Kellogg e o Prêmio Mulher do Ano da Revista Cláudia, do qual foi finalista, além de menção honrosa no Prêmio Rádio Eldorado na categoria cidadania, entre outros. Marta Gil é também colunista da Revista Reação. Vamos conhecer um pouco mais de sua trajetória e seus projetos:

Revista Reação – A sua coluna para a Revista Reação tem como tema o “Olhar inclusivo”. Como você encara a inclusão nos dias de hoje? 

Marta Gil – Sou otimista e vejo que temos o que comemorar. Quando olho para trás e lembro de como era, de comentários ouvidos nas conversas dos mais velhos, sobre a “cruz” que as mães tinham que carregar, de respostas coletados pelos estudantes do Projeto Rondon – que eram orientados para escrever exatamente o que a pessoa dizia e que mostravam a total falta de conhecimento sobre sua condição e sobre as pouquíssimas possibilidades da época e comparo com a realidade atual, vejo diferenças significativas, que me estimulam a prosseguir. Dentre os avanços, gostaria de destacar a postura das pessoas com deficiência, que cada vez mais fazem sua voz ser ouvida, lutando por seus direitos. Por outro lado… vejo o quanto ainda temos que fazer. O preconceito, mais velado, porque é politicamente incorreto, continua forte e coloca obstáculos a cada momento.

RR – A educação sempre ocupou um lugar central em seu trabalho. O Brasil tem uma educação inclusiva efetiva?

MG – Não, ainda não… Adoraria poder responder que sim … Temos ações e exemplos de políticas públicas inclusivas no campo educacional e também professores que, em suas salas de aula, adotam posturas inclusivas, buscando recursos pedagógicos e aplicando estratégias pedagógicas inclusivas. Temos, também, conhecimento acumulado: dissertações, teses, pesquisas, recursos de tecnologia assistiva, livros, vídeos, que relatam experiências, aprendizados e trazem sugestões. O caminho está sendo construído – aqui, o gerúndio está correto, pois há um processo em andamento.

O site Diversa (www.diversa.org.brSite Externo.), que faz parte do Instituto Rodrigo Mendes, é um rico manancial de informações sobre a Educação Inclusiva – e com recursos de acessibilidade, para citar um exemplo e excelente fonte de informações. Mas falta muito para que possamos dizer que há uma educação inclusiva efetiva. Temos ações pontuais, profissionais e familiares empenhados. Mas também há fortes resistências, por parte de entidades “especiais”, de profissionais e de familiares, que chegam a órgãos de comunicação e a políticos. A inclusão é um processo, que começa dentro de cada um de nós. Envolve valores, sentimentos, noções aprendidas. Não se trata de apontar o dedo no nariz desta entidade abstrata chamada “sociedade” e esbravejar: “A sociedade não é inclusiva!”. É hora de nós fazermos a pergunta, baixinho, para nós mesmos: “Somos inclusivos?”. É bom lembrar, também, que mesmo nos países do tal Primeiro Mundo, que fizeram leis inclusivas antes do Brasil e onde a cultura da inclusão tem raízes mais profundas, ainda há dificuldades e desafios a serem enfrentados. Nem tudo é perfeito lá como às vezes parece ser. Afinal, estamos falando de natureza humana, que é composta de luz e sombra, de preconceito e de acolhimento.

RR – Outro ponto que sempre mereceu sua atenção foi o mundo do trabalho. No seu ponto de vista, a inclusão na área é efetiva?

MG – É verdade, educação e trabalho têm sido os focos de minha atenção. Isso porque acho que são indispensáveis para participar efetivamente em uma sociedade produtiva como a nossa, que se organiza em moldes capitalistas. Se uma pessoa não tem acesso à educação e ao trabalho, ela não faz parte, fica à margem – tenha ou não uma deficiência. Assim, é indispensável que o grupo formado pelas pessoas com deficiência ou com alguma limitação, que correspondem a 24% da população total brasileira –tenham acesso a esses direitos. Para mim, a educação deve preparar para a vida; ela não é um fim em si mesma. Ninguém fica a vida toda na escola. Assim, é indispensável que ela prepare para o mundo do trabalho, desenvolvendo o potencial de crianças e jovens com deficiência. Não, infelizmente a inclusão também não é efetiva no mundo do trabalho. Há iniciativas excelentes, que têm um potencial multiplicador: empresas que relutam, no início, mas depois desenvolvem políticas inclusivas e obtém ótimos resultados, em termos de sustentabilidade, produtividade, clima organizacional.

A viabilidade da inclusão e sua contribuição para a sustentabilidade e produtividade da empresa foram demonstradas onde nunca se imaginou: na indústria da Construção Civil pesada – pesquisa feita em canteiros de obras mostrou resultados positivos, derrubando o mito da impossibilidade da presença de trabalhadores com deficiência nesses locais. Esses fatos e números mostram que a inclusão no trabalho é possível e que traz benefícios às empresas, aos próprios trabalhadores e suas famílias e à sociedade em geral: mais pessoas trabalhando, produzindo, consumindo e pagando impostos. Por outro lado, ainda há muitas resistências nas empresas, da alta direção ao chão de fábrica, passando pelo setor de Recursos Humanos. Entendo que elas vêm da falta de informação e da falta de convivência com pessoas com deficiência.

RR – Você é uma consultora bastante procurada pelas empresas. Quais os principais problemas enfrentados na inclusão de trabalhadores com deficiência? O que você recomenda?

MG – As alegações mais frequentes das empresas são: não sabem onde encontrar pessoas com deficiência e a falta de qualificação delas. Na verdade, a situação das pessoas com deficiência e o trabalho tem vários aspectos e merece estudos mais aprofundados do que os que temos. Vale a pena lembrar que as empresas que saíram na frente – ou seja, que começaram a recrutar trabalhadores logo que a lei e seu respectivo decreto entraram em vigor tiveram mais opções de escolha. As que começaram a fazer o recrutamento mais recentemente estão encontrando mais dificuldades. Por outro lado, a escolaridade das pessoas com deficiência está aumentando: elas estão chegando às Escolas Técnicas e mesmo ao Ensino Superior. Então, cabe perguntar: será que a escolaridade é mesmo tão baixa? Será que as empresas têm informações atualizadas? Ou elas estão oferecendo cargos abaixo da qualificação dos candidatos? As pesquisas do Instituto Ethos/IBOPE demonstram que os cargos oferecidos são os de início de carreira e que raramente há oportunidades de ascensão profissional.

O que recomendo: rever as vagas oferecidas e seus requisitos; ampliar os locais de recrutamento, incluindo Escolas Profissionais, EJA, cursinhos preparatórios para vestibular (especialmente os cursinhos sociais) e faculdades; ampliar a concepção de pessoa com deficiência, considerando seu potencial e não sua limitação, dando chance para que ela mostre o potencial antes de receber o “não”; lembrar que a tecnologia permite a realização de atividades antes consideradas impossíveis; usar o período de experiência permitido por lei (três meses) antes de sumariamente descartar a pessoa; contratar como Aprendiz, o que é bom para todos; revisitar sua política de pessoal, contemplando o colaborador com deficiência nas oportunidades de estudo, viagens e promoção; cuidar da acessibilidade arquitetônica, porque traz vantagens para todos.

RR– Fale um pouco sobre o seu trabalho com HIV/AIDS e deficiências.

MG – Ele representou um desafio, que trouxe muitos aprendizados e gerou pesquisas e artigos; também desenvolvemos materiais com diversos recursos de acessibilidade. Esse tema ainda é um tabu, com consequências sérias: não sabemos o número de pessoas com deficiência que contraíram o vírus. Nem é preciso dizer os impactos e consequências que isso traz, para a própria pessoa, familiares, amigos e sociedade. Ao longo do trabalho, aprendi que pessoas soropositivas também podem adquirir uma deficiência, fato que é pouco conhecido e menos ainda discutido. Fizemos um evento sobre esse tema em João Pessoa/PB, que proporcionou o encontro e a troca de vivências entre essas duas “tribos”, que foi extremamente rico. A convite de Rosangela Berman Bieler, fiz parte da equipe de Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo do Banco Mundial, participando de workshops no Brasil, América do Sul e Central sobre o tema. Poder conhecer profissionais e pessoas com deficiência de outros países foi uma oportunidade maravilhosa de crescimento pessoal e profissional, além de contribuir um pouquinho para dar visibilidade a este tema.

RR – Em suas muitas viagens internacionais como palestrante, qual a análise que você faz da situação do Brasil em relação a outros países em relação à inclusão? 

MG – Falando de forma geral, o Brasil se destaca pelo arcabouço jurídico fortemente inclusivo, que foi até reconhecido pela OEA – Organização dos Estados Americanos (2009), que o colocou entre os 5 países mais inclusivos das Américas. Em relação ao Primeiro Mundo, ainda estamos devendo em acessibilidade arquitetônica, acesso à educação, a equipamentos e recursos disponíveis, ao trabalho, embora muitos países não tenham lei de cotas. É complicado comparar, porque são realidades muito distintas, em países com histórias e culturas tão diferentes das nossas. Nos países que se envolveram em guerras, por exemplo, os soldados veteranos geralmente são respeitados como heróis, não há essa imagem social negativa que ainda temos. Prefiro conhecer o que há de positivo e pensar em como reeditar aqui, como inspiração. Não faz sentido tentar simplesmente copiar o que funciona em outros lugares e nem ficar lamentando o que não temos. Como disse, sou otimista (risos) e prefiro focalizar as conquistas; elas me estimulam a continuar enfrentando os desafios.

RR – Quais os pontos principais de suas palestras? Mesmo variando os temas, há conteúdos básicos que você passa ao público?

MG – Que pergunta interessante! Nunca tinha pensado nisso… Cada palestra é única: procuro me ater ao tema e ao público. Mas tem sempre alguns pontos que abordo, se estiverem de acordo com o tema proposto e sem forçar a barra: a importância da informação e da comunicação; a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e referências para saber mais. Também disponibilizo as palestras, caso alguém tenha interesse – afinal, informação tem que circular.

RR – Apesar de ser uma experiência recente, depois de tantas edições conversando com os leitores da Revista Reação, o que você gostaria de dizer a eles? Qual o seu recado?

MG – A conversa começou há pouco mais de um ano, em janeiro de 2013 e é sempre muito bom pensar no que escrever. Eu gostaria de dizer para serem cada vez mais inclusivos, cada um em seu espaço. A inclusão se fortalece a cada dia, com nossas ações, desde as mais simples. O Luiz Baggio Neto, um militante “jurássico” que infelizmente não está mais entre nós, dizia que o fato de ir para a rua, de circular, equivalia a um discurso. Concordo com ele.

Agradeço imensamente à Revista Reação a possibilidade de ter uma coluna e principalmente esta entrevista. Sinto-me muito honrada e agradecida: foi uma oportunidade de lembrar momentos do passado e partilhar ideias e valores, que são muito importantes para mim.

Marta Gil autografando seu livro.

Fonte: Revista ReaçãoSite Externo..

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Gil Porta às 10:42.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014.

“Passei por vários processos de exclusão”, diz Claudia Werneck, especialista em Down

Christh Lopes*.

A função do jornalista está estritamente ligada ao papel de transmitir informação. Como filosofia de vida, Claudia Werneck levou essa premissa a sério e hoje trabalha para um público que conquistou ao longo da carreira. A especialização em tratar temas sensíveis à vida do cidadão foi fundamental para que passasse a ser referência no mercado, atuando em organização não governamental.

Na foto: Claudia Werneck.

Claudia Werneck conta trajetória e ressalta projeto social. (Crédito: Paulo Rodrigues).

Tudo começou com uma situação inusitada, quando a jornalista não estava preparada para responder uma questão. “Em 1991, eu era chefe de reportagem da revista Pais&Filhos. Um dia, o meu filho mais velho, Diego, na época com sete anos, me pediu para ir visitar o irmãozinho recém-nascido de um colega da escola. Chegando lá, ao me debruçar para conhecer o pequenino dormindo no berço, sua mãe, que eu havia acabado de conhecer, me disse: ‘Você viu? Ele nasceu com Síndrome de Down’”.

“Ao saber que eu era jornalista, ela me pediu ajuda para saber quem era aquele filho que havia chegado. Andaria? Casaria? Aprenderia a ler? Informações sobre síndrome de Down eram raras. Prometi ajudá-la. Naquela noite, não dormi, perplexa e envergonhada com o meu despreparo para lidar com o assunto”, completa. O fato fez com que reascendesse na jovem um “ideal de infância”, quando já compartilhava com seu pai, historiador, o desejo de ser jornalista para disseminar uma causa. “Mas, até então, nenhuma causa havia realmente me mobilizado”, comenta.

Em seguida, a profissional resolver abraçar a luta e escrever sobre o assunto no periódico, uma vez que o problema vivenciado poderia ser semelhante ao ocorrido em outros casos. A repercussão foi tão positiva que, com essa matéria, publicada em agosto de 1992, ela ganhou menção honrosa no I Prêmio Associação Médica Brasileira de Jornalismo sobre Saúde, da Associação Médica Brasileira. “Antes mesmo do prêmio e cada vez mais impressionada com o que estava descobrindo sobre o que é viver nesse planeta com uma deficiência intelectual, decidi escrever um livro, o “Muito prazer, eu existo“, lançado em 1992, e que se tornou o primeiro livro sobre síndrome de Down para leigos no Brasil, hoje um clássico com várias reedições”.

Na foto: Os Inclusos e os Sisos.

Projeto da jornalista busca inclusão social.
(Crédito: Divulgação).

Por conta do livro e do objetivo de reapresentar pessoas nascidas com síndrome de Down à sociedade, a jornalista recebeu mais de três mil cartas e centenas de telefonemas de diversos cantos do país pedindo ajuda no tratamento da questão. “Passei a dar palestras pelo Brasil e outros países, além de centenas de entrevista na mídia. Contei imediatamente com o apoio incondicional do minha família: mãe, pai, filho, filha e marido”. No entanto, com o bom trabalho desenvolvido, logo se estendeu alguns problemas que surgem a partir do momento que um projeto ganha notoriedade no contexto em que se está inserido.

Embora não tenha sofrido ameaças, acabou passando “por vários processos de exclusão”. “Mesmo com o primeiro livro sendo um sucesso, eu me sentia excluída e era criticada, pois para o senso comum era estranho ver uma jornalista especializada em síndrome de Down, deficiência, inclusão. Era como se essa especialidade, ao contrário de gastronomia, política ou futebol, não tivesse qualquer sentido ou importância. Para os meus amigos jornalistas, eu deixara de ser jornalista. Para os médicos e educadores, era uma intrusa. Para os profissionais da literatura, eu não fazia literatura.”.

Claudia diz que logo entendeu a problemática. “Quando se defende um assunto sobre o qual o nível de exclusão é muito grande, vivemos a exclusão do que defendemos”, afirma. Mesmo com o viés negativo de colegas que não apreciavam sua causa, ela continuou.

Em 1994, ela passou a escreveu sobre síndrome de Down para crianças, criando os primeiros livros infantis da literatura brasileira com personagens humanos com deficiência, como a Coleção “Meu Amigo Down” e o “Um amigo diferente?”. Segundo a jornalista, as obras passaram a ser retiradas de concursos literários “sob a alegação de que o tema deficiência não era universal, de interesse para a formação de crianças e adolescentes”.

Nada que impede ou desanima Claudia, que ainda hoje enfrenta tal modo de pensar. “Quando escrevo um livro que não é sobre inclusão, como é o caso de “Sonhos do Dia”, publicado pela WVA Editora, em 2011, e que se tornou o primeiro livro para crianças editado em sete formatos acessíveis, enfrento muita resistência de obter espaço de divulgação na área cultural ou de literatura dos meios de comunicação”. Neste caso, prevalece a ideia de que se a obra tem formatos acessíveis – o que é lei no Brasil – ele necessariamente só interessa a crianças com deficiência, e então o seu espaço de divulgação é outro, não na cultura ou literatura.

Aos poucos, a luta pela inclusão social foi deixando de ser apenas uma pauta para se tornar um objetivo de vida. A transição ocorreu a partir de algumas variáveis. “Fui aprendendo sobre a solidão e as necessidades específicas de algumas populações no Brasil, principalmente de pessoas com deficiência de populações de baixa renda. Pude testar os limites da minha profissão. Finalmente eu exercia o jornalismo com o qual sonhara desde a infância e que me mobiliza até hoje”. Para ela, todo jornalista deve ser um “agente de história”, “principalmente das histórias silenciosas, que nunca são relatadas, porque simplesmente não acontecem”.

“Como jornalista, defendo que os mais graves atos de discriminação se dão nos processos de comunicação, independentemente do conteúdo que está sendo transmitido. Todas essas ideias deram origem, em 2002, a organização da sociedade civil ‘Escola de Gente – Comunicação em Inclusão’”. A organização não governamental idealizada por Claudia surgiu em decorrência das ações produzidas tanto por especialistas de comunicação, como por ativistas na inclusão social.

A iniciativa tem como objetivo mostrar que a comunicação é uma área do conhecimento que deve ser mais bem utilizada a favor da integração de grupos em situação de vulnerabilidade na sociedade, especialmente crianças, adolescentes com deficiência. “Concebemos e realizamos projetos que envolvem a formação de jovens Oficineiros da Inclusão, Agentes de Promoção da Acessibilidade, artistas como o grupo Os Inclusos e os Sisos – Teatro de Mobilização pela Diversidade, de especialistas em políticas de comunicação, cultura, juventude, educação – sempre na perspectiva da acessibilidade, da deficiência e da inclusão”.

“Fazemos da comunicação nossa estratégia, dos direitos humanos nosso território, da juventude nosso principal agente de transformação e da infância nosso maior público beneficiário. Tudo o que fazemos é para a garantia dos direitos de todas as crianças. Todos os direitos para todas as crianças”, declara.

Nos onze anos de funcionamento, a Escola de Gente sensibilizou mais de 410 mil pessoas de 17 países das Américas, África, Oceania e Europa em torno do desenvolvimento inclusivo e sustentável. Recentemente, a entidade encerrou mais um projeto premiado que leva teatro inclusivo a comunidades com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de Janeiro. “O diferencial é que além de apresentarmos um espetáculo acessível, ensinamos como se faz, discutindo conceitos como discriminação, preconceito e inclusão. Mais de 1.600 adolescentes foram sensibilizados pelo projeto, e nosso desejo é que tenha continuidade o ano que vem”.

Todavia, a área cultural sempre foi um dos focos da empreitada. Um dos trabalhos do grupo Os Inclusos e os Sisos – Teatro de Mobilização pela Diversidade, foi idealizado pela filha, a atriz Tatá Werneck, em 2003, “Ela reuniu um grupo de amigos, todos estudantes da UniRio, que passaram a receber formação continuada da Escola de Gente em temas como legislação, Direitos Humanos, acessibilidade, o que lhes deu conteúdo para a criação de esquetes e músicas sobre inclusão”.

Porquanto, todo este planejamento demanda investimentos, custos. Para se manter sustentável, a Escola de Gente possui patrocinadores de projetos sociais e culturais. “O trabalho de captação é árduo, exige muita energia, relacionamento com parceiros, transparência em todos os processos, incluindo as prestações de contas, documentação sistemática e minuciosa de todas as ações”, afirma Claudia, que está com ótimas expectativas com relação aos projetos em andamento em 2014.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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Gil Porta às 10:33.
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