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Rio de Janeiro, quinta-feira, 08 de dezembro de 2016 - 16:17.

 

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quinta-feira, 24 de abril de 2014.

Semana de Ação Mundial 2014.

De 21 a 27 de Setembro – em todo o Brasil Pelo Direito à Educação Inclusiva.

Caras e caros companheiros e companheiras de todo o Brasil,

Esperamos que estejam todos e todas muito bem! Estamos iniciando o processo de mobilização para a nossa já conhecida SAM (SEMANA DE AÇÃO MUNDIAL).

Este é o nosso primeiro comunicado para a rede da Campanha. A partir de agora enviaremos periodicamente comunicados por e-mail para trocar informações sobre a organização da Semana.

A SAM é uma iniciativa da CGE (Campanha Global pela Educação) e acontece simultaneamente em mais de 100 países, desde 2003. O objetivo é fazer uma grande pressão internacional sobre líderes e políticos para que cumpram os tratados e as leis nacionais e internacionais, no sentido de garantir educação pública de qualidade para todas e todos. Em 2014, as atividades internacionais acontecerão na próxima semana, a partir de 21/04.

No Brasil, a SAM 2014 acontecerá entre os dias 21 e 27 de setembro e trará como tema “Direito à Educação Inclusiva”. Junto com organizações e movimentos da área da educação inclusiva, optamos por esse período porque 21 de setembro é o Dia de Luta pelos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Entre os assuntos que serão discutidos no Brasil, destacam-se os eixos centrais:

  • O direito à educação inclusiva: marco legal e desafios para a garantia desse direito
  • Formação inicial e continuada dos profissionais de educação para a oferta de uma educação inclusiva pública e de qualidade para todos
  • Direito à acessibilidade física, de informação e de comunicação, inclusiva e para todos
  • Fora da Escola não Pode: cada criança, jovem e adulto tem o direito de aprender em escolas inclusivas

Vídeo sobre a SAM 2014 acessível em Libras.
As ações deste ano começaram a todo vapor. Durante a Reatech 2014 – XIII Feira Internacional de Reabilitação, Inclusão, Acessibilidade e Paradesporto, realizada em São Paulo entre os dias 10 a 13 de abril, ocorreu o lançamento do vídeo acessível em Libras sobre a SAM 2014. O material foi produzido em parceria com a a MD (Mais Diferenças) – organização da sociedade civil que atua na construção, articulação, promoção e implementação de práticas e políticas inclusivas. Ao longo do evento, antes da exibição de cada um dos curta-metragens, que abordaram a temática da educação inclusiva, os participantes da feira assistiram ao vídeo da SAM.

Assista e compartilhe o vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=6AqJLYeKAVY&list=UUi8jCVvlhM2DMXkSr0mYPGg&feature=shareSite Externo..

Como participar da SAM 2014?
Qualquer pessoa, grupo ou organização pode participar da SAM, discutindo o tema e realizando atividades em creches, escolas, universidades, sindicatos, praças, bibliotecas, conselhos e secretarias, envolvendo todos e todas os que se interessam pela defesa da educação inclusiva pública e de qualidade no Brasil.

Para obter mais informações sobre a SAM 2014 e trocar ideias sobre quais atividades podem ser desenvolvidas, falem com Douglas Alves, assistente de mobilização e comunicação, de segunda à sexta-feira, das 10h às 19h, pelos contatos abaixo. E-mail: sam@campanhaeducacao.org.br.
Tel.: (11) 3159.1243 (fixo Embratel).

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Gil Porta às 16:38.
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014.

TST, CNJ e CSJT firmam compromisso para ampliar a acessibilidade ao PJe-JT

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Comissão Permanente de Acessibilidade do Processo Judicial Eletrônico da Justiça do Trabalho (PJe-JT) firmaram compromisso para inclusão do PJe-JT nos padrões internacionais de acessibilidade, através da adoção do Web Content Accessibility Guidelines (WCAG), norma internacional que consiste num conjunto de recomendações para fazer com que o conteúdo da web seja acessível a todos, principalmente para usuários com deficiência. O conselheiro do CNJ Rubens Curado informou que o órgão vai se ocupar do assunto: “vamos investir de forma real para ampliar a acessibilidade do sistema o mais rápido possível”, disse.

A proposta é iniciar as melhorias de acessibilidade em etapas, utilizando como parâmetro o Manual de Acessibilidade elaborado pela Comissão. “Faremos um levantamento das alterações necessárias, uma análise dos impactos, bem como dos recursos humanos e financeiros para a efetiva concretude da acessibilidade”, disse o presidente da Comissão, desembargador Ricardo Tadeu, que é cego. O documento será apresentado ao CNJ com a maior brevidade.

De acordo com dados levantados pela Comissão, quase dois mil advogados e centenas de servidores públicos têm alguma limitação física, sensorial, intelectual ou mental. “Tais cidadãos se beneficiarão com as mudanças implementadas no Processo Judicial Eletrônico, eis que não podem ficar à margem da conjuntura social e cultural em que estão inseridos, como preconiza a Convenção da ONU sobre as pessoas com deficiência”, disse o desembargador Ricardo Tadeu. E completou: “à medida em que focamos na acessibilidade, também estamos contemplando a usabilidade. A acessibilidade não se limita ao acesso propriamente dito, mas ao pleno uso do sistema”, disse.

O Servidor Leondeniz Candido de Freitas, do TRT da 9ª Região, contou que quando os autos do processo eram físicos, atuava na elaboração de minutas de voto. “No caso dos processos físicos, as pessoas cegas têm um trabalho extra, que é digitalizar todo o conteúdo do processo. Mas, ainda assim, era possível ter plena independência nesse formato. Já no PJe, a acessibilidade inexiste”, disse. Segundo ele, diversos servidores com deficiência visual em alguns Tribunais Regionais estão sendo lotados em áreas eminentemente administrativas, como uma “fuga” do sistema eletrônico, por consequência da falta de acessibilidade.


Carta de Princípios da Comissão de Acessibilidade do Processo Judicial Eletrônico do Conselho Superior da Justiça do Trabalho

Acessibilidade como fator de concretude e aperfeiçoamento dos direitos humanos

Disability is not inability.”
Ban Ki-Moon, Secretário-Geral da ONU.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, quase 24% da população brasileira apresenta algum tipo de deficiência. Essas pessoas estão conquistando grande espaço no mercado de trabalho, tanto no setor público quanto no privado, mormente por força do artigo 37, inciso VIII da CF/88 e pela aplicação da Lei de Cotas – Lei 8.213/91 – que determina a porcentagem de funcionários ou empregados com deficiência que a administração pública e cada empresa devem contratar, de acordo com seu respectivo número total de trabalhadores. Por conta disso, as demandas trabalhistas envolvendo pessoas com deficiência estão cada vez mais presentes em nossas instâncias jurisdicionais.

A Justiça do Trabalho, seja pela nomeação de servidores com deficiência ou pela ampla prestação jurisdicional que a notabiliza pela agilidade e sensibilidade em relação às questões sociais e humanas, precisa assumir uma consciência de seu papel atitudinal, por meio de seus magistrados e servidores, visando ao atendimento de todas as necessidades que envolvem recursos de acessibilidade.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) foi ratificada pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo 186, de 9 de junho de 2008 e promulgada pelo Presidente da República por intermédio do Decreto 6.949, de 25 de agosto de 2009, incorporando-se ao ordenamento jurídico brasileiro com força de Emenda Constitucional (CF/88, art. 5º. § 3º). Esse importante tratado, e norma constitucional no Brasil, oferece um novo paradigma na conceituação da deficiência, vez que, pelo pensamento ali embutido, a deficiência agora pertence à sociedade, que ainda apresenta tantas barreiras arquitetônicas, tecnológicas, políticas, econômicas e, principalmente, comportamentais.

As características clínicas de cada cidadão não são mais o único elemento considerado para avaliar a existência e o grau da deficiência. A consequência da citada Convenção é, portanto, a utilização da CIF – Classificação Internacional de Funcionalidades – transformando a nossa visão da deficiência, que não é mais o problema de um grupo minoritário e não se limita unicamente às pessoas com deficiência visível.

O conceito de pessoa com deficiência, agora, enseja grande relevância jurídica, uma vez que inclui na tipificação das deficiências, além dos aspectos físicos, sensoriais, intelectuais e mentais, a conjuntura social e cultural em que o cidadão está inserido, a qual se sobreleva como principal fator de cerceamento dos direitos humanos que lhe são inerentes. Esta ideia já foi agasalhada pelo Supremo Tribunal Federal em voto memorável do Ministro Marco Aurélio Mello no Acórdão do Recurso Extraordinário 440028 do final de 2013, por meio do qual a Suprema Corte invocou a convenção da ONU para determinar a adaptação de uma escola pública em São Paulo a todas as pessoas com deficiência, decisão que nos parece paradigmática, pois revela a compreensão absoluta do que até aqui se expôs.

Deste modo, o conceito de acessibilidade não se relaciona somente à eliminação das barreiras físicas, nas vias públicas, no meio ambiente, nas tecnologias, nas construções e no mobiliário, mas principalmente, à eliminação das barreiras existentes nas relações entre as pessoas, cujas atitudes podem originar e manifestar preconceito e discriminação. É o que chamamos de acessibilidade atitudinal.

Ainda que possamos contar com todo um aparato tecnológico e regras estruturais, a conscientização da sociedade para a importância de se priorizar a acessibilidade em qualquer aspecto da vida é fundamental.

A acessibilidade representa para as pessoas com deficiência o direito à eliminação de barreiras arquitetônicas, de comunicação, de acesso físico, de equipamentos e programas de informática adequados, de conteúdo e apresentação da informação em formatos alternativos, objetivando tornar o acesso dessas pessoas amplo e irrestrito (artigo 9 da convenção supracitada).

Avaliar e mensurar a importância da acessibilidade no contexto atual não é tarefa fácil. Tendo em vista sua amplitude, é entendida como um princípio a ser seguido, já que deve ser base para qualquer regra ou padrão, estando diretamente relacionada a dignidade humana, tanto que a Organização das Nações Unidas adotou a acessibilidade como fator fundante dos direitos humanos, da mesma forma que a sustentabilidade, para a agenda de desenvolvimento pós-2015.

Acessibilidade, destarte, não se limita apenas a permitir que pessoas com deficiências ou mobilidade reduzida participem de atividades que incluam o uso de produtos, serviços e informações, mas oportunizar-lhes a inclusão e extensão do uso destes.

A Recomendação 27/2009 do Egrégio Conselho Nacional de Justiça encarece aos Tribunais vinculados ao Poder Judiciário que adotem medidas para a remoção de barreiras físicas, arquitetônicas, de comunicação e atitudinais de modo a promover o amplo e irrestrito acesso de pessoas com deficiência, bem como que criem, de forma institucionalizada, comissões de acessibilidade visando ao planejamento, elaboração e acompanhamento de projetos e metas direcionadas à promoção da acessibilidade a essas pessoas. Em sua alínea “I”, determina que os órgãos do poder Judiciário elencados nos incisos II a VII do art. 92 da Constituição Federal providenciem.

“aquisição de impressora em Braille, produção e manutenção do material de comunicação acessível, especialmente o website, que deverá ser compatível com a maioria dos softwares livres e gratuitos de leitura de tela das pessoas com deficiência visual. (grifo nosso)”.

Esta determinação certamente contempla também o sistema Processo Judicial Eletrônico, não só por se tratar de uma forma de comunicação que deve ser acessível, mas ainda por se apresentar por meio da web. Assinalamos, por oportuno, que a menção a software livre, no dispositivo supra enfocado, refere-se, por óbvio, à garantia de acesso gratuito a todos, na medida em que sejam operacionais. Em não sendo, há que fazer uso de mecanismos que aceitem qualquer outra ferramenta assistiva.

Não se deve perder de vista também o caráter psíquico do indivíduo em situação de dependência que poderá inclusive acarretar transtornos irreversíveis de ordem emocional como transtorno de pânico, depressão, entre outros. À guisa do mal que a dependência propele colige-se a lição de Elio D`Anna:

“Depender é sempre uma escolha pessoal, ainda que involuntária (…)
Depender é uma consequência da perda da própria dignidade. É o resultado de um esmagamento do Ser.
(…)
Depender é o efeito de uma mente tornada escrava por apreensões imaginárias, pelo próprio medo… A dependência é o efeito visível da capitulação do ‘sonho’. A dependência é uma doença do Ser!… Nasce da sua própria incompletude. Depender significa deixar de acreditar em si mesmo. Depender significa deixar de sonhar.

Diante da constatação por parte de quase 2000 advogados com deficiência visual inscritos na OAB, e de incontáveis servidores e usuários de que o sistema PJe é inacessível, – hostil mesmo a qualquer ferramenta assistiva – faz-se mister a adoção urgente de soluções intrínsecas ao sistema, às quais não são onerosas e tampouco acarretam dificuldades insuperáveis de implantação.

Vale finalmente reiterar, que a acessibilização do sistema PJe não implica custos para a administração, tendo em vista tratar-se da adoção de meras normas de desenvolvimento. Tornar um sistema acessível não requer a aquisição de software ou qualquer outra ferramenta, basta seguir as diretrizes internacionais de acessibilidade (Web Content Accessibility Guidelines – WCAG), desenvolvidas pelo World Wide Web Consortium – W3C, um consórcio multinacional de empresas que elaborou um conjunto de normas de desenvolvimento Web.

Comissão Permanente de Acessibilidade do Processo Judicial eletrônico da Justiça do Trabalho (CPA-PJe-JT), Brasília, 16/01/2014.

A Carta de Princípios da Comissão de Acessibilidade do Processo Judicial Eletrônico do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (formato DOC), presidida por Dr. Ricardo Tadeu, foi elaborada em razão da total inacessibilidade do programa denominado PJe – Processo Judicial Eletrônico.

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Gil Porta às 11:57.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014.

Luta por direitos mudou vida de irmãs anãs

Na foto, Marlene e Lelei.
Marlene e Lelei foram incentivadas pelos pais a ser independentes | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Flavia Boni Licht e Nubia Silveira*

Olinda Marlei Lopes Teixeira desde criança é conhecida como Lelei. Ela e a irmã Terezinha Marlene Lopes Teixeira, a Marlene, nasceram em Jaquirana (RS) e passaram a infância e boa parte da adolescência em São Francisco de Paula (RS). Lelei, jornalista formada pela Unisinos, e Marlene, professora com doutorado em Linguística pela PUCRS, têm ainda em comum o fato de serem anãs. E com a mesma altura, 1m11cm e peso, 31quilos. Essa condição levou-as a buscar soluções, desde as coisas mais simples do dia a dia, como subir num ônibus ou sacar dinheiro no caixa eletrônico, até a decisão de morar sozinhas, com as devidas adaptações feitas em casa. As irmãs sofreram preconceito, enfrentaram o espanto de algumas pessoas, mas o fato de não se intimidarem diante das dificuldades mudou a forma como são tratadas pela sociedade. Falta muito, porém, para que a diferença seja tratada com a atenção que merece, como Lelei e Marlene contam nesta entrevista ao Sul21.

Sul21 – Os pais de vocês eram anões? Houve outros casos na família?
Marlene –
Os outros casos nós ficamos conhecendo depois. Nossos pais não eram anões e no início não se deram conta do nosso nanismo. Tínhamos quatro ou cinco anos, quando fomos levadas a Taquara, onde um médico nos encaminhou a um colega, Dr. Décio Martins Costa, em Porto Alegre, pessoa fundamental nas nossas vidas. Ele fez todos os exames possíveis. Disse que havia tipos de nanismo que podiam ter solução, mas o nosso não, pois era uma questão genética. Tranquilizou a família, disse que éramos inteligentes e incentivou que o pai nos colocasse para estudar.

Lelei – Nosso pai, Nestor da Silva Teixeira, e nossa mãe, Coralia Lopes Teixeira, eram pessoas simples, mas de uma sabedoria impressionante. Ela era dona de casa, ele pequeno fazendeiro. Temiam que a gente não desse conta da vida, que não pudéssemos trabalhar, e fizeram um grande esforço para que estudássemos.

Marlene – Sempre fomos muito estimuladas a ser independentes, contrariando a tendência de proteger um filho com problemas. Fui para a escola. Como as crianças de sete anos são, normalmente, muito espontâneas, riam de mim. Eu ia chorando, queria ficar em casa, mas o pai não deixava. Ele me levava pela mão e me largava na porta da escola.

Lelei – Marlene e eu não fomos criadas juntas. Eu fui criada com os avós maternos – Dorvalina Rodrigues Lopes, a Vó Sinhá, e Juvenal de Oliveira Lopes – porque a Marlene ficou doente e precisava de muitos cuidados da nossa mãe. Quando foram me buscar, meu avô estava tão apegado a mim e pediu que eu continuasse lá, na vila de Jaquirana, onde ele tinha uma venda e era escrivão.

No primeiro dia de escola, entrei na fila e alguém gritou: anã! Eu saí da fila chorando e fui para casa. Disse que não queria ir mais. Uma tia, Dalva Lopes Silva, me levou até o diretor da escola, Aldo Lopes. Ele me pegou pela mão, me apresentou em todas as turmas, dizendo que eu era a nova colega, que todos precisavam me respeitar. Quando fui para São Francisco de Paula estudar já não estranhei tanto.

Sul21- Quando vocês se deram conta de que eram diferentes?
Marlene –
Eu fiquei com o registro das consultas com o Dr. Décio, de ele ter dito que talvez pudesse ter uma medicação. Um dia, com uns sete anos, perguntei para a mãe sobre o remédio e ela disse: “minha filha, o remédio não vem, não tem remédio”.

Na foto, Marlene.
Marlene, professora universitária: “Até o confronto com outras crianças, na escola, nas ruas, não tínhamos muita noção do problema. A gente era uma espécie de coisa querida da família”| Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21- Porque na família nunca aconteceu nada de restrições…
Marlene –
Até o confronto com outras crianças, na escola, nas ruas, não tínhamos muita noção do problema. A gente era uma espécie de coisa querida da família. Todos nos ajudavam, eram superparceiros, os primos gostavam de brincar com a gente. Os irmãos, Mariza, a mais velha, e Rui, o mais novo, foram sempre acolhedores.

Lelei – Comecei a sentir diferença quando saí de casa, de São Francisco, para estudar em Novo Hamburgo. O grande baque foi na adolescência, quando naturalmente tu te sentes deslocado.

Marlene – Fui estudar em Novo Hamburgo no Colégio Estadual 25 de Julho, na época muito prestigiado e que exigia exame de seleção. Fui acolhida pelo tio Plínio Rodrigues Lopes e pela família dele. Com 16 anos, me dei conta de que não conseguia me vestir sozinha e que precisava aprender.

Lelei – Tomar conta da vida era mais complicado. Eu, por ser criada com a avó junto com vários netos, era mais independente: levantava cedo, fazia fogo no fogão de lenha. Como a Marlene saiu de casa primeiro, foi na frente, quando cheguei a Novo Hamburgo tudo foi mais fácil. Fui para a mesma escola. O impacto já tinha acontecido.

Marlene – Aí tem uma coisa muito impressionante: quando estamos juntas, as pessoas ficam mais atentas. Acho que de duas provocamos um encantamento nos outros. Ficam na nossa volta, perguntam se somos gêmeas.

Sul21– Foste para Novo Hamburgo com 16 anos, como a Marlene?
Lelei –
Mais tarde, com 17. Fiz o curso Clássico.

Marlene – Eu fiz o curso Científico. Queria uma profissão que me deixasse quieta, porque achava que não daria para trabalhar com público. Queria ser bioquímica. Foi bem difícil esse período. O que me salvou é que escrevia bem. A professora de português identificou em mim um talento para as letras, mas eu não queria ser professora. Ela me disse que eu poderia ser tradutora e me animou para a carreira.

Na foto, Lelei.
Lelei, jornalista: no dia em que se formou no Clássico levou o título de mehor aluna | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21– E para ti, Lelei?
Lelei –
Em Novo Hamburgo, no Clássico, eu tinha colegas interessantes, mas na época era muito tímida. As pessoas me olhavam muito e eu me sentia estranha, mas chegava na aula e adorava. Ia super bem. No dia da formatura, levei o prêmio de melhor aluna. Foi um período difícil, mas muito interessante por outro lado. A Marlene já estava em Caxias, tinha uma turma muito legal e qualquer coisa boa ela trocava comigo. Eu sentia que tínhamos possibilidades na vida. Fiz vestibular na UFRGS e não passei. Cheguei a pensar que não poderia estudar por questões financeiras. Aí apareceu a Unisinos, passei na seleção. E a família veio morar em Porto Alegre.

Marlene – Comecei o curso de Letras em Caxias num período muito estimulante, com professores ótimos. Consegui me destacar. Em Literatura, principalmente. Fui morar com amigas em uma casa que a gente chamava de “Beco”. Lá aprendi que eu podia lavar a roupa, colocando um banquinho junto ao tanque. Descobri que podia ter uma calça jeans, roupas mais produzidas, tamanquinhos, frequentar bares, boates, enfim fui me inserindo mais, com o estímulo das amigas. Como o pai resolveu reunir os filhos em Porto Alegre, terminei o curso de Letras na PUC.

Sul21– E qual foi a primeira vez que se deram conta das dificuldades no cotidiano?
Marlene –
Antes eu achava que o problema era meu, que eu tinha que me virar. Recentemente é que me dei conta de que a responsabilidade não é minha.

Lelei – A gente tinha aquela coisa de se virar, de dar um jeito, ser criativo. Tem a ver com essa coisa familiar do nosso pai, que dizia: vocês vão para o mundo, ser independentes.

Marlene – Não me ocorria que um interruptor de luz pode ser mais baixo, em casa, por exemplo.

Lelei – Nem a mim. Foi quando conhecemos o Custódio (arquiteto Luiz Antônio Bolcato Custódio), em 1978, que a gente descobriu que podia tornar as coisas mais acessíveis. Ele foi importantíssimo para nós. Chegou lá em casa, viu que o pé direito do apartamento era alto. Criou um mezanino muito charmoso, dividindo a peça em quarto e escritório, que era um sucesso. Depois, a arquiteta Ceres Storchi também nos ensinou a facilitar a vida. Maçaneta de bola, por exemplo, que a gente não consegue girar, na nossa casa tem que ser de alavanca. Mas acessibilidade para valer, como se conhece hoje, a consciência dos direitos que temos, foi depois de conhecermos a Flavia (arquiteta Flavia Boni Licht). Foi uma descoberta.

Marlene – Depois da instituição do caixa eletrônico, a gente ia ao banco e subia numa cadeira, que geralmente tem rodinha. Um dia, um guarda sugeriu que eu pedisse ao gerente uma escadinha. E a gente conquistou essa escada na agência do Banrisul onde temos conta. Na Unisinos, tenho estrado na sala em que trabalho. E assim, começamos a reivindicar.

Sul21– Vocês têm ideia de quantos anões existem no Brasil?
Lelei –
Tenho uma informação de 18 milhões, mas é uma informação antiga. Falha nossa. Precisamos nos atualizar sobre isso.

Banquinho.
Um banquinho ajuda a atingir os armários, por exemplo, que estão mais altos | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21 – Como conseguiram falar no assunto nanismo?
Lelei –
Marlene e eu, irmãs, amigas, vivendo juntas, com o mesmo problema, não conversávamos sobre isso. E eu não dizia essa palavra; ‘anão’ era, para mim, palavra proibida. Convivia com muita gente, mas esse assunto nunca era tocado.

Marlene – Quando via um anão, eu atravessava a rua. Não gostava de ver. A aceitação veio depois da análise: poder se olhar no espelho, descobrir a própria beleza… Hoje, tenho vários espelhos em casa, sem problemas. Ainda faço análise. Minha grande descoberta é que de perto ninguém é normal, como canta Caetano Veloso.

Lelei – A gente começa a se olhar sem nenhuma máscara. A se relativizar, a não se achar vítima, o que é fundamental. Hoje, não me sinto nem um pouquinho vítima, não merecedora das boas coisas da vida. E encaro o nanismo com muita naturalidade.

Sull21 – Vocês brigam muito?
Marlene –
Eventualmente. Já briguei no supermercado Zaffari da Rua Bordini, que frequentamos há muitos anos porque subiram o totem de passar o cartão e não sabiam lidar com a nossa dificuldade. Pedi uma escada, mas não providenciaram. Agora, para não brigar, pois ficou chato, peço um engradado e subo.

Sul21– No dia a dia, qual a maior dificuldade para vocês? Desde o momento de acordar, fazendo um roteiro do dia?
Lelei –
Em casa, problema nenhum. O que não é adaptado, a gente facilita, com banquinho e outros equipamentos. É uma casa confortável para nós. Na rua, calçada não é problema; ônibus, transporte público de um modo geral, é mais complicado porque temos dificuldade para nos segurar; balcões muito altos. Atravessar a rua, por exemplo, não é seguro, pois os motoristas podem não ver a gente. No trabalho é tranquilo.

Tentando alcançar o botão do elevador.
A falta de acessibilidade torna o cotidiano mais difícil | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21 – Uma coisa que conta muito para o idoso é o pouco tempo que a sinaleira fica aberta aos pedestres. E para vocês?
Marlene –
Pela necessidade de adaptação, a gente é muito ágil.

Lelei – Ônibus não é um transporte muito inseguro. Eles não esperam a pessoa entrar, sentar, já vão arrancando, e a gente fica muito vulnerável.

Marlene – Bufê é complicado. Normalmente, a gente não alcança e tem que pedir para alguém servir.

Lelei – As pessoas têm boa vontade, normalmente estamos com amigos, mas, às vezes, há necessidade de pedir ajuda a um garçom.

Marlene –
No Trensurb, por exemplo, não consigo botar nem pegar o bilhete do outro lado. Não tem funcionário para ajudar e todo mundo passa no pique, nem olha. É difícil achar uma pessoa atenta no cotidiano agitado da cidade. Há um grande trabalho a ser feito no Brasil neste sentido.

Sul21- Sobre a questão do lugar … Ninguém espera um anão dando aula.
Lelei –
Aí enfrentamos uma espécie de hipervalorização. Embora profissionalmente igual a todo mundo, se é vista como genial. Parece difícil acreditar que uma pessoa na nossa condição tenha uma boa conversa, trabalhe, reflita sobre a vida, viaje, faça terapia.

Marlene – Muito facilmente a gente é transformada em heroína. Dei entrevista a um menino do Jornalismo da Unisinos. Pedi: não me faça uma heroína, sou uma pessoa muito comum. Até que ele perguntou: “como a senhora chegou até aqui?” Foi uma consequência natural, eu disse, tive sorte, tive pais amorosos, enfim. Quando vi a matéria, a “heroína” estava ali.

Sul21- Vocês não gostam do termo superação. Todo mundo não se supera a toda hora?
Lelei –
Convivemos com pessoas de estatura normal que têm muito mais dificuldades do que a gente, é uma coisa da vida delas. Eu ter feito Jornalismo e trabalhar pode parecer sobrenatural para muitas pessoas. Mas, ao contrário, foi natural, não fiz plano nenhum. Trabalhei em vários veículos escrevendo, fazendo produção e não enfrentei preconceito. Pelo contrário, alguns colegas nem se davam conta das minhas dificuldades.

Marlene – Eu também não me lembro de ter sofrido preconceito no trabalho. Acho que é mais um estranhamento, por ser diferente e viver em espaços formatados para pessoas bem mais altas do que eu.

Sul21– E como é o contato com as crianças? Qual a reação delas?
Lelei –
Criança é muito franca. Algumas dizem, sem problemas: “tu é feia, tua mão é muito gorda, teu braço é torto”. Isso na adolescência é difícil de ouvir. Mas normalmente, as crianças se encantam com a gente, querem brincar. Há uma sintonia grande que passa pelo tamanho. O que mais me assusta é a criança que manifesta medo, mas são raras.

Marlene – Às vezes as crianças não se dão conta e as mães chamam a atenção delas para a gente.

Lelei – Irrita um pouco quando os pais ficam mostrando, apontando, quando a criança nem notou nada.

Marlene – De certo modo, corremos riscos ao sair na rua a cada dia. Anões são vistos como figuras misteriosas, míticas, duendes. Às vezes, também pelo lado do sinistro. Há alguns anos, tivemos uma experiência ruim em Natal. Saímos sozinhas e, ao entrar em uma ruazinha, as crianças vieram todas para a nossa volta, se mediam com a gente, puxavam no braço e algumas começaram a atirar pedras. E as pessoas na janela, olhando, paradas. Não sabíamos se íamos para frente ou se voltávamos. Lembro de dizer para a Marlene: vamos ter calma. Atravessamos a rua toda com as crianças atrás, ninguém fez nada.

Lelei – Quando fomos para Machu Picchu tivemos uma experiência semelhante, na cidadezinha de Aguas Calientes. Veio todo mundo, nos pegando, parecia que era para brincar, mas fiquei assustada.

Marlene – Bem antes de Porto Seguro ser famosa, estivemos lá e toda a cidade andava em procissão atrás de nós. Uma mulher dizia: cruz credo, cruz credo. Em Morro de São Paulo também, mas as crianças eram muito carinhosas. Na rodoviária de Mossoró, RN, nós no meio e as pessoas todas na volta, olhando. Enfim, são muitas as situações, mas aprendemos a lidar.

Lelei – Já ouvimos muitas vezes a pergunta: de que circo vocês são? Antes eu me ofendia; hoje acho maravilhoso.

Sul21- E no exterior?
Lelei –
Na Europa, nossa experiência foi tranquila. As pessoas ajudam a carregar a mala, dão lugar no metrô, as estações de trem, em geral, oferecem atendimento para pessoas com deficiência. Viajamos sozinhas e não temos grandes dificuldades.

Sul21– Mas, voltando ao cotidiano, como é a situação quando há necessidade de exames médicos?

Lelei – Exame de esteira, por exemplo, não dá para fazer.

Marlene – O despreparo é grande, não só em relação à acessibilidade. Há pouca informação sobre nanismo do ponto de vista médico. Qual o peso ideal, que dosagem de remédio é adequada…

Lelei – Uma vez fui parar no pronto socorro por dose excessiva de remédio. Não se deram conta do peso e da altura ao prescrever.

Marlene – Já tomei anestesia em dentista e cheguei em casa delirando.

Lelei – Ouvi de um médico: “eu nunca operei as costas de uma pessoa do teu tamanho, não sei o que vou encontrar, só depois de abrir”. Quando fui fazer dieta, a nutricionista disse: “eu não sei quanto tu tens que pesar. Não pode ter peso de criança nem de adulto. Vamos experimentando.”

Sul21– Quais as coisas que mais incomodam?
Lelei –
Do ponto de vista da acessibilidade, balcões altos, elevador inacessível, insegurança no transporte coletivo, filas, banheiro público (não conseguimos alcançar a pia para lavar as mãos), eventos em que as pessoas ficam de pé.

Marlene – Incomoda também a dificuldade de encontrar roupa pronta. Sapato não se acha. Temos que mandar fazer. E custa caro.

Sul21 – Há alguns anos, houve uma grande mudança na legislação, nas próprias conversas entre as pessoas. Vocês sentem alguma melhora de um tempo para cá?
Lelei –
A prática é uma coisa que ainda está muito distante da legislação. Mais a gente mudou do que as coisas mudaram ao nosso redor. Mas a consciência do direito ao acesso que temos hoje nos ajuda bastante.

Marlene – Não melhorou tanto. Eu viajo muito, convidada para dar palestras. Chego ao hotel e não alcanço em nada. Apesar do discurso pela diferença, poucos hotéis se preocupam com acessibilidade.

Sul21 – E no lazer, na cultura, quais as dificuldades?
Marlene –
No cinema, o problema é o tipo de cadeira. Algumas têm o encosto muito alto. E se alguém senta na frente, a gente não vê. Sempre procuramos lugares estratégicos.

Lelei – Tem lugares que não dá para ir, como mezaninos e galerias de teatro, por exemplo. Livrarias também não é fácil, as prateleiras são altas, temos que pedir ajuda.

Sul21- O que tem de bom na situação?
Marlene –
O ganho secundário. As pessoas parecem querer compensar de algum modo a nossa dificuldade. Tem pessoas que se encantam pela gente. Como tem o momento de espanto e rejeição, tem o de admiração.

A gente sempre teve muita curiosidade pela vida. Não me considero uma pessoa que não tenha tido boas experiências. O saldo é maravilhoso. Ter uma boa família, amigos, trabalho. O respeito profissional que conquistamos. Aprender, estar aberta para novas experiências e dar conta da própria vida é muito legal. O contato com a arte foi muito importante para nós. Desde sempre, gostamos de literatura, teatro, música, cinema. A arte te mostra tanta coisa, te ajuda a perceber o mundo. Não ficamos presas no lado obscuro da vida. Encaramos o que se apresentou para a gente sem vitimização. Sabemos a dor e a delícia de ser o que somos, voltando a Caetano Veloso. Há muito ainda para melhorar e estamos atentas.

Lelei – Para finalizar, gostaria de lembrar um texto que escrevemos com a Flavia, arquiteta, sobre acessibilidade, e que resume bem esta questão:

“Em casa, é possível adaptar alguns equipamentos a suas dificuldades. Na rua, isso é quase impraticável. Num mundo feito por e para pessoas grandes – “normais” – que responde a um padrão histórico-cultural já traçado, as limitações são muitas para essa “gente pequena”. E essa gente vai acumulando dificuldades e frustrações. Aqui computamos apenas algumas, as físicas, visíveis a olho nu.
– um anão não alcança nas prateleiras dos supermercados,
– um anão tem de ajoelhar-se para subir no ônibus,
– um anão não alcança nos botões dos elevadores dos prédios,
– um anão não pode telefonar nos orelhões,
– um anão não alcança nos balcões de bancos,
– um anão não alcança nos balcões de lancherias e bares,
– um anão não alcança nos interruptores de luz,
– um anão não alcança em bilheterias de maneira geral,
– um anão não alcança o espelho de banheiros públicos para ver o próprio rosto e nem nas pias para lavar as mãos,
– um anão não pode sentar-se em qualquer lugar no cinema ou no teatro,
– um anão não encontra sapatos,
– um anão não encontra roupas,
– um anão não pode ficar no meio da multidão ou em lugares muito cheios,
– um anão encara cotidianamente muitos “nãos”.

Nessas situações, eles dependem muito da boa vontade, da solidariedade e do bom humor dos outros e dos mecanismos que cria para a sua sobrevivência, defesa, bem-estar. Caso contrário, têm a “faca e o queijo na mão” para transformarem-se em grandes vítimas do mundo, ingrediente que recheia os muitos discursos sobre a exclusão.
É só encarando a diferença, falando sobre ela, abrindo espaços e buscando formas de viver bem com as suas peculiaridades que anões e todos aqueles que sofrem por algum estigma podem impor o seu jeito, subvertendo a vitimização e o preconceito.
O discurso social hoje aponta para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorá-la ou mascará-la. A sociedade parece começar a entender que a grande riqueza humana está na diversidade dos seres e das ideias, no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades”.

*Colaborou Lorena Paim.

Fonte: Sul 21Site Externo..

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Gil Porta às 11:07.
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