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Rio de Janeiro, segunda-feira, 26 de setembro de 2016 - 22:22.

 

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segunda-feira, 23 de março de 2009.

A Crônica dos Sentimentos.

Valdenito de Souza.
Rio de Janeiro, março/2009.

Quem diria que anos depois -muitos anos depois- eu e ele iríamos nos cruzar numa rua do centro do RJ. Foi absolutamente inesperado; eu ia andando, ele vinha de outra rua, quase nos esbarramos, mas felizmente isso não aconteceu.

Apesar do passar do tempo, nem por um minuto eu duvidei que fosse ele. Quando nos conhecemos, ele devia ter uns 13 anos, eu uns 16. Agora, passados tantos anos, fazíamos parte da dita “idade do lobo”… A voz ligeiramente rouca e o falar meio gago continuavam inconfundíveis.

Ah, a história de cada um! Quem ou o quê, a sina determina o enredo?

Entramos no Benja (INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT) no mesmo ano, eu cego por fatalidade, ele cego de nascença; um do nordeste, o outro do norte. Não chegamos a ser amigos, havia uma disparidade intelectual gritante entre nós (não por uma possível grande inteligência minha , mas sim por uma quase ausência completa deste “dom divino” nele)…

Impressionante como aprendeu logo a andar no colégio. Em poucos dias se movia pelos inúmeros corredores e escadarias do Benja, com a desenvoltura dos alunos mais antigos e, nisto, eu o admirava e até o invejava… Duro de entendimento, raciocínio sofrível, mas dotado de habilidade, principalmente manual, pouco vista aqui no “casarão” da Praia Vermelha – comentavam professores e inspetores.

Nossos contatos foram proporcionais às disparidades das nossas afinidades, ficando restrito às eventuais conversas de corredores, refeitório, pátio, dormitório e na fila da disputa de chuveiros no concorrido banheiro.

Quis o destino(?) que nossas “metas” fossem outras, me dediquei aos estudos, pois tinha meus ideais bem definidos; enquanto ele, estourou a cota de repetência estipulada pelo educandário e perdeu a condição de aluno do primeiro e mais tradicional educandário de cegos da América do sul… Comentou-se na época, que, além da dificuldade cognitiva, trazia o torpe hábito do furto…

A partir daí, passou a viver em instituições menores, igualmente voltadas para o segmento; instituições estas, sem infra estrutura, algumas delas fazendo papel meramente de asilo. Vez ou outra tínhamos notícias dele e quase sempre eram as mesmas: expulso da entidade tal… Tinha uma habilidade fora do comum para abrir cadeados, principalmente, os dos outros…

A mais recente notícia que tinha tido dele: certa entidade do gênero, mantida por uma denominação evangélica, resolvera dar-lhe uma chance. Chegou mesmo a se converter. Algum tempo depois, fora flagrado abrindo o armário de um colega…

Nunca mais nos vimos. E para quê? E tantos anos depois ali estava ele… A poucos passos… Se lembraria de mim? Tive vontade de dirigir-me a ele, mas e a coragem?

Lembrei-me dos tempos, agora tão remotos, nas dependências do Benja, e… um velho conhecido, com quem há anos mantenho “relações instáveis”, chamado sentimentalismo, paralizou-me por algum tempo.

Sem saber o que fazer, fui atrás dele. Percebi quando entrou numa esquina, caminhou um pouco e, em seguida, sentou-se num ponto da calçada e batendo algo que me pareceu uma vasilha de metal, soltou aquela sua voz inconfudível:

“uma ajudinha pro almoço!”…

Meu coração bateu forte, pensava: falo com ele ou não? E se ele ficar indiferente? Afinal, tantos anos depois… Agora, Sentimentos, vários sentimentos conflituosos, como verdugos implacáveis, açoitavam-me. E, submisso aos algozes… afastei-me retomando meu caminho…

Valdenito de Souza, o nacionalista místico.
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quarta-feira, 18 de março de 2009.

Minha Primeira Aventura com a Bengala.

Sonia B. Hoffmann e Eduardo F. Paes.

Depois de algumas aulas de Orientação e Mobilidade, me senti mais confiante para realizar um desejo que sempre tive: sair sozinho à rua. E que motivo melhor para começar a fazer isto do que ir à festa de aniversário do Renato, meu melhor amigo, sem que meus pais precisassem me levar até lá?

Conversei com eles sobre isto e senti que, no começo, não ficaram muito satisfeitos com esta minha idéia. Insisti com meus pais, dizendo que já me sentia seguro para sair sozinho, principalmente para lugares próximos da nossa casa. Finalmente, usei um argumento bastante convincente: “Não se preocupem! Não preciso atravessar rua alguma para chegar lá. Depois, já conheço bem o caminho porque, muitas vezes, vocês me levaram até a casa dele.
Lembram?”.

Eles pensaram um pouco e, finalmente, permitiram que eu fosse, pedindo apenas que eu telefonasse para eles quando chegasse lá e quando eu decidisse vir embora. “Eba, vai ser uma grande surpresa para o Renatinho. Por esta ele não está esperando!!”.

Fui para o quarto me arrumar para esta minha “grande aventura”. Abri o armário e escolhi a roupa mais legal que eu tinha. Não foi difícil encontrá-la, pois minha mãe sempre organiza minhas roupas do jeito que combinamos ser o mais prático para mim. Calcei meu tênis mais novo e procurei dar um laço bem firme, como meu pai havia ensinado, para não correr o risco de ele se desfazer e eu pisar no cadarço e cair.

Peguei a Sandy, minha bengala, que a partir de hoje tinha a certeza de que passaria a ser minha constante companheira de saídas. Me despedi dos meus pais e ouvi deles aquelas recomendações que tantas e tantas vezes fizeram para meu irmão mais velho e que, muitas vezes, imaginei e desejei que fossem dirigidas também para mim.

Apanhei o presente na mesa, abri a porta, atravessei o jardim e cheguei ao portão que dava para a rua. Já na calçada, com o coração batendo forte, respirei fundo e pensei: “João Vítor, agora é contigo! Coragem e vamos em frente!”

Com isto, posicionei a bengala à frente do meu corpo, fiz a primeira varredura e dei início à caminhada, ativando todos os meus sentidos para perceber e interpretar todas as informações que auxiliassem ou atrapalhassem o trajeto. Depois de alguns passos, percebi que estava em frente a casa de dona Sofia, pois sua calçada era feita com pedras portuguesas – como meu avô havia me explicado. Logo em seguida, identifiquei a calçada do seu Joaquim que, ao contrário de dona Sofia, não estava nem aí para a sua conservação e a calçada apresentava altos e baixos – o que me obrigou a ser mais lento em meus movimentos. Eu sabia que a parte mais complicada do trajeto era justamente a inicial, pois lembrava que as outras calçadas até a casa de Renatinho eram planas.

Um cheirinho gostoso de pão me indicava que eu estava próximo à padaria da esquina, na qual eu deveria virar à direita e caminhar até a outra esquina a mais ou menos 150m, onde eu deveria virar novamente à direita.

Quando passava pela padaria, o Sr. Nestor, que era o dono, gritou do balcão para mim:

Ei, João Vítor, andando sozinho pela rua? Cadê sua mãe?
Rapidamente, me virei em direção de sua voz e respondi com um sorriso orgulhoso:
Olá, Sr. Nestor. Ela ficou em casa. Hoje, estou fazendo minha primeira saída sozinho. Já tenho 11 anos e fui muito bem orientado no uso da bengala. Amanhã venho aqui pra comprar meu doce preferido!“.

Fui em frente, imaginando a cara de espanto que ele deve ter feito ao receber aquela informação… as pessoas não estão acostumadas a ver crianças andando de bengala sozinhas nem mesmo pelas ruas do seu bairro.

Mais adiante, me dei conta de que já estava no meio da quadra por causa do som estridente vindo da serralheria do seu Manuel. Como o som era muito forte, fiquei por algum momento sem poder captar outras informações auditivas e isto me deu um medo de perder a orientação. Procurei me concentrar um pouco mais e continuar meu caminho em linha reta, como até então vinha fazendo. Uma senhora que passava, talvez por ter notado minha preocupação, me perguntou se eu precisava de ajuda. Agradeci gentilmente, como me havia sido ensinado, e disse que estava tudo bem.

Quando cheguei na próxima esquina, ouvi crianças jogando bola no pátio de um grande prédio. Percebi que elas pararam seu jogo e comentaram baixinho:

Olha lá aquele menino ceguinho que sempre passava por aqui de mão dada com a sua mãe. Agora ele usa a bengala e está só! Será que ele não tem medo de andar sozinho?
Que legal! Assim, ele pode ir pra tudo que é lado como a gente!

Ouvi estes comentários e pensei que muitos mais eu ouviria ainda neste mesmo dia e em todos os demais da minha vida. Mas meu desejo de ser cada vez mais independente era muito forte e, por isto, não deixaria que nenhum comentário me desanimasse a seguir em frente.

Com passos mais rápidos porque me sentia mais seguro, entrei na rua onde morava Renatinho. Sua casa ficava a poucos metros, logo após dois degraus que marcavam o início da ladeira. Felizmente, ele morava bem no começo dela! Em todo caso, seria fácil achar a casa de qualquer modo, pois no jardim havia um grande viveiro de pássaros e, especialmente naquele dia de festa, eu já começava a identificar algumas vozes conhecidas que se aproximavam.

Posicionei a bengala corretamente para a subida dos degraus e, em frente ao portão, nem tive tempo de achar a campainha porque sua mãe, entre surpreendida e contente por me ver ali sozinho, veio logo me receber e me conduziu até o Renatinho. Nos abraçamos e eu lhe contei minha pequena aventura. Ele ficou muito feliz e mais feliz ainda ficou quando lhe entreguei meu presente: uma bengala igual a minha, pois ele também é cego.

Texto elaborado por Sonia B. Hoffmann e Eduardo F. Paes para a Oficina de Deficiência Visual do Curso de Formação Continuada na Modalidade Educação Especial, promovido pela Divisão de Educação Especial – Secretaria da Educação do Estado do Rio Grande do Sul.
Porto alegre, RS, agosto de 2007.

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domingo, 15 de março de 2009.

O Bafo de Belzebú.

Final de expediente… A bordo do elevador, desfaço a escalada da manhã e mergulho do 24 andar até o térreo, conforme me impõe a rotina dos ditos “dias úteis”…

Na portaria do prédio, me deparo com ela… sim é ela… inexpugnável, infalível, inexorável, a “estufa carioca”, confecionada pelo tradicional calor do janeiro da cidade. Caminho na rua da Ajuda e chego a esquina da Rio Branco, coração do RJ.

Ar parado… mormaço… gente suada caminhando apressada em todas as direções…

Ajudado por um pedestre, atravesso a trepidante avenida, centro nervoso da cidade q, num tempo relativamente remoto, chegou a ser considerado a “corte” da promissora nação tupiniquim. No outro lado da avenida, me dirijo ao metrô e, para isto, tenho que diblar colunas e colunas de camelôs que, num alarido infernal, anunciam a todos pulmões uma variedade de produtos.

Implacável, absoluto, o “astro rei” sustenta seus raios inclementes sobre ruas, calçadas, bancas, prédios, automóveis, pedestres, como que querendo fazer de tudo uma grande mixórdia, para em seguida transformá-lo num cozido diabólico…

Nas dependências do metrô, numa temperatura um pouco mais amena, um solícito funcionário me encaminha até a roleta. Agora, uma educada e meiga funcionária faz a ponte comigo até a plataforma: o contato feminino — o suave perfume, a pele delicada do seu braço, a sonoridade da voz, acionam a usina instintiva da libido, e, o pensamento
devolve tudo em desejos, vontades, idéias… Sempre cortês, a guarda me embarca num trem e me vejo no ferro do centro de um vagão super lotado.

O trem retoma a marcha. O número de passageiros, excede em muito o limite racional do vagão; o ar condicionado se mostra insuficiente para a demanda e a “estufa” da rua se transporta para o vagão, transformando a agradável viagem diária numa anti-sala do inferno.

O trem para na estação da cinelândia, e, para nosso desespero, recolhe mais passageiros. Dispara rumo a Glória. reclamações, imprecações, lamentos se sucedem… O calor, como querendo abrir disputa com o trem, dispara na escala, envolvendo os aflitos passageiros num abraço dantesco.

Amassado contra o ferro central do vagão, procuro na medida do meu possível, resistir a mais aquela provação, procurando manter a calma. A aflição toma conta dos passageiros…

– Calor dos infernos! Isto é uma pouca vergonha, deixar o vagão encher deste jeito!
– Quando chegar na estação vou reclamar desta vergonha, pensa que a gente é “sardinha” pra andar enlatada!
– Coitadinho dele, passar por um sufoco deste! nem os pobres dos cegos eles respeitam!

O trem corre, o calor aumenta e o desespero dos passageiros acompanha proporcionalmente… No meu lugar, cada vez mais espremido contra o ferro, suado de ponta a cabeça, computo as estações que faltam e tento me desligar do pandemônio… Será que se eu fosse rico diriam: “nem os ricos dos cegos eles respeitam!”?

Gemidos, grunidos, lamúrias, ranger de dentes, palavrões de toda espécie. a atmosfera assume a forma da “caldeira” de Belzebú!

O trem para na Glória e vários passageiros tentam ingressar no abarrotado vagão, sendo prontamente repelidos a tapas, empurrões, safanões e similares… Retoma novamente sua marcha e avalio: Catete, Largo do Machado e, finalmente, minha estação. que o “arquiteto do universo” zele por mim ou no mínimo resolva a meu favor aquela equação tempo/espaço…

Calor, mal estar, angústia e o trem célere em sua marcha, como que em rumo ao inferno…

afirmam os crédulos sobre o diabo que, além de um alkimista contumaz, trata-se de um ser insaciável… e assim q o trem deixa a estação do Catete, um novo elemento se instala no explosivo vagão. Presença silenciosa, incolor, invisível, mas consistente, persistente. Personalizado numa fragancia fétida, infernal, addvinda quiçá dos
confins dos infernos. Como num passe de mágica, o vagão inteiro se queda em silêncio. Um silêncio indagativo, analítico, prescrutador, como que avaliando o elemento recém chegado.

No meu canto, suarento, pegajoso, praticamente atarrachado no ferro do vagão, desisto de tentar alguns exercícios de Ioga, há muito abandonados e reunindo o que ainda me restava de brio e garra , encaro de peito aberto, com respiração contida mais aquela provação, agora condicionada a emanações voláteis de fragância nunca antes conhecida….

O trem chegou e partiu da estação do Largo do Machado; a fedetina, agora estabilizada, continuava impregnando o vagão. Os passageiros, como em comunhão, continuavam em silêncio. E em silêncio ficaram até a próxima estação, que felizmente era a minha.

Sou recebido por um solícito guarda:

– Faala campeão, tudo firme?
– Tudo, graaaças a Deus!
– Escada rolante ou a outra?
– Tanto faz!
– Caramba, vc está pálido, passando mal?!
– Não, não! Tudo bem!

Já na saída da estação, deparo novamente com a implacável estufa. Entro na Marques de Abrantes, minha rua, que bom revê-la, apesar de angustiado, são e salvo…

Valdenito de Souza, o nacionalista místico.
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