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Rio de Janeiro, sexta-feira, 30 de setembro de 2016 - 20:14.

 

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014.

Setores analisam trabalho pela educação inclusiva em Juiz de Fora

Máquina Braille.

Além do braile, discussão reforça diferentes aspectos da educação inclusiva (Foto: Roberta Oliveira/ G1).

O ingresso na escola é um grande momento para as famílias. Além do início do aprendizado, representa o convívio da criança em outro ambiente, com pessoas diferentes do seu cotidiano. No entanto, quando a criança possui algum tipo de deficiência, as famílias buscam – e nem sempre encontram – instituições capacitadas para fazer o ensino e a inclusão deste aluno. Nos ensinos infantil e fundamental, até o 9º ano, a responsabilidade de ensino é da rede municipal. A partir disso, cabe à rede estadual. Em Juiz de Fora, segundo dados da Secretaria de Educação, mil crianças com deficiência estavam cadastradas até 2013 na rede municipal. No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado neste domingo (21), o G1 buscou informações do que está sendo feito no município neste sentido para receber o aluno.

A Escola Municipal Cosette de Alencar é uma referência no atendimento na cidade, que ao longo das últimas décadas vem se adaptando diante das demandas trazidas pelos novos alunos e famílias. Mas projetos assim ainda são a minoria. Representantes das secretarias estadual de educação e municipal de Juiz de Fora destacaram que este é um processo a longo prazo, que está em andamento, mas ainda há muito a ser feito em diferentes instâncias. Sindicatos de professores cobram mais estrutura para receber e ensinar a estes alunos. A professora responsável pelo Núcleo de Pesquisa em Acessibilidade, Diversidade e Trabalho, Maria Nivalda de Carvalho Freitas, destacou a importância da melhor formação aos professores para aperfeiçoar o processo de inclusão das crianças nas escolas.

Capacitação e aperfeiçoamento.
A recepção do aluno com deficiência cabe à rede municipal de ensino. Em Juiz de Fora, de acordo com a Secretaria de Educação, mil crianças com deficiência estavam cadastradas até 2013. Os dados de 2014 ainda não foram fechados. Até a última parcial, eram 1.198 estudantes. A estimativa da Prefeitura é de chegar a 1.250. “Temos três frentes de ação. O trabalho específico com a criança com deficiência; o trabalho com a família e a formação de professores; além da orientação e confecção ao suporte ao professor”, destacou a coordenadora de Supervisão de Atenção da Educação na Diversidade, Margareth Moreira.

De acordo com a coordenadora, tudo começa no cadastramento escolar. “A partir do cadastro, a rede municipal pode organizar o atendimento no ano letivo seguinte e tentar encaminhar a criança para a escola mais próxima da casa das famílias. Além disso, planejar o encaminhamento desta criança, verificar se precisa de um professor colaborativo”, explicou. Atualmente, das 101 escolas de Juiz de Fora, 35 possuem a sala multifuncional para o atendimento especializado no contraturno do aluno. “Há uma previsão para instalação em mais 14 escolas em 2015, que já estão recebendo o material do Ministério da Educação e os professores estão em processo de formação”, reforçou Margareth.

Materiais escolares.
Materiais da sala de recursos da E. M. Cosette de Alencar usados nos contraturnos com os alunos (Foto: Roberta Oliveira/ G1).

As crianças que estão em escolas onde não há salas como essas são encaminhadas para os Centros de Atendimento Educacional Especializado, a nomenclatura atual do antigo Núcleo Especializado de Atendimento à Criança Escolar (Neace). São quatro unidades, sendo a Sul, no Bairro Ipiranga; a Leste, no Linhares; a Centro, na Rua Batista de Oliveira, que recebe as crianças das regiões Nordeste, Centro, Zona Rural e de parte da Zona Norte e o Sudeste, no Poço Rico, que recebe outra parte da Zona Rural e da Zona Norte, além das regiões Sudeste e Oeste. “Cada uma atende a 120 crianças, no contraturno escolar, com complemento específico para cada aluno e suporte ao trabalho já realizado em sala de aula”, disse a coordenadora.

Além disso, Juiz de Fora é polo do programa “Educar na Diversidade”, responsável pela formação de profissionais de 95 municípios do entorno, com o Seminário de Educação Inclusiva, aulas de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e braille. “Nós temos 350 professores em nossos programas de formação continuada. Nos últimos dois anos, 700 participaram do Seminário”. No entanto, ainda não é suficiente para todo o atendimento. É uma história que a gente tem caminhado e ainda tem muito a conquistar”, ponderou a coordenadora.

Projeto de ampliação na rede estadual.
Na rede estadual de ensino, segundo informações repassadas pela assessoria da Secretaria de Estado de Educação em Belo Horizonte, dados do Censo Escolar de 2013 apontam que o município de Juiz de Fora possui 45 escolas estaduais com 514 alunos. Destas, 44 são instituições regulares com 354 alunos e a Escola Estadual Maria das Dores de Souza, no Centro, exclusivamente de Educação Especial, com 160 alunos com alguma deficiência.

A diretora de Educação Especial da Secretaria do Estado de Educação, Ana Regina de Carvalho explicou como é o atendimento. “A orientação é levantar quais são as necessidades deste aluno, para que seja feito um plano individualizado de desenvolvimento deste aluno e do atendimento especializado na sala de recursos no contraturno”, disse.

Em Juiz de Fora, são 15 salas de recursos instaladas nas escolas estaduais Belmiro Braga, Nossa Senhora Aparecida, Ali Halfeld, Deputado Olavo Costa, Clemente Mariani, Estêvão de Oliveira, Fernando Lobo, Maria das Dores de Souza, Maria Ilydia Resende Andrade, Mariano Procópio, Mercedes Nery Machado, Professor Lopes, Professor Teodoro Coelho, São Vicente de Paulo e no Instituto Estadual de Educação.

“Estamos construindo uma proposta que tenha condições de trabalhar com qualidade com todos os alunos. A gente tem avançado na área de qualificação dos profissionais, no uso dos recursos de tecnologia assistida, além do número de salas de recursos”, disse Ana Regina de Carvalho. A proposta é impedir deslocamentos dos alunos e que ele tenha o atendimento na instituição onde já está matriculado. “Queremos ampliar a cada ano, porque ainda não temos a cobertura em todos os municípios. É um atendimento que está expandindo e a tendência é que a gente chegue ao ponto de cada escola ter a sala de recursos para evitar que o aluno tenha de ir para outra escola”, afirmou a diretora de Educação Especial da Secretaria do Estado de Educação.

Instituto de Educação.
Instituto Estadual de Educação, no Centro, é uma das escolas estaduais com sala de recursos em Juiz de Fora (Foto: Reprodução/ TV Integração).

Qualificação do professor.
A professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São João del Rei
(UFSJ), responsável pelo Núcleo de Pesquisa em Acessibilidade, Diversidade e Trabalho (NACE), Maria Nivalda de Carvalho Freitas, reforçou a importância da busca pela inclusão. “É uma situação complexa, mas, do meu ponto de vista, necessária para garantir uma sociedade com menos desigualdade. O pressuposto adotado é de que a sociedade e as organizações sociais, escola, trabalho, lazer, precisam incluir e ser acessível a todos. Esse pressuposto é denominado de Modelo Social da Deficiência e é um paradigma que norteia o trabalho e as pesquisas no mundo, na atualidade”, afirmou.

Durante um ano, ela participou de uma pesquisa sobre a formação de alunos de licenciatura de Educação Física em atividades teóricas e práticas e na forma como se relacionavam com as pessoas com deficiência. “Os problemas existem, mas a despeito deles, é necessário criar condições para garantir o direito de todos. Nossa sociedade e as escolas ainda estão despreparadas”, comentou a professora.

É preciso criar condições para garantir o direito de todos. Nossa sociedade e as escolas ainda estão despreparadas”
Maria Nivalda de Carvalho, responsável pelo Núcleo de Pesquisa em Acessibilidade, diversidade e trabalho da UFSJ
De acordo com a pesquisa, os universitários acompanhados, mesmo com toda a formação teórica, enfrentavam sensação de medo, associado principalmente às dificuldades de não saber como agir, como colocar limites e de duvidar se efetivamente poderiam contribuir. “Ausência de conhecimento que fosse capaz de auxiliá-los a lidar com a nova realidade que se apresentava. As ações requeridas exigiam que conseguissem articular o que conheciam teoricamente com uma realidade que desconheciam”, afirma o texto da pesquisa.

De acordo com o relato da pesquisa, o medo e a insegurança passavam à medida que a situação deixava de ser desconhecida e quando os estudantes buscavam alternativas. “Os universitários adotaram diferentes pautas de conduta. Todos eles, em tempos diferentes, buscaram se aproximar dos alunos com deficiência, observaram a condução das aulas dos colegas, fizeram anotações e discutiram o que acontecia após cada aula ministrada”, afirmou o texto. Algumas abordagens foram reavaliadas conforme os universitários percebiam que não eram as melhores para o grupo em vista da meta de inclusão. Os resultados destacaram a necessidade de que os professores superem a avaliação a partir das próprias experiências, ampliem as referências e desviem o olhar da deficiência para as potencialidades, que deveriam constar na formação dos futuros professores, tornando-se matéria-prima para a promoção de uma educação inclusiva.

A professora Maria Nivalda de Carvalho Freitas reforçou que é necessário continuar o processo e vencer todas as etapas nesta jornada pela inclusão. “As demandas cotidianas trazidas por cada aluno com deficiência que chega à escola produzem concretamente uma necessidade de mudança. Essas situações produzem transformações sociais, reflexões que contribuem para a construção de uma nova forma de organização social”, afirmou.

Cobrança por melhorias.
O G1 procurou os sindicatos dos profissionais de educação estadual e municipal para uma análise deste quadro. Segundo o posicionamento enviado pela subsede Juiz de Fora do Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Minas Gerais (Sindi-Ute), a educação inclusiva é um projeto positivo ao abrir espaço e incentivar a convivência entre os diferentes.

No entanto, o Sindi-ute ressalta que o problema está no contexto de precarização do trabalho, no ensino e de estrutura. Salas superlotadas, que dificulta a inclusão e o acompanhamento deste aluno, mesmo que ele tenha um acompanhamento individual, que são poucos casos, segundo o sindicato. O sindicato ressaltou ainda que a deficiência da escola em não ter uma equipe multifuncional compromete a relação e o acompanhamento dos alunos com os outros estudantes e os professores. O Sindi-Ute destacou que a situação está muito aquém do que deveria. Ainda não existem salas de recurso em todas as escolas, o que obriga algumas famílias a se deslocarem, mas nem todas têm condições.

Rampa de acesso.

Escada foi transformada em rampa na E.M. Cosette
de Alencar (Foto: Roberta Oliveira/ G1)

Contestações semelhantes surgiram na conversa com o Sindicato dos Professores Municipais (Sinpro) em Juiz de Fora. A coordenadora geral, Aparecida de Oliveira Pinto, também concordou com a importância pedagógica da inclusão, no entanto, destacou que as limitações comprometem o trabalho.

“O professor é o que vai educar, teria que ter outro profissional para dar este amparo para as necessidades que não sejam educacionais. É a maior dificuldade. Na hora do intervalo, ele que dá a merenda à criança ou mesmo troca fraldas. Não adianta colocar no papel a educação inclusiva, mas se ela ainda não seja na prática, inclusive na acessibilidade. A grande maioria das nossas escolas não é. Houve casos de pais que tiveram que transferir para uma escola mais longe de casa porque a mais próxima não tem acessibilidade”, resumiu.

Aparecida de Oliveira Pinto também lembra a necessidade de formação continuada e adequada para o professor e outros profissionais que atuam na educação. “O ideal é não jogar o aluno na sala de aula diante de um professor. Não adiantam só os cursos de curta duração, porque as demandas continuam aparecendo. Uma preparação abrangente de todas as categorias que atuam na escola porque não apenas o professor de sala é responsável por esta criança”, analisou a coordenadora.

A coordenadora geral do Sinpro cobrou mais ação do poder público. “É quem tem que preparar o prédio fisicamente, preparar o professor, para receber esta criança. Há necessidade de investimento na questão humana, de formar e qualificar tanto professor quanto funcionários na questão de atendimento a este aluno em todas as suas necessidades e suportes. Porque o aluno merece esta educação de qualidade”, afirmou.

Fonte: CBNSite Externo..

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terça-feira, 12 de agosto de 2014.

Projeto alfabetiza pessoas com deficiência visual

Identificar letras e formar palavras e frases está se tornando realidade para 18 frequentadores da Associação dos Deficientes Visuais de Uberlândia (Adeviudi). A oportunidade surgiu neste ano, durante o mês de maio, quando a Secretaria Municipal de Educação (SME) implantou o projeto “Construindo cidadania, resgatando possibilidades” e disponibilizou materiais pedagógicos e profissionais para as aulas na unidade. O projeto faz parte do Programa Municipal de Erradicação do Analfabetismo (Pmea), da SME, e permite a inclusão e a formação de pessoas com cegueira ou baixa visão em atividades normais do dia a dia por meio da alfabetização.

“Ler e escrever era algo que parecia impossível para mim. Agora isso é real e melhorou muito minha vida”, disse a aluna do projeto Joana Pires Batista, que tem baixa visão desde quando nasceu.

A experiência tem sido gratificante para a professora do projeto. “Antes de iniciar os trabalhos imaginei que seria muito difícil. Hoje é algo tão enriquecedor que não me imagino fazendo outra coisa”, disse Lucinei Gonçalves Pereira. A metodologia utilizada pela profissional é sempre de acordo com o gosto dos alunos, por isso é comum execução de músicas e realização de jogos com perfis lúdicos e pedagógicos durante as aulas.

O “Construindo cidadania, resgatando possibilidades” tornou real uma antiga reivindicação dos integrantes da Adeviudi, entidade com 42 anos de existência. “Cerca de 85% das pessoas atendidas pela Associação não possuem o ensino fundamental completo, mas essa realidade está mudando”, contou o presidente da Adeviudi, Ivando Pereira de Araújo, que também é aluno do projeto.

“Esta sala significa um avanço na oferta e manutenção dos direitos de todos. A abertura dela nos ajuda a cumprir um direito educacional, pois cria oportunidades para quem tem deficiências visuais”, afirmou a secretária de Educação, Gercina Novais.

Segundo o superintendente da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Urbana, José Antônio Leandro, o benefício contribui para que as pessoas aprendam com amplo apoio pedagógico, com professores graduados e permanentes. “A inclusão escolar não pode ser somente no discurso, precisa ter ações e esta sala é uma destas ações”, disse.

Fonte: Prefeitura de UberlândiaSite Externo..

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quarta-feira, 7 de maio de 2014.

Marta Gil

Um dos nomes mais respeitados no meio, essa paulistana, formada em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é especialista em comunicação e disseminação da informação na área da deficiência, especialmente em temas como trabalho e educação.

Marta Gil falando ao microfone. A trajetória de Marta Gil junto a pessoas com deficiência começa em 1976, quando foi convidada pela Fundação de Atendimento na Cegueira (FACE) a elaborar uma pesquisa sobre o perfil sociológico das pessoas com deficiências visuais (cegueira e baixa visão) no Brasil, com parceria da Fundação Projeto Rondon e Associação Brasileira de Educação de Deficientes Visuais (ABEDEV). Não havia, na época, nada sistematizado sobre o assunto: a “invisibilidade” dessas pessoas era ainda maior do que hoje. O quadro encontrado foi desolador nos nove estados pesquisados até 1982: pessoas com deficiências visuais não trabalhavam, pouco saíam e nem conheciam o sistema Braille, entre outras dificuldades.

Outro ponto de destaque em sua trajetória é a organização da Rede de Informações Integradas sobre Deficiência, na USP, em 1990, que teve como desdobramento a Rede SACI – Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação – projeto que coordenou até 2006 e que existe até hoje. Ela acredita que informação e comunicação são faces indissociáveis da mesma moeda: uma não existe sem a outra. É uma das fundadoras, e atual Coordenadora Executiva, do Amankay – Instituto de Estudos e Pesquisas (www.amankay.org.brSite Externo.), ONG que, desde 1989, atua na área de disseminação da informação para segmentos sociais em situação de risco, com ênfase no tema da deficiência. Atua como consultora para empresas e órgãos públicos, é palestrante em encontros nacionais e internacionais, tem um livro publicado sobre a história das pessoas com deficiência no SENAI-SP, participa de publicações e tem artigos em revistas, jornais e sites. Por sua trajetória, já ganhou vários prêmios, como uma Menção Honrosa no concurso “Projetos Inovadores Sociais”, promovido pela CEPAL/ONU e apoiado pela Fundação Kellogg e o Prêmio Mulher do Ano da Revista Cláudia, do qual foi finalista, além de menção honrosa no Prêmio Rádio Eldorado na categoria cidadania, entre outros. Marta Gil é também colunista da Revista Reação. Vamos conhecer um pouco mais de sua trajetória e seus projetos:

Revista Reação – A sua coluna para a Revista Reação tem como tema o “Olhar inclusivo”. Como você encara a inclusão nos dias de hoje? 

Marta Gil – Sou otimista e vejo que temos o que comemorar. Quando olho para trás e lembro de como era, de comentários ouvidos nas conversas dos mais velhos, sobre a “cruz” que as mães tinham que carregar, de respostas coletados pelos estudantes do Projeto Rondon – que eram orientados para escrever exatamente o que a pessoa dizia e que mostravam a total falta de conhecimento sobre sua condição e sobre as pouquíssimas possibilidades da época e comparo com a realidade atual, vejo diferenças significativas, que me estimulam a prosseguir. Dentre os avanços, gostaria de destacar a postura das pessoas com deficiência, que cada vez mais fazem sua voz ser ouvida, lutando por seus direitos. Por outro lado… vejo o quanto ainda temos que fazer. O preconceito, mais velado, porque é politicamente incorreto, continua forte e coloca obstáculos a cada momento.

RR – A educação sempre ocupou um lugar central em seu trabalho. O Brasil tem uma educação inclusiva efetiva?

MG – Não, ainda não… Adoraria poder responder que sim … Temos ações e exemplos de políticas públicas inclusivas no campo educacional e também professores que, em suas salas de aula, adotam posturas inclusivas, buscando recursos pedagógicos e aplicando estratégias pedagógicas inclusivas. Temos, também, conhecimento acumulado: dissertações, teses, pesquisas, recursos de tecnologia assistiva, livros, vídeos, que relatam experiências, aprendizados e trazem sugestões. O caminho está sendo construído – aqui, o gerúndio está correto, pois há um processo em andamento.

O site Diversa (www.diversa.org.brSite Externo.), que faz parte do Instituto Rodrigo Mendes, é um rico manancial de informações sobre a Educação Inclusiva – e com recursos de acessibilidade, para citar um exemplo e excelente fonte de informações. Mas falta muito para que possamos dizer que há uma educação inclusiva efetiva. Temos ações pontuais, profissionais e familiares empenhados. Mas também há fortes resistências, por parte de entidades “especiais”, de profissionais e de familiares, que chegam a órgãos de comunicação e a políticos. A inclusão é um processo, que começa dentro de cada um de nós. Envolve valores, sentimentos, noções aprendidas. Não se trata de apontar o dedo no nariz desta entidade abstrata chamada “sociedade” e esbravejar: “A sociedade não é inclusiva!”. É hora de nós fazermos a pergunta, baixinho, para nós mesmos: “Somos inclusivos?”. É bom lembrar, também, que mesmo nos países do tal Primeiro Mundo, que fizeram leis inclusivas antes do Brasil e onde a cultura da inclusão tem raízes mais profundas, ainda há dificuldades e desafios a serem enfrentados. Nem tudo é perfeito lá como às vezes parece ser. Afinal, estamos falando de natureza humana, que é composta de luz e sombra, de preconceito e de acolhimento.

RR – Outro ponto que sempre mereceu sua atenção foi o mundo do trabalho. No seu ponto de vista, a inclusão na área é efetiva?

MG – É verdade, educação e trabalho têm sido os focos de minha atenção. Isso porque acho que são indispensáveis para participar efetivamente em uma sociedade produtiva como a nossa, que se organiza em moldes capitalistas. Se uma pessoa não tem acesso à educação e ao trabalho, ela não faz parte, fica à margem – tenha ou não uma deficiência. Assim, é indispensável que o grupo formado pelas pessoas com deficiência ou com alguma limitação, que correspondem a 24% da população total brasileira –tenham acesso a esses direitos. Para mim, a educação deve preparar para a vida; ela não é um fim em si mesma. Ninguém fica a vida toda na escola. Assim, é indispensável que ela prepare para o mundo do trabalho, desenvolvendo o potencial de crianças e jovens com deficiência. Não, infelizmente a inclusão também não é efetiva no mundo do trabalho. Há iniciativas excelentes, que têm um potencial multiplicador: empresas que relutam, no início, mas depois desenvolvem políticas inclusivas e obtém ótimos resultados, em termos de sustentabilidade, produtividade, clima organizacional.

A viabilidade da inclusão e sua contribuição para a sustentabilidade e produtividade da empresa foram demonstradas onde nunca se imaginou: na indústria da Construção Civil pesada – pesquisa feita em canteiros de obras mostrou resultados positivos, derrubando o mito da impossibilidade da presença de trabalhadores com deficiência nesses locais. Esses fatos e números mostram que a inclusão no trabalho é possível e que traz benefícios às empresas, aos próprios trabalhadores e suas famílias e à sociedade em geral: mais pessoas trabalhando, produzindo, consumindo e pagando impostos. Por outro lado, ainda há muitas resistências nas empresas, da alta direção ao chão de fábrica, passando pelo setor de Recursos Humanos. Entendo que elas vêm da falta de informação e da falta de convivência com pessoas com deficiência.

RR – Você é uma consultora bastante procurada pelas empresas. Quais os principais problemas enfrentados na inclusão de trabalhadores com deficiência? O que você recomenda?

MG – As alegações mais frequentes das empresas são: não sabem onde encontrar pessoas com deficiência e a falta de qualificação delas. Na verdade, a situação das pessoas com deficiência e o trabalho tem vários aspectos e merece estudos mais aprofundados do que os que temos. Vale a pena lembrar que as empresas que saíram na frente – ou seja, que começaram a recrutar trabalhadores logo que a lei e seu respectivo decreto entraram em vigor tiveram mais opções de escolha. As que começaram a fazer o recrutamento mais recentemente estão encontrando mais dificuldades. Por outro lado, a escolaridade das pessoas com deficiência está aumentando: elas estão chegando às Escolas Técnicas e mesmo ao Ensino Superior. Então, cabe perguntar: será que a escolaridade é mesmo tão baixa? Será que as empresas têm informações atualizadas? Ou elas estão oferecendo cargos abaixo da qualificação dos candidatos? As pesquisas do Instituto Ethos/IBOPE demonstram que os cargos oferecidos são os de início de carreira e que raramente há oportunidades de ascensão profissional.

O que recomendo: rever as vagas oferecidas e seus requisitos; ampliar os locais de recrutamento, incluindo Escolas Profissionais, EJA, cursinhos preparatórios para vestibular (especialmente os cursinhos sociais) e faculdades; ampliar a concepção de pessoa com deficiência, considerando seu potencial e não sua limitação, dando chance para que ela mostre o potencial antes de receber o “não”; lembrar que a tecnologia permite a realização de atividades antes consideradas impossíveis; usar o período de experiência permitido por lei (três meses) antes de sumariamente descartar a pessoa; contratar como Aprendiz, o que é bom para todos; revisitar sua política de pessoal, contemplando o colaborador com deficiência nas oportunidades de estudo, viagens e promoção; cuidar da acessibilidade arquitetônica, porque traz vantagens para todos.

RR– Fale um pouco sobre o seu trabalho com HIV/AIDS e deficiências.

MG – Ele representou um desafio, que trouxe muitos aprendizados e gerou pesquisas e artigos; também desenvolvemos materiais com diversos recursos de acessibilidade. Esse tema ainda é um tabu, com consequências sérias: não sabemos o número de pessoas com deficiência que contraíram o vírus. Nem é preciso dizer os impactos e consequências que isso traz, para a própria pessoa, familiares, amigos e sociedade. Ao longo do trabalho, aprendi que pessoas soropositivas também podem adquirir uma deficiência, fato que é pouco conhecido e menos ainda discutido. Fizemos um evento sobre esse tema em João Pessoa/PB, que proporcionou o encontro e a troca de vivências entre essas duas “tribos”, que foi extremamente rico. A convite de Rosangela Berman Bieler, fiz parte da equipe de Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo do Banco Mundial, participando de workshops no Brasil, América do Sul e Central sobre o tema. Poder conhecer profissionais e pessoas com deficiência de outros países foi uma oportunidade maravilhosa de crescimento pessoal e profissional, além de contribuir um pouquinho para dar visibilidade a este tema.

RR – Em suas muitas viagens internacionais como palestrante, qual a análise que você faz da situação do Brasil em relação a outros países em relação à inclusão? 

MG – Falando de forma geral, o Brasil se destaca pelo arcabouço jurídico fortemente inclusivo, que foi até reconhecido pela OEA – Organização dos Estados Americanos (2009), que o colocou entre os 5 países mais inclusivos das Américas. Em relação ao Primeiro Mundo, ainda estamos devendo em acessibilidade arquitetônica, acesso à educação, a equipamentos e recursos disponíveis, ao trabalho, embora muitos países não tenham lei de cotas. É complicado comparar, porque são realidades muito distintas, em países com histórias e culturas tão diferentes das nossas. Nos países que se envolveram em guerras, por exemplo, os soldados veteranos geralmente são respeitados como heróis, não há essa imagem social negativa que ainda temos. Prefiro conhecer o que há de positivo e pensar em como reeditar aqui, como inspiração. Não faz sentido tentar simplesmente copiar o que funciona em outros lugares e nem ficar lamentando o que não temos. Como disse, sou otimista (risos) e prefiro focalizar as conquistas; elas me estimulam a continuar enfrentando os desafios.

RR – Quais os pontos principais de suas palestras? Mesmo variando os temas, há conteúdos básicos que você passa ao público?

MG – Que pergunta interessante! Nunca tinha pensado nisso… Cada palestra é única: procuro me ater ao tema e ao público. Mas tem sempre alguns pontos que abordo, se estiverem de acordo com o tema proposto e sem forçar a barra: a importância da informação e da comunicação; a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e referências para saber mais. Também disponibilizo as palestras, caso alguém tenha interesse – afinal, informação tem que circular.

RR – Apesar de ser uma experiência recente, depois de tantas edições conversando com os leitores da Revista Reação, o que você gostaria de dizer a eles? Qual o seu recado?

MG – A conversa começou há pouco mais de um ano, em janeiro de 2013 e é sempre muito bom pensar no que escrever. Eu gostaria de dizer para serem cada vez mais inclusivos, cada um em seu espaço. A inclusão se fortalece a cada dia, com nossas ações, desde as mais simples. O Luiz Baggio Neto, um militante “jurássico” que infelizmente não está mais entre nós, dizia que o fato de ir para a rua, de circular, equivalia a um discurso. Concordo com ele.

Agradeço imensamente à Revista Reação a possibilidade de ter uma coluna e principalmente esta entrevista. Sinto-me muito honrada e agradecida: foi uma oportunidade de lembrar momentos do passado e partilhar ideias e valores, que são muito importantes para mim.

Marta Gil autografando seu livro.

Fonte: Revista ReaçãoSite Externo..

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Estão abertas as inscrições para o 7º Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes Sobre Deficiência. Ficha de inscrição e regulamento, acesse: www.assimvivemos.com.br Em 2015, o Festival Assim Vivemos chega à sua 7ª edição. É com enorme alegria que iniciamos mais uma busca pelos melhores filmes produzidos no mundo sobre o tema da pessoa com […]

 

A diretora da Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicações do TRT5 (Setic), Cláudia Jorge, participou da primeira reunião da Comissão Permanente de Acessibilidade do sistema Processo Judicial Eletrônico da Justiça do Trabalho (PJe-JT) em 2015, na última terça-feira (14/4). A comissão tem como objetivo principal propor medidas para facilitar o acesso de pessoas com […]

 

É hora de deixar de observar apenas a obrigação legal da contratação de pessoas com deficiência física e analisar os ganhos econômicos e sociais da inclusão Silvia Torikachvili. Observando os exemplos mencionados ao longo da reportagem, percebe-se que, quando as empresas decidirem contratar talentos em lugar de deficiências, elas entrarão para o melhor dos mundos. […]

 

 

 

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