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sexta-feira, 6 de março de 2009.

Cada caso é um caso, cada surdo é um surdo.

Sônia M.Ramires de Almeida.

Nas conversas cotidianas vamos soltando palavras sem muita preocupação com definições e precisão. Dizemos orientais para um montão de povos diferentes entre si, o mesmo para africanos ou índios, cometendo erros tremendos, atribuindo a uns características de outros.

Com os surdos acontece a mesma coisa. Quem não está diretamente envolvido com o problema imagina o universo dos surdos povoado por irrecuperáveis “surdos-mudos” ou por velhinhos que a familia prefere considerar distraídos. Até explicar para a pessoa comum que ouvir e falar são funções que dependem de órgãos diferentes, que a deficiência de um não significa a falência de outro, que a gente aprende a falar ouvindo e que aprender qualquer coisa leva tempo e trabalho…

Uma criança surda mal diagnosticada pode ser considerada autista ou portadora de problemas mentais, acarretando consequências sérias e dolorosas para si e sua familia, chegando a comprometer o desenvolvimento intelectual se não houver uma atenção correta. Por outro lado, ainda hoje algumas pessoas tentam negar a deficiência auditiva própria ou de familiares pelo simples fato de não ser um problema visível e palpável. Lamentavelmente nos setores mais pobres e menos escolarizados a situação se torna mais grave.

Voltando à ideia inicial, os surdos não são todos iguais, não são todos condenados ao silêncio eterno, podem falar, oralmente ou através de sinais, falam e pensam.
Eu pessoalmente tenho um ponto de vista situado no meio do caminho, não nasci surda e comecei a ter dificuldades por volta dos vinte anos, estou entre os surdos definidos como pós-linguais.

Primeiro, quando não entendia o que diziam pensava que era muito distraída. Quando perdia a hora do trabalho por não ouvir o despertador a desculpa era o sono pesado, cansaço etc. Por sorte, tive uma colega de trabalho, a Nílcea, pessoa sensível e amiga, estudante de fonoaudiologia. Ela resolveu fazer uma audiometria e definiu meu problema. Era perda auditiva. Com esse resultado procurei um médico da empresa que me disse que o problema não tinha solução nem remédio.

Por sorte procurei outro profissional que me recomendou tratamento e o uso de aparelhos auditivos. A adaptação aos aparelhos foi rápida e pude seguir estudando e trabalhando. Explicando o problema aos demais conseguia a ajuda de colegas que se tornavam intépretes espontâneos e adquiri o hábito de solicitar ajuda quando necessário evitando constrangimento.

Pude assim estudar música, expressão corporal e idiomas estrangeiros além de concluir Ciências Sociais na USP. Além do meio social mais amplo, muitas vezes a familia se torna um núcleo de negação da surdez ou deficiência. Muitos fonoaudiólogos e médicos descrevem a dificuldade de explicar que o tratamento ou adaptação de aparelhos não tem como finalidade a cura total desejada pelo paciente e pelos pais, mas oferecer instrumentos para melhorar a qualidade de vida e inserção social da pessoa.

A medicina, como a ciência em geral, é dinâmica e o que hoje é conhecimento estabelecido pode ser mudado a partir de novas pesquisas interdisciplinares. Não podemos exigir da sociedade em geral que conheça, respeite e não discrimine. Isso depende da escolaridade, informação, cultura, noções de cidadania e até da sensibilidade de cada um.

Por outro lado, podemos e devemos exigir o conhecimento, respeito e atenção especial dos órgãos públicos, que devem estar aptos a atender a qualquer cidadão, independente de suas características individuais. Na escola, professores e orientadores devem ter conhecimento suficiente para orientar os pais e auxiliar na busca de ajuda profissional se necessária.

Num aspecto mais geral tenho sentido a falta de oferta de produtos e acessórios que facilitem a vida diária: despertadores por vibração, capinhas de silicone para proteger os aparelhos retroauriculares da umidade e transpiração etc. Também faltam salas de aula, de cinema e teatro adaptadas com amplificadores que possam ser captados pelos aparelhos auditivos. Esse tipo de salas existem em Buenos Aires por exemplo, adaptação promovida pela Mutualidad Argentina de Hipoacusicos *, que presta uma série de serviços aos deficientes auditivos daquele país.

Outra facilidade seria incentivar a produção de TV e cinema legendados promovendo a inclusão de um público interessado em arte, cultura e educação.Procurei descrever a situação de uma pessoa que perdeu a audição já adulta, alfabetizada e integrada à sociedade. Outras vidas e experiências serão necessariamente diferentes, enfatizando outros lados da questão. Proponho que tenhamos uma visão dinâmica e multifacetada como merecem as questões sociais e humanas.

* Mutualidad Argentina de Hipoacúsicos: http://www.mah.org.ar.Site Externo.

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MAQ às 17:27.
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2 Comments | Deixe seu comentário.

  1. Comment by MAQ — 6 de março de 2009 às 17:51

    Oi Sônia,

    Muito bom esse seu texto mostrando a diversidade em uma mesma deficiência. No caso das pessoas com deficiência visual, temos cegos de nascença e aqueles que adquiriram cegueira em adulto, temos os que sabem Braille e outros que, apesar de alfabetizados e, mais que isso, com nível superior, que não se utilizam do mais conhecido sistema de leitura e escrita das pessoas cegas, conhecendo apenas os recursos digitais. Temos ainda aquelas pessoas com baixa visão, ou visão subnormal, que acabam ficando diferenciadas pelos cegos porque enxergam, mesmo que muito pouco, e discriminadas por quem enxerga por perceberem suas dificuldades óbvias.

    Quando pensamos em desenho universal temos de levar em conta pessoas com e sem deficiência e, entre as com deficiência, a diversidade entre elas.

    Parabéns pelo texto, que bom divulgá-lo.

    Abraços inclusivos do MAQ.

  2. Comment by Sônia Maria Ramires de Almeida — 6 de março de 2009 às 18:27

    Fico feliz ao poder trocar ideias sobre inclusão trazendo o ponto de vista dos surdos pós-linguais.
    Apesar de saber que é uma briga de todos e por todos penso que cada segmento deve discutir suas características próprias para saber como somos e o que necessitamos em termos de inclusão.
    E ao discutir como somos vamos descobrindo como são os demais. Estou aprendenco agora como elaborar um texto e digitá-lo de forma a poder ser lido por programas de computador especiais para deficientes visuais. E pretendo passar adiante essa ideia de acessibilidade que acabo de aprender.
    Nosso blog é: http://www.sulp-surdosusuariosdalinguaportuguesa.blogspot.com

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