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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009.
As Nádegas que me Levaram à Arte.
Minha primeira experiência tátil em museus após ter adquirido cegueira em 1978, com 21 anos de idade, foi no museu da Pinacoteca de São Paulo. Em toda a minha vida fui apreciador da arte e, mesmo desde muito novo, lia sobre história da arte, visitava museus e suas obras através de livros e presencialmente, comprava reproduções de telas de grandes artistas, como Van Gogh, Renoir e outros, visitava galerias de arte e me sentia muito bem contemplando algumas obras, imaginando seus autores e os ambientes onde eram produzidas.
Certa vez, aos 20 anos, sonhei que as mulheres de todas as obras que haviam reproduzidas nas paredes de meu quarto, saíam e vinham estar comigo para conversar, tornando-se verdadeiras.
Perdi a visão e, como muitas outras coisas, perdi o acesso as telas, esculturas, das quais “O Pensador” e especialmente “O Beijo”, de Rodin, permaneceram na estrada de minhas lembranças. Também nas telas, mas nas dos cinemas, Bergman, Visconti, Zefirelli coloriram a estética e simbolismos de minhas perdas.
Quando entrei na Pinacoteca de São Paulo, em um final de ano de 2003, com minha esposa, filho e sogro, conduzido pelo artista plástico Alfonso Ballestero e rodeado por Amanda Tojal fui pego de surpresa em meio de tanta emoção.
A primeira escultura que toquei foi de Moema. Enquanto Alfonso nos fotografava, Amanda me observava e eu, muito sem graça, fiquei me perguntando se estava tocando naquilo que pensava estar tocando na frente de minha família, de Amanda, que era uma pessoa que estava conhecendo naquele momento. Ninguém ainda havia me dito que era a escultura de Moema, apenas deixaram que eu me aproximasse e tocasse na primeira coisa que me aparecesse à frente. Era tão sensual o que tocava e tão bom de tocar, que fiquei sem graça de dizer-lhes o que achava que estava tocando. Eram as nádegas de Moema, para mim simplesmente a bunda, da estátua nua e morta na praia.
O detalhe de estar morta não foi exatamente o que me chamou a atenção, mas eu estava tocando numa bunda muito sensual, como poderia ser, de algo feito de pedra! Uma bunda! Todos me observavam quando Amanda me perguntou: o que você está tocando? Alfonso tirando fotos e eu me perguntando se eu poderia pesquisar mais os detalhes da obra… com um sorriso sem graça, respondi: – É muito sensual…, Amanda, totalmente descontraída, me incentivou: “Pode tocar mais, toca em tudo”.
A essa altura notei que minha família se dispersara vendo outras obras e eu, com a mão na bunda, digo, na bunda dela, da Moema, a escultura, perdi a vergonha e lasquei: “mas isso é uma bunda!”. Amanda sorriu e disse para eu continuar tocando. Eu, todo oferecido, lancei-me à ordem, passando pelas coxas que sumiam até aparecer, um pouco além, as batatas da perna de Moema e, só depois, o calcanhar. Percebi que ela estava de lado e que partes do seu corpo não apareciam… fui mas fundo em meu toque, mas fundo, claro, não na pedra, mas na atenção à obra.
Compreendi então que, para o corpo ficar com aquela forma, só poderia estar parcialmente enterrado. Aos poucos, fui montando os pedaços do que estava tocando e percebi, na lateral, que havia dois níveis daquela estátua deitada. Uma pequena onda na pedra me revelou que aquilo deveria ser água e mais abaixo… areia! Abrindo os braços e tocando, ou tentando tocar em tudo para “ver” além de pedaços, soube então que era Moema, morta, na beira do mar, onde a água e areia tinham quase o mesmo nível e minha emoção foi me tomando, um arrepio subiu-me pela coluna, um nó se fez na garganta, senti um sei lá o quê de felicidade: a arte da escultura estava novamente possível em minha vida!
Como se não bastasse, seguimos em nossa caminhada histórica, emocionada e tátil de minha visita. Toquei em várias esculturas, devidamente contextualizadas por Amanda que, além de me contar da época e autores das esculturas, pedia-me sempre para ler, em Braille, algo sobre as esculturas sempre disponível perto das mesmas. Até que… chegamos às telas. E agora Tojal? Drummond pensou em José, pensei na Amanda: não vou tocar numa tela de Djanira, vou? Eu que sou sem nome, que zombo dos outros, e agora? Diante da tela “O Mestiço enrolando um cigarro de palha”, lembrei-me que já conhecera aquela tela e recordava-me do mestiço sentado numa banqueta, com um casebre de pau-a-pique por trás, acho que tinha uma palmeira, uma árvore por perto, não? Com certeza o mestiço enrolava um cigarro de palha.
Ainda desencavando minhas lembranças sobre aquela obra, chegou-me às mãos uma tela pequena, cheia de pontos em relevo. Eu a fui tocando, tocando, senti as mãos enrolando um cigarro de palha… caramba, era a reprodução da obra em duas dimensões! Fui tocando mais e mais… duas coisas redondas perto do peito e rosto do mestiço, dedos grandes logo abaixo delas. Meu deus! (sou ateu). Eram os joelhos que, de quem via de frente, digo, tateava de frente, eram duas bolas, onde as canelas sumiam, dando lugar aos pés, pois ele estava agachado. Para cima, a barriga sumia atrás dos joelhos, para aparecer o peito e os braços contornando tudo isso… enrolando um cigarro de palha! Mas será que era assim mesmo?
Eram tantas bolinhas juntas, nunca fui tão bom assim de tato. Será que eu estava vendo? Seria muita pretensão desse artista totalmente cego, como se pudesse haver alguma parcialidade nisso, que vos escreve. Foi aí que, então, me chegou às mãos, novamente, a tela, que agora não era mais tela, mas um cenário em três dimensões, do bonequinho sentado, enrolando seu cigarro de palha, com a casa de pau-a-pique por trás, o chão de terra, a roça inteira! Realmente, emocionado, eu estava definitivamente vendo.
O mesmo aconteceu, 5 anos depois, com o cinema. Lara Pozzobon, curadora do Festival Internacional de Filmes sobre Deficiências, convidou-me para ser jurado, possivelmente o primeiro jurado cego de um festival de cinema internacional, o Assim Vivemos, no Centro Cultural Banco do Brasil. A audiodescrição, feita por Graciela Pozzobon, que é a descrição das imagens das telas de cinema e televisão, deu-me de volta outra arte. Mas a audiodescrição é outra história que ainda vou contar.
Só sei que estou vivendo o futuro que muitos cegos imaginaram. Ainda pouco, ainda mínimo, mas que é o início da oportunidade igual para todos, a verdadeira razão de ser do desenho universal, a acessibilidade pensada, trabalhada, desenvolvida por pessoas que estão além de todas as dimensões, que são, em si, a própria arte.
Obrigado a todas as Amandas, Alfonsos, Laras e Gracielas, por me mostrarem um futuro de percepções táteis, de igualdades para minha diferença que também é a de tantos. A arte está em nossas mãos!
Marco Antonio de Queiroz – MAQ.
Conheça o trabalho da Pinacoteca de São Paulo.
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Comentário de: Rogério Nipote — 28 de julho de 2009 às 14:54
É emocionante a percepção de seu relato.
Compreendo bem o que diz quando sente aquilo que não vê.
Possuo uma limitação grande na minha visão, mas nem de perto a escuridão.
Tenho lutado profundamente na inclusão de cotas das empresas.
Até a parceria de uma empresas que contrata os agentes deficientes, para trabalharem em casa, sendo os mesmos contratados pelas empresas.
Mas como disse, há um rio Amazonas entre a prática e a teoria.
Comentário de: MAQ — 24 de agosto de 2009 às 22:51
Oi Rogério.
Quem escreveu “Um rio Amazonas entre a teoria e a prática” não fui eu, esse é um título de um texto que um amigo meu escreveu, mas compreendo perfeitamente o que disse. Obrigado por participar e fico muito feliz que o que escrevi tenha te tocado.
Abraços inclusivos do MAQ.
Comentário de: Amanda Tojal — 26 de agosto de 2009 às 23:19
Meu querido amigo MAQ! Pasme você mas foi somente hoje com a ajuda de meu amigo Alfonso que tive o prazer e a emoção de ler o seu relato daquele nosso encontro “iluminado” na Pinacoteca! Estou feliz de poder saber que a sua experiência foi tão significativa e mais feliz ainda pois tenho um depoimento que vai com certeza reafirmar a importância de um trabalho inclusivo como esse que desenvolvemos no museu!
A questão da sensualidade que as obras de arte podem aflorar nas pessoas cegas é outro fator importante para o desenvolvimento da percepção dos sentimentos, emoções e interpretações que devem ocorrer em todas as pessoas que usufruem da arte e porque não daquelas que usufruirão da arte através do sentido do tato!
Gostaria muito que você retornasse ao nosso museu, pois hoje, graças ao apoio de pessoas como você, implantamos a Galeira Tátil de Esculturas Brasileiras, primeira no gênero no Brasil com obras originais de um acervo permanente de um museu! As suas obras preferidas estão lá, pois privilegiamos as obras mais queridas dos visitantes cegos que frequentaram a Pinacoteca desde a implantação do PEPE!
Agora qualquer pessoa que não enxerga poderá usufruir desse espaço expositivo sem precisar do acompanhamento dos educadores tendo como apoio um áudioguia ou um guia tátil em dupla leitura. O percurso contendo 12 esculturas é também orientado por um piso podotátil e na saída ele levará um catálogo em dupla leitura com áudiocd para quem não lê o braille.
Continuamos aqui a o seu dispor e se quiser peça-me um exemplar do catálogo que te enviarei pelo correio.
A sua avaliação será sempre muito valiosa para nós, além de nos estimular a continuar acreditando no nosso trabalho em favor da inclusão das pessoas cegas na arte e na cultura do nosso país!
Um grande beijo a você, na esposa, filha, sogro e sogra.
Vocês são todos muito queridos!
Beijos
Amanda e toda equipe do PEPE
Comentário de: MAQ — 27 de agosto de 2009 às 22:18
Oi Amanda, boa noite.
É muito bacana saber da permanencia e da evolução das acessibilidades no museu da Pinacoteca.
Com certeza, da próxima vez que estiver em São Paulo irei ao museu, mas não só por ele, que é tremendamente importante, mas pelos amigos que tenho em você e no Alfonso.
E, para todos que se preocupam com a inclusão das pessoas com deficiência, o Festival Assim Vivemos, nesse ano, depois de sair do Rio para Brasília, chegará aí em São Paulo, caso não me engane, no próximo mês. Não deixe de assistir. Mesmo eu, que sou pessoa com deficiência e militante por nossa inclusão, aprendo bastante assistindo como vivem os colegas em outros países, com outras deficiências que não somente a minha (cegueira). Todos os filmes com Closed caption e audiodescrição.
Abraços bem abraçados do MAQ.
Comentário de: Gisele A.B. Niero — 1 de outubro de 2009 às 6:34
Oi MAQ é com imenso prazer que estou conhecendo seu blog e um pouco mais de uma pessoa a qual a professora, Bell Machado, do curso de audiodescrição fala tão bem. Ela nos levou o texto “as nádegas que me levaram a arte”. Muito legal seu texto e emocionante também principalmente quando você relata que a arte da escultura estava de volta em sua vida.
Comentário de: Marisa Baptistina dos Santos Oliveira — 1 de outubro de 2009 às 21:17
Caro Maq foi bom demais ouvir a nossa fessora Bell ler você pra nós. Você com seu texto me remeteu à Italia e eu me vi diante de Davi de Michelangelo. Pena ele ser tão alto, senão…
Todas aquelas estátuas maravilhosas, perfeitas, sei lá…A arte não é só para olhos do corpo, mas da alma. Através do conhecimento da audiodescrição a nossa fessora Bell nos lançou num universo paralelo que eu estou amando conhecer, pela delicadeza e sensibilidade. Foi um prazer voces aparecerem em meu caminho.
Comentário de: MAQ — 2 de outubro de 2009 às 16:59
Oi Gisele e Marisa!
Sou eu quem agradece a profa Bell por toda essa propaganda de minha pessoa! Mais que isso, pela divulgação que faz da audiodescrição, recurso de acessibilidade tão necessário a todos nós, pessoas com deficiência visual e intelectual. Grato também pelo interesse de vocês!!
Abraços plenos de audiodescrição do MAQ.
Comentário de: Clovis Rodrigues Pereira — 28 de julho de 2010 às 20:58
Caro MAQ você não me conhece mas eu conheço você a 10 anos. Conheci o seu site e sempre gostei muito dele. Fazia tempo que eu não o acessava e hoje motivado por um impulso forte resolvi matar as saudades. Estou me inscrevendo num curso de Libras que a prefeitura de São Paulo esta oferecendo para os professores que tiverem interesse em trabalhar com educação especial, é um antigo desejo meu que agora eu quero realizar.
Eu me lembro que mandei uma vez uma pergunta sobre um assunto relacionado com a cegueira e você me mandou uma resposta muito atenciosa e gentil.
Parabéns pelo belo trabalho que você realiza e pela linda mensagem que você passa com o seu trabalho.