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domingo, 15 de março de 2009.
O Bafo de Belzebú.
Final de expediente… A bordo do elevador, desfaço a escalada da manhã e mergulho do 24 andar até o térreo, conforme me impõe a rotina dos ditos “dias úteis”…
Na portaria do prédio, me deparo com ela… sim é ela… inexpugnável, infalível, inexorável, a “estufa carioca”, confecionada pelo tradicional calor do janeiro da cidade. Caminho na rua da Ajuda e chego a esquina da Rio Branco, coração do RJ.
Ar parado… mormaço… gente suada caminhando apressada em todas as direções…
Ajudado por um pedestre, atravesso a trepidante avenida, centro nervoso da cidade q, num tempo relativamente remoto, chegou a ser considerado a “corte” da promissora nação tupiniquim. No outro lado da avenida, me dirijo ao metrô e, para isto, tenho que diblar colunas e colunas de camelôs que, num alarido infernal, anunciam a todos pulmões uma variedade de produtos.
Implacável, absoluto, o “astro rei” sustenta seus raios inclementes sobre ruas, calçadas, bancas, prédios, automóveis, pedestres, como que querendo fazer de tudo uma grande mixórdia, para em seguida transformá-lo num cozido diabólico…
Nas dependências do metrô, numa temperatura um pouco mais amena, um solícito funcionário me encaminha até a roleta. Agora, uma educada e meiga funcionária faz a ponte comigo até a plataforma: o contato feminino — o suave perfume, a pele delicada do seu braço, a sonoridade da voz, acionam a usina instintiva da libido, e, o pensamento
devolve tudo em desejos, vontades, idéias… Sempre cortês, a guarda me embarca num trem e me vejo no ferro do centro de um vagão super lotado.
O trem retoma a marcha. O número de passageiros, excede em muito o limite racional do vagão; o ar condicionado se mostra insuficiente para a demanda e a “estufa” da rua se transporta para o vagão, transformando a agradável viagem diária numa anti-sala do inferno.
O trem para na estação da cinelândia, e, para nosso desespero, recolhe mais passageiros. Dispara rumo a Glória. reclamações, imprecações, lamentos se sucedem… O calor, como querendo abrir disputa com o trem, dispara na escala, envolvendo os aflitos passageiros num abraço dantesco.
Amassado contra o ferro central do vagão, procuro na medida do meu possível, resistir a mais aquela provação, procurando manter a calma. A aflição toma conta dos passageiros…
- Calor dos infernos! Isto é uma pouca vergonha, deixar o vagão encher deste jeito!
- Quando chegar na estação vou reclamar desta vergonha, pensa que a gente é “sardinha” pra andar enlatada!
- Coitadinho dele, passar por um sufoco deste! nem os pobres dos cegos eles respeitam!
O trem corre, o calor aumenta e o desespero dos passageiros acompanha proporcionalmente… No meu lugar, cada vez mais espremido contra o ferro, suado de ponta a cabeça, computo as estações que faltam e tento me desligar do pandemônio… Será que se eu fosse rico diriam: “nem os ricos dos cegos eles respeitam!”?
Gemidos, grunidos, lamúrias, ranger de dentes, palavrões de toda espécie. a atmosfera assume a forma da “caldeira” de Belzebú!
O trem para na Glória e vários passageiros tentam ingressar no abarrotado vagão, sendo prontamente repelidos a tapas, empurrões, safanões e similares… Retoma novamente sua marcha e avalio: Catete, Largo do Machado e, finalmente, minha estação. que o “arquiteto do universo” zele por mim ou no mínimo resolva a meu favor aquela equação tempo/espaço…
Calor, mal estar, angústia e o trem célere em sua marcha, como que em rumo ao inferno…
afirmam os crédulos sobre o diabo que, além de um alkimista contumaz, trata-se de um ser insaciável… e assim q o trem deixa a estação do Catete, um novo elemento se instala no explosivo vagão. Presença silenciosa, incolor, invisível, mas consistente, persistente. Personalizado numa fragancia fétida, infernal, addvinda quiçá dos
confins dos infernos. Como num passe de mágica, o vagão inteiro se queda em silêncio. Um silêncio indagativo, analítico, prescrutador, como que avaliando o elemento recém chegado.
No meu canto, suarento, pegajoso, praticamente atarrachado no ferro do vagão, desisto de tentar alguns exercícios de Ioga, há muito abandonados e reunindo o que ainda me restava de brio e garra , encaro de peito aberto, com respiração contida mais aquela provação, agora condicionada a emanações voláteis de fragância nunca antes conhecida….
O trem chegou e partiu da estação do Largo do Machado; a fedetina, agora estabilizada, continuava impregnando o vagão. Os passageiros, como em comunhão, continuavam em silêncio. E em silêncio ficaram até a próxima estação, que felizmente era a minha.
Sou recebido por um solícito guarda:
- Faala campeão, tudo firme?
- Tudo, graaaças a Deus!
- Escada rolante ou a outra?
- Tanto faz!
- Caramba, vc está pálido, passando mal?!
- Não, não! Tudo bem!
Já na saída da estação, deparo novamente com a implacável estufa. Entro na Marques de Abrantes, minha rua, que bom revê-la, apesar de angustiado, são e salvo…
Valdenito de Souza, o nacionalista místico.
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Comentário de: MAQ — 17 de março de 2009 às 21:08
Valdenito,
A forma engraçada e natural com que coloca as igualdades e diferenças entre nós, cegos, e todas as pessoas no cotidiano é muito interessante. A sexualidade da pessoa com deficiência, o trabalho, o cotidiano no transporte, a acessibilidade proporcionada pelo serviço do metrô carioca em nos guiar até o vagão e nos apanhar na saída da estação que avisamos que vamos desembarcar, o constrangimento que muitas vezes passamos nas ruas de sentirem pena de nós, como se ser cego fosse um sofrimento, o sempre coitados que não somos, o alívio de chegarmos em casa alguns dias em que nosso cotidiano cansa demais… Mais uma vez eu só posso te dar os parabéns e… esperar por mais uma crônica a nos revelar você e nós mesmos em nosso cotidiano urbano, mesmo que os dias nem sempre sejam iguais!
Abraços amigos do MAQ.
Comentário de: Eliana de Deus Gamarra — 31 de março de 2011 às 10:01
AMEI este blog. Por causa de um aluno novo, pequenininho, cego que recebi na creche estou começando a me informar sobre a área. O Bengala Legal está me ajudando muito! Valeu pessoal!
Eliana Gamarra – Nazaré Paulista
31/03/2011
Comentário de: Ovos de Páscoa — 2 de março de 2012 às 12:42
O site Bengala Legal está de parabéns pelo ótimo conteúdo que tem disponibilizado a comunidade. Muito bom, continuem assim!