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domingo, 16 de agosto de 2009.
Pessoas com Deficiência e Relacionamentos Dependentes.
No dia 16 de agosto, o programa Assim Vivemos da TV Brasil apresentou o filme “Até que a Morte Nos Separe”, de Maciej Adamek (Polônia, 24 min. 1999), e cuja sinopse era: “Franek e Andrzej se conheceram ainda pequenos, quando estudavam em uma escola para crianças especiais. Um deles tem deficiência física, efeito de paralisia cerebral, e o outro, deficiência intelectual. Define Andrzej: “Eu sou o seu cérebro e ele as minhas mãos”, apresentando-nos essa extraordinária amizade que começou na escola e pela qual tiveram de lutar, já que o Estado Polonês não aceitou facilmente que os dois juntos pudessem conquistar sua total autonomia.
Entrevistei Lêda Lucia Spelta, psicóloga clínica e pessoa cega no chat do programa e, devido à relevância do tema e ao interesse geral, estou reproduzindo abaixo a entrevista:
Entrevistada: Lêda Lúcia Spelta.
Entrevistador: Marco Antonio de Queiroz – MAQ.
Lêda, como pessoa cega e psicóloga clínica, já teve experiências de desconfiança de clientes a respeito de sua competência devido à sua deficiência?
R.: Nunca ouvi isso diretamente. Como acontece com todos os terapeutas, algumas pessoas vêm fazer a primeira entrevista e não voltam. Isso se deve a vários motivos, a maioria deles ligados ao imaginário; por exemplo, elas podem achar que o terapeuta não é confiável por ser jovem demais, velho demais, negro, judeu, etc. É aí que entra a cegueira, como uma das características que servem para a pessoa projetar valores negativos. Mas, felizmente, também servem para projetar os valores positivos, pois há pessoas que ficaram em terapia comigo justamente porque sou cega, do mesmo modo que ficam com outros terapeutas porque são jovens, velhos, homens, mulheres, etc.
Faz parte do trabalho do terapeuta saber identificar o que é dele e o que é projeção do outro e devolver ao outro o que é seu, sem ficar se sentindo o máximo sempre que for elogiado ou arrasado se for rejeitado.
No caso dos meus clientes, mais cedo ou mais tarde acabamos sempre descobrindo os motivos simbólicos pelos quais ele acabou escolhendo uma pessoa cega como terapeuta.
Por outro lado, já sofri preconceito por parte de profissionais que trabalham nas instituições de cegos. Quando cursava a faculdade, tentei estagiar em duas dessas instituições, mas as portas só estavam abertas para mim como cliente, não como profissional. Porém, como sou teimosa, acabei conseguindo trabalhar num pequeno centro de reabilitação, onde creio que realizei o trabalho mais interessante da minha vida.
Nosso filme “Até que a Morte nos Separe”, mostrou duas pessoas com deficiência em uma relação de interdependência. Como você percebeu essa relação?
R.: Eu gostaria de abordar 2 aspectos desta relação: o da interdependência e o da simbiose. Estou chamando de interdependência aos aspectos objetivos da dependência, neste caso devidos principalmente às duas deficiências; e estou chamando de simbiose aos aspectos subjetivos da relação, nem sempre conscientes, onde as pessoas sentem como se formassem um ser único e que não sobreviverão a uma separação.
A simbiose não decorre necessariamente da deficiência e é mais comum do que se imagina; por exemplo, quase todos nós conhecemos alguém que não conseguiu recuperar a sua vida normal após a perda de um ente querido ou após se separar do cônjuge.
O que acontece neste filme é que ficamos tão impactados com as peculiaridades desta situação incomum de relação entre duas pessoas com deficiência, que tendemos a creditar todas as dificuldades à deficiência e desconsiderar os problemas de encaixe de personalidade que existem em quaisquer relações pessoais mais íntimas.
De modo geral, creio que tendemos a atribuir coisas demais à deficiência. Por exemplo, se uma pessoa com deficiência é muito acomodada, é por causa da deficiência; se, pelo contrário, é muito ativa, também é por causa da deficiência.
Este filme deixa em nós uma saudável interrogação sobre até que ponto a dependência de cada um dos rapazes se deve à sua deficiência. A tendência natural da nossa mente é a de formular uma resposta – que sim ou que não – e se convencer de que esta é a única verdade. Creio que a postura mais promissora é a de suportar esta interrogação e abrir a mente para todas as possibilidades.
Lêda, o filme também mostra que uma parte frágil dessa relação é o possível aparecimento de um namoro ou casamento de um dos integrantes dessa relação. Que pensa a respeito disso?
R.: penso que, se isso acontecer, eles irão sofrer muito mais por causa da simbiose do que da deficiência. Me explico: existem muitas pessoas que, ao se casarem, levam para morar consigo a mãe que sofre de alguma doença, o irmão que tem uma deficiência, etc. Mas a gente percebe que os rapazes do filme encaram essa possibilidade como uma ameaça. Creio que isso se deve menos aos aspectos objetivos da deficiência e mais à simbiose.
Não estou negando a interdependência e a complementaridade objetiva que se formou por causa das deficiências. Mas é a simbiose, não a deficiência, que os leva a crer que esta forma de relação que eles têm hoje é a única ou que é a melhor possível, até que a morte os separe!
Boa parte das pessoas com deficiência mantém uma relação de dependência com algum familiar. Algumas mesmo sem possuírem uma dependência real. Como conseguir perceber a diferença entre a dependência real e a imaginária nessas relações?
R.: Em primeiro lugar, é preciso que as pessoas – ou ao menos uma delas – queiram perceber o que está acontecendo com elas. Não conheço ninguém que se proponha a fazer isso sem um bom motivo, porque esta percepção pode ser muito dolorosa. Geralmente isso ocorre quando uma das partes está muito insatisfeita e deseja mudar radicalmente a forma de relação, ou até mesmo rompê-la. Parece até que estou falando exclusivamente de um casamento; porém, tratando-se ou não de uma relação conjugal, as bases psicológicas são as mesmas.
Às vezes é fácil para um observador externo perceber esta diferença. Quando era criança, eu tinha uma tia professora que costumava fazer este papel. Ela dizia, por exemplo, para a minha mãe: por que a Lêda Lucia não pode pegar ela mesma a sua toalha de banho e a sua roupa, em vez de ficar gritando de dentro do banheiro que já acabou o banho?
Noutros casos, porém, isso pode ser muito difícil. Quando ainda estava na faculdade, conheci um jovem cego que havia sido tão superprotegido pela mãe e pela avó, que nunca fui capaz de descobrir se suas dificuldades intelectuais e sociais eram congênitas ou adquiridas.
Em muitos casos, é só experimentando que a gente consegue saber até onde cada um de nós é capaz!
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