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quarta-feira, 7 de setembro de 2011.
RUBEM ALVES
‘Curriculum’, no latim, quer dizer ‘corrida’, ‘lugar onde se corre’; na corrida entre diferentes, todos ganham.
Havia crianças com síndrome de Down. E todas elas trabalhavam com a mesma concentração que as outras crianças. Pareciam-me integradas nas tarefas escolares, como as crianças ditas “normais”. Perguntei ao diretor sobre o segredo daquele milagre. Ele me deu uma resposta curiosa. Não me citou teorias psicológicas sobre o assunto. Sugeriu-me ler um incidente do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Fazia muitos anos que eu lera aquele livro. E eu o lera como literatura do absurdo, coisa para crianças.
Alice, seduzida por um coelho que carregava um relógio, seguiu-o dentro de um buraco que, sem que ela disso suspeitasse, era a entrada de um mundo fantástico. De repente, ela se viu dentro de um mundo completamente desconhecido e maluco, com o chapeleiro e o gato que ria.
No incidente que nos interessa, encontramos Alice e seus amigos completamente molhados -haviam caído dentro de um tanque. Agora, tinham um problema comum a resolver: ficar secos. O que fazer?
A turma da Alice, que era formado pelo pássaro Dodô -esse pássaro existiu de verdade, mas foi extinto-, um rato, um caranguejo, uma marmota, um pombo, uma coruja, uma arara, um pato, um macaco, todos diferentes, cada um do jeito como seu corpo determinava, todos eles pensando numa coisa só: o que fazer para ficar secos.
O pássaro Dodô sugeriu uma corrida. Correndo o corpo esquenta e fica seco. Mas Alice queria saber das regras. O pássaro Dodô explicou:
“Primeiro marca-se o caminho da corrida, num tipo de círculo (a forma exata não tem importância), e então os participantes são todos colocados em lugares diferentes, ao longo do caminho, aqui e ali. Não tem nada de ‘”um, dois, três, já’. Eles começam a correr quando lhes apetece e abandonam a corrida quando querem, o que torna difícil dizer quando a corrida termina.”
Notem a desordem: um círculo de forma inexata, os participantes são colocados em lugares diferentes, aqui e ali, e não tem “um, dois, três, já”, começam a correr quando lhes apetece e abandonam a corrida quando querem.
Assim, a corrida começou. Cada um corria do jeito que sabia: pra frente, pra trás, pros lados, aos pulinhos, em zigue-zague… Depois que haviam corrido por mais ou menos meia hora, o pássaro Dodô gritou: “A corrida terminou!” Todos se reuniram ao redor do Dodô e perguntaram: “Quem ganhou?”. “Todos ganharam”, disse Dodô. “E todos devem ganhar prêmios.”
Acho que o Lewis Carroll estava expondo, de forma humorística, as suas ideias para a reforma dos currículos da Universidade de Oxford, ideias essas que ele não tinha coragem de tornar públicas, por medo de perder seu lugar de professor de matemática.
“Curriculum”, no latim, quer dizer “corrida”, “lugar onde se corre”. Uma corrida, para fazer sentido, tem de ser entre iguais, não faz sentido por araras, ratos e caranguejos correndo juntos. Não faz sentido colocar os “diferentes” a correr junto com os “iguais” Aquilo a que se dá o nome de integração em nossas escolas é colocar as “pessoas com deficiência” correndo a mesma corrida dos chamados de “normais”. Nessa corrida, os “deficientes” estão condenados a perder. A corrida do pássaro Dodô é diferente: cada um corre do jeito que sabe e pode, todos ganham e todos recebem prêmios…
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domingo, 18 de abril de 2010.
Débora Paiva Costa – Miau.
Telhado da Miau.
Foi apenas uma ida ao médico, mas quando retornei em casa, senti como se estivesse voltando da musculação.
eu, juntamente com meu namorido, namo de namorado e rido de marido, porque todo namorado que se prese deve ter um quê protetor de marido, e todo marido um quê romântico de namorado, e o meu no caso tem ambas as coisas. Então, como ia dizendo, ao descermos do 679 na Dias da Cruz, ambos devidamente armados de suas respectivas bengalas, fomos andando a fim de encontrarmos o prédio do consultório médico.
Andar de cego bengalante é aquela coisa mesmo, as vezes bengala-se e a multidão vai abrindo espaço para que passemos, as vezes a aglomeração resolve testar o cego e temos que ir superando os obstáculos humanos, dando bengaladas em pernas, esbarrões em barrigas, esfregadinhas em braços, em fim.
hoje A multidão estava com o espírito positivamente receptivo, abrindo espaço para que passássemos sossegadamente. A sim, porque as vezes a multidão está com o espírito negativamente receptivo, quando ao andar o sujeito não só não sai de nossa frente, como resolve andar em nossa direção, e claro, leva uma trombada. Aliás, hoje, estava tudo muito bom para se bengalar por aí. E digo isso não só na avenida mencionada a cima, mas também em nosso próprio condomínio, que recebemos várias boas tardes ao atravessar os portões. É incrível, mas as vezes penso que os vizinhos acham que como somos cegos não precisamos receber um bom dia, ou boa tarde etc. Eu quando percebo alguém, trato logo de dar os respectivos bons dias ou boas tardes, quer seja para não me frustrar pensando que a pessoa só não me cumprimentou porque sou cega, quer seja para impressionar o cidadão ao mostrar que cego não só dá bom dia, boa tarde e boa noite, mas também pode perceber a presença de outras pessoas. Isso para eles deve ser algo do além.
Mas, voltando a dias da cruz…. Fomos bengalando e os caminhos foram se abrindo, parecia até um trabalho esotérico, daqueles que fazemos para que o caminho seja aberto, sabe? Pois é.. e ao chegar ao prédio.. Devo informar que esse prédio tem uma escada que conduz para baixo. A maioria dos prédios que tem escadas na frente, geralmente levam para cima. Mas este não, essa escada em particular, levava para baixo. Nós já conhecíamos o lugar e fomos, ou melhor, tentamos ir descer a dita cuja.
Devo confessar que depois dessa experiência, nunca mais entrarei nesse prédio como se eu conhecesse. Eu juro! Não não.. melhor mesmo é parar na porta, encenar que estou tentando achar a entrada e esperar ajuda. Porque o que se seguiu foi o seguinte: ao descermos o primeiro degrau da escada, surgiu misteriosamente do meu lado uma moça e agarrou o meu braço, ao mesmo tempo que se materializou do lado do meu namorido, um moço que também agarrou o braço dele. Será uma encenação? Seriam entidades do bem tentando nos emitir uma mensagem do pós vida? Pensei, mas imediatamente percebi que não se tratava de nem uma cena de novela meticulosamente ensaiada e nem de almas penadas e sim de duas pessoas apavoradas com a possibilidade do casal de cegos rolar escada abaixo.
Na verdade, não sei se estavam mesmo preocupados, porque a dita ajuda saiu pior do que qualquer coisa. A moça simplesmente ao agarrar meu braço gritava dizendo que era uma escada, onde respondemos que sabíamos e que iríamos descer. Aí o moço falou que não.. não iríamos descer não, porque tinha um elevador ao lado que nos conduziria para baixo. Sim, o elevador é verídico. tem um elevadorzinho ao lado da escada que conduz para baixo, mas acho que tal é usado para transporte de cargas pesadas. Nem para deficiente físico é, porque ele já existe ali há muito tempo. Apesar de achar que hoje ele se presta a tal objetivo também. Mas nós, que já experimentamos o tal elevador em uma outra situação, porque eu sou teimosamente curiosa, informamos que não iríamos pegar aquele elevador e iríamos sim, descer de escada. O elevador é extremamente vagaroso.
Bem…. vencidos por nossa recusa ao pegar o tal elevador, o casal resolveu nos ajudar. A moça além de agarrar firmemente meu braço, ia puxando para cima, como se a escada fosse para subir. O moço abraçou meu namorido pela cintura, como se fosse tirá-lo para dançar ao mesmo tempo que pedia calma, no que meu cônjuge respondia estar calmíssimo… e tudo foi tão rápido! Na mesma hora que eu tentava explicar que não era assim que se guiava um cego, meu namorido tentava se desvencilhar do abraço do moço, enquanto os dois por sua vez só pioravam, e muito, a performance. A moça agora não só erguia meu braço enquanto ao descer minhas pernas me conduziam para baixo, mas também puxava para frente fazendo com que eu dobrasse meu corpo, e o moço além de manter firmemente o braço em torno da cintura do meu marido, colocava a bengala dele nos degraus.
Oh Deus, pensei, isso não acaba? Mas não, eu então tive que falar mais alto para a moça, enquanto meu marido se defendia lá do jeito dele contra a “ajuda” do moço. Por um momento pensei que iria voar, que eles realmente eram entidades do além querendo não nos dar uma mensagem do pós vida, mas sim nos levar voando com eles sabe-se lá para onde. Agora, vocês imaginem isso tudo acontecendo na descida de uma escada.
Bem, depois de ajudas, erguidas de braços, extensões musculares, apertões, dobradas de corpos, abraços apertados, conseguimos, sabe-se deus como, chegar lá embaixo, onde realmente precisaríamos de ajuda para acharmos o elevador que conduziria aos andares do prédio. Só que quando chegamos lá em baixo, eu já estava arrancando a mão da moça do meu braço e falando rispidamente a ela que essa não era a forma certa de se conduzir um cego e peguei no braço dela para mostrar a forma correta. Não senti mais a presença do moço, mas a moça disse um obrigada e… foi embora e nós, claro, fomos procurar o elevador sozinhos.
No consultório foi tudo tranqüilo, mas ao retornarmos para a casa… escada de novo, ok, dessa vez veio um outro moço nos guiando, mas sem nos tocar. Veio do nosso lado falando. acho que ele deve ter assistido a cena anterior, sei lá, mas também não fez o correto, não é? Mas a subida é sempre mais tranqüila.
Ao chegarmos na calçada, veio um guarda que designou um pedestre para nos ajudar a atravessar a rua. O ajudante pegou no meu braço, no que na mesma hora eu tirei e peguei no dele. Aí ele tirou e pegou no meu, aí eu tirei e peguei no dele, aí ele tirou e pegou no meu e eu pensei: não pai.. por favor! Me ajude! Juntando toda paciência possível expliquei a ele que eu que tinha que pegar no braço ele, e não ele no meu. Ele nos perguntou se gostaríamos de atravessar a rua, e falamos que sim. Aí ele perguntou para onde iríamos e eu disse que iríamos para o outro lado da rua. Ficamos esperando o sinal fechar e ele perguntou se iríamos pegar ônibus do outro lado. Respondemos que sim. Ele perguntou qual e informamos que seria o 679. Então ele falou que deveríamos pegar desse lado mesmo, que não precisaríamos atravessar. Informamos, com toda a calma do mundo, que iríamos pegar o 679 voltando da penha, e não indo. Então ele concordou conosco. Bem, finalmente atravessamos.
Devo informar que eu estava segurando no braço do moço e meu namorido no meu braço, logo, eu estava no meio. Ao atravessar a rua, o ponto do 679 ficava a direita, mas o moço achou que era a esquerda e aí eu me senti a mulher elástico. Meu namorido me puxava para um lado e o moço vendo que eu soltara o braço dele, resolveu pegar e me puxar para a esquerda, enquanto gritava que se fôssemos para a direita, iríamos para a penha. Mmeu namorido já pra lá de bravo, mandava eu soltar o moço, como se eu estivesse mesmo segurando aquele infeliz! E eles puxavam… e eu me esticava.. e eles puxavam…e eu me esticava. Oh deus, haja alongamento! Foi então que tive a absoluta certeza que o episódio vivido há poucas horas atrás com o casal da escada fora apenas um aquecimento para o verdadeiro exercício de alongamento. E o pior de tudo foi que meu namorido estava ficando bravo, pensando que eu estava duvidando que o ponto do ônibus era a direita.
Ora bolas! Eu não podia nem responder, porque:
1. estava sendo puxada em sentidos opostos;
2. o homem gritava que era para a esquerda, enquanto meu namorido esbravejava que era a direita e
3. quando eu fico nervosa começo a rir desesperadamente, o que infelizmente, foi o caso.
Quando finalmente o homem me libertou de supetão, quase levei um tombo, pois meu namorido, muito bravo, diga-se de passagem, estava me puxando. Então… imaginem a cena novamente! Aí realmente eu tive mais do que certeza que os exercícios de musculação e alongamento haviam terminado e agora eu estava na fase de testar o equilíbrio, tanto físico para não cair, como emocional, para me controlar e não brigar com meu namorido. Ele estava bem nervoso! E não era para menos, porque claro, cego como ele é, não via que eu soltara o braço do homem e ele sim, havia segurado meu braço e estava me puxando.
Aí eu pergunto: como explicar essa situação para um namorido nervoso no meio da rua? Fiquei quietinha e acho que só agora, lendo esse texto, ele pode compreender que eu não estava agarrando o braço do homem e sim ele, o homem, que estava me puxando. Ora se tem cabimento eu agarrar o braço de um homem qualquer e ir para o lado oposto do meu chuchu, amado, venerado, bebezão roncador namorido!
Ppara completar, ao chegar em casa ele ficou me dizendo por várias e várias vezes, que amanhã, ao sair, na hora que eu fosse atravessar a presidente Vargas, deveria ir para a direita, e não para a esquerda. Que se por acaso viesse alguém me levando para a esquerda, não era para eu ir não, pois o lugar que eu irei amanhã é para a direita… e ficou dizendo, direita, viu.. ouviu, né? Não vai não, porque você acredita em todo mundo da rua e a pessoa vai te levar para o caminho errado e você vai ficar perdida, e você não vai conseguir achar o lugar e… É mole? oh deus, pensei, vou dormir!
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009.
Minha primeira experiência tátil em museus após ter adquirido cegueira em 1978, com 21 anos de idade, foi no museu da Pinacoteca de São Paulo. Em toda a minha vida fui apreciador da arte e, mesmo desde muito novo, lia sobre história da arte, visitava museus e suas obras através de livros e presencialmente, comprava reproduções de telas de grandes artistas, como Van Gogh, Renoir e outros, visitava galerias de arte e me sentia muito bem contemplando algumas obras, imaginando seus autores e os ambientes onde eram produzidas.
Certa vez, aos 20 anos, sonhei que as mulheres de todas as obras que haviam reproduzidas nas paredes de meu quarto, saíam e vinham estar comigo para conversar, tornando-se verdadeiras.
Perdi a visão e, como muitas outras coisas, perdi o acesso as telas, esculturas, das quais “O Pensador” e especialmente “O Beijo”, de Rodin, permaneceram na estrada de minhas lembranças. Também nas telas, mas nas dos cinemas, Bergman, Visconti, Zefirelli coloriram a estética e simbolismos de minhas perdas.
Quando entrei na Pinacoteca de São Paulo, em um final de ano de 2003, com minha esposa, filho e sogro, conduzido pelo artista plástico Alfonso Ballestero e rodeado por Amanda Tojal fui pego de surpresa em meio de tanta emoção.
A primeira escultura que toquei foi de Moema. Enquanto Alfonso nos fotografava, Amanda me observava e eu, muito sem graça, fiquei me perguntando se estava tocando naquilo que pensava estar tocando na frente de minha família, de Amanda, que era uma pessoa que estava conhecendo naquele momento. Ninguém ainda havia me dito que era a escultura de Moema, apenas deixaram que eu me aproximasse e tocasse na primeira coisa que me aparecesse à frente. Era tão sensual o que tocava e tão bom de tocar, que fiquei sem graça de dizer-lhes o que achava que estava tocando. Eram as nádegas de Moema, para mim simplesmente a bunda, da estátua nua e morta na praia.
O detalhe de estar morta não foi exatamente o que me chamou a atenção, mas eu estava tocando numa bunda muito sensual, como poderia ser, de algo feito de pedra! Uma bunda! Todos me observavam quando Amanda me perguntou: o que você está tocando? Alfonso tirando fotos e eu me perguntando se eu poderia pesquisar mais os detalhes da obra… com um sorriso sem graça, respondi: – É muito sensual…, Amanda, totalmente descontraída, me incentivou: “Pode tocar mais, toca em tudo”.
A essa altura notei que minha família se dispersara vendo outras obras e eu, com a mão na bunda, digo, na bunda dela, da Moema, a escultura, perdi a vergonha e lasquei: “mas isso é uma bunda!”. Amanda sorriu e disse para eu continuar tocando. Eu, todo oferecido, lancei-me à ordem, passando pelas coxas que sumiam até aparecer, um pouco além, as batatas da perna de Moema e, só depois, o calcanhar. Percebi que ela estava de lado e que partes do seu corpo não apareciam… fui mas fundo em meu toque, mas fundo, claro, não na pedra, mas na atenção à obra.
Compreendi então que, para o corpo ficar com aquela forma, só poderia estar parcialmente enterrado. Aos poucos, fui montando os pedaços do que estava tocando e percebi, na lateral, que havia dois níveis daquela estátua deitada. Uma pequena onda na pedra me revelou que aquilo deveria ser água e mais abaixo… areia! Abrindo os braços e tocando, ou tentando tocar em tudo para “ver” além de pedaços, soube então que era Moema, morta, na beira do mar, onde a água e areia tinham quase o mesmo nível e minha emoção foi me tomando, um arrepio subiu-me pela coluna, um nó se fez na garganta, senti um sei lá o quê de felicidade: a arte da escultura estava novamente possível em minha vida!
Como se não bastasse, seguimos em nossa caminhada histórica, emocionada e tátil de minha visita. Toquei em várias esculturas, devidamente contextualizadas por Amanda que, além de me contar da época e autores das esculturas, pedia-me sempre para ler, em Braille, algo sobre as esculturas sempre disponível perto das mesmas. Até que… chegamos às telas. E agora Tojal? Drummond pensou em José, pensei na Amanda: não vou tocar numa tela de Djanira, vou? Eu que sou sem nome, que zombo dos outros, e agora? Diante da tela “O Mestiço enrolando um cigarro de palha”, lembrei-me que já conhecera aquela tela e recordava-me do mestiço sentado numa banqueta, com um casebre de pau-a-pique por trás, acho que tinha uma palmeira, uma árvore por perto, não? Com certeza o mestiço enrolava um cigarro de palha.
Ainda desencavando minhas lembranças sobre aquela obra, chegou-me às mãos uma tela pequena, cheia de pontos em relevo. Eu a fui tocando, tocando, senti as mãos enrolando um cigarro de palha… caramba, era a reprodução da obra em duas dimensões! Fui tocando mais e mais… duas coisas redondas perto do peito e rosto do mestiço, dedos grandes logo abaixo delas. Meu deus! (sou ateu). Eram os joelhos que, de quem via de frente, digo, tateava de frente, eram duas bolas, onde as canelas sumiam, dando lugar aos pés, pois ele estava agachado. Para cima, a barriga sumia atrás dos joelhos, para aparecer o peito e os braços contornando tudo isso… enrolando um cigarro de palha! Mas será que era assim mesmo?
Eram tantas bolinhas juntas, nunca fui tão bom assim de tato. Será que eu estava vendo? Seria muita pretensão desse artista totalmente cego, como se pudesse haver alguma parcialidade nisso, que vos escreve. Foi aí que, então, me chegou às mãos, novamente, a tela, que agora não era mais tela, mas um cenário em três dimensões, do bonequinho sentado, enrolando seu cigarro de palha, com a casa de pau-a-pique por trás, o chão de terra, a roça inteira! Realmente, emocionado, eu estava definitivamente vendo.
O mesmo aconteceu, 5 anos depois, com o cinema. Lara Pozzobon, curadora do Festival Internacional de Filmes sobre Deficiências, convidou-me para ser jurado, possivelmente o primeiro jurado cego de um festival de cinema internacional, o Assim Vivemos, no Centro Cultural Banco do Brasil. A audiodescrição, feita por Graciela Pozzobon, que é a descrição das imagens das telas de cinema e televisão, deu-me de volta outra arte. Mas a audiodescrição é outra história que ainda vou contar.
Só sei que estou vivendo o futuro que muitos cegos imaginaram. Ainda pouco, ainda mínimo, mas que é o início da oportunidade igual para todos, a verdadeira razão de ser do desenho universal, a acessibilidade pensada, trabalhada, desenvolvida por pessoas que estão além de todas as dimensões, que são, em si, a própria arte.
Obrigado a todas as Amandas, Alfonsos, Laras e Gracielas, por me mostrarem um futuro de percepções táteis, de igualdades para minha diferença que também é a de tantos. A arte está em nossas mãos!
Marco Antonio de Queiroz – MAQ.
Conheça o trabalho da Pinacoteca de São Paulo.
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