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domingo, 18 de abril de 2010.
Cenas Comuns: Musculação de Cegos.
Débora Paiva Costa – Miau.
Telhado da Miau.
Foi apenas uma ida ao médico, mas quando retornei em casa, senti como se estivesse voltando da musculação.
eu, juntamente com meu namorido, namo de namorado e rido de marido, porque todo namorado que se prese deve ter um quê protetor de marido, e todo marido um quê romântico de namorado, e o meu no caso tem ambas as coisas. Então, como ia dizendo, ao descermos do 679 na Dias da Cruz, ambos devidamente armados de suas respectivas bengalas, fomos andando a fim de encontrarmos o prédio do consultório médico.
Andar de cego bengalante é aquela coisa mesmo, as vezes bengala-se e a multidão vai abrindo espaço para que passemos, as vezes a aglomeração resolve testar o cego e temos que ir superando os obstáculos humanos, dando bengaladas em pernas, esbarrões em barrigas, esfregadinhas em braços, em fim.
hoje A multidão estava com o espírito positivamente receptivo, abrindo espaço para que passássemos sossegadamente. A sim, porque as vezes a multidão está com o espírito negativamente receptivo, quando ao andar o sujeito não só não sai de nossa frente, como resolve andar em nossa direção, e claro, leva uma trombada. Aliás, hoje, estava tudo muito bom para se bengalar por aí. E digo isso não só na avenida mencionada a cima, mas também em nosso próprio condomínio, que recebemos várias boas tardes ao atravessar os portões. É incrível, mas as vezes penso que os vizinhos acham que como somos cegos não precisamos receber um bom dia, ou boa tarde etc. Eu quando percebo alguém, trato logo de dar os respectivos bons dias ou boas tardes, quer seja para não me frustrar pensando que a pessoa só não me cumprimentou porque sou cega, quer seja para impressionar o cidadão ao mostrar que cego não só dá bom dia, boa tarde e boa noite, mas também pode perceber a presença de outras pessoas. Isso para eles deve ser algo do além.
Mas, voltando a dias da cruz…. Fomos bengalando e os caminhos foram se abrindo, parecia até um trabalho esotérico, daqueles que fazemos para que o caminho seja aberto, sabe? Pois é.. e ao chegar ao prédio.. Devo informar que esse prédio tem uma escada que conduz para baixo. A maioria dos prédios que tem escadas na frente, geralmente levam para cima. Mas este não, essa escada em particular, levava para baixo. Nós já conhecíamos o lugar e fomos, ou melhor, tentamos ir descer a dita cuja.
Devo confessar que depois dessa experiência, nunca mais entrarei nesse prédio como se eu conhecesse. Eu juro! Não não.. melhor mesmo é parar na porta, encenar que estou tentando achar a entrada e esperar ajuda. Porque o que se seguiu foi o seguinte: ao descermos o primeiro degrau da escada, surgiu misteriosamente do meu lado uma moça e agarrou o meu braço, ao mesmo tempo que se materializou do lado do meu namorido, um moço que também agarrou o braço dele. Será uma encenação? Seriam entidades do bem tentando nos emitir uma mensagem do pós vida? Pensei, mas imediatamente percebi que não se tratava de nem uma cena de novela meticulosamente ensaiada e nem de almas penadas e sim de duas pessoas apavoradas com a possibilidade do casal de cegos rolar escada abaixo.
Na verdade, não sei se estavam mesmo preocupados, porque a dita ajuda saiu pior do que qualquer coisa. A moça simplesmente ao agarrar meu braço gritava dizendo que era uma escada, onde respondemos que sabíamos e que iríamos descer. Aí o moço falou que não.. não iríamos descer não, porque tinha um elevador ao lado que nos conduziria para baixo. Sim, o elevador é verídico. tem um elevadorzinho ao lado da escada que conduz para baixo, mas acho que tal é usado para transporte de cargas pesadas. Nem para deficiente físico é, porque ele já existe ali há muito tempo. Apesar de achar que hoje ele se presta a tal objetivo também. Mas nós, que já experimentamos o tal elevador em uma outra situação, porque eu sou teimosamente curiosa, informamos que não iríamos pegar aquele elevador e iríamos sim, descer de escada. O elevador é extremamente vagaroso.
Bem…. vencidos por nossa recusa ao pegar o tal elevador, o casal resolveu nos ajudar. A moça além de agarrar firmemente meu braço, ia puxando para cima, como se a escada fosse para subir. O moço abraçou meu namorido pela cintura, como se fosse tirá-lo para dançar ao mesmo tempo que pedia calma, no que meu cônjuge respondia estar calmíssimo… e tudo foi tão rápido! Na mesma hora que eu tentava explicar que não era assim que se guiava um cego, meu namorido tentava se desvencilhar do abraço do moço, enquanto os dois por sua vez só pioravam, e muito, a performance. A moça agora não só erguia meu braço enquanto ao descer minhas pernas me conduziam para baixo, mas também puxava para frente fazendo com que eu dobrasse meu corpo, e o moço além de manter firmemente o braço em torno da cintura do meu marido, colocava a bengala dele nos degraus.
Oh Deus, pensei, isso não acaba? Mas não, eu então tive que falar mais alto para a moça, enquanto meu marido se defendia lá do jeito dele contra a “ajuda” do moço. Por um momento pensei que iria voar, que eles realmente eram entidades do além querendo não nos dar uma mensagem do pós vida, mas sim nos levar voando com eles sabe-se lá para onde. Agora, vocês imaginem isso tudo acontecendo na descida de uma escada.
Bem, depois de ajudas, erguidas de braços, extensões musculares, apertões, dobradas de corpos, abraços apertados, conseguimos, sabe-se deus como, chegar lá embaixo, onde realmente precisaríamos de ajuda para acharmos o elevador que conduziria aos andares do prédio. Só que quando chegamos lá em baixo, eu já estava arrancando a mão da moça do meu braço e falando rispidamente a ela que essa não era a forma certa de se conduzir um cego e peguei no braço dela para mostrar a forma correta. Não senti mais a presença do moço, mas a moça disse um obrigada e… foi embora e nós, claro, fomos procurar o elevador sozinhos.
No consultório foi tudo tranqüilo, mas ao retornarmos para a casa… escada de novo, ok, dessa vez veio um outro moço nos guiando, mas sem nos tocar. Veio do nosso lado falando. acho que ele deve ter assistido a cena anterior, sei lá, mas também não fez o correto, não é? Mas a subida é sempre mais tranqüila.
Ao chegarmos na calçada, veio um guarda que designou um pedestre para nos ajudar a atravessar a rua. O ajudante pegou no meu braço, no que na mesma hora eu tirei e peguei no dele. Aí ele tirou e pegou no meu, aí eu tirei e peguei no dele, aí ele tirou e pegou no meu e eu pensei: não pai.. por favor! Me ajude! Juntando toda paciência possível expliquei a ele que eu que tinha que pegar no braço ele, e não ele no meu. Ele nos perguntou se gostaríamos de atravessar a rua, e falamos que sim. Aí ele perguntou para onde iríamos e eu disse que iríamos para o outro lado da rua. Ficamos esperando o sinal fechar e ele perguntou se iríamos pegar ônibus do outro lado. Respondemos que sim. Ele perguntou qual e informamos que seria o 679. Então ele falou que deveríamos pegar desse lado mesmo, que não precisaríamos atravessar. Informamos, com toda a calma do mundo, que iríamos pegar o 679 voltando da penha, e não indo. Então ele concordou conosco. Bem, finalmente atravessamos.
Devo informar que eu estava segurando no braço do moço e meu namorido no meu braço, logo, eu estava no meio. Ao atravessar a rua, o ponto do 679 ficava a direita, mas o moço achou que era a esquerda e aí eu me senti a mulher elástico. Meu namorido me puxava para um lado e o moço vendo que eu soltara o braço dele, resolveu pegar e me puxar para a esquerda, enquanto gritava que se fôssemos para a direita, iríamos para a penha. Mmeu namorido já pra lá de bravo, mandava eu soltar o moço, como se eu estivesse mesmo segurando aquele infeliz! E eles puxavam… e eu me esticava.. e eles puxavam…e eu me esticava. Oh deus, haja alongamento! Foi então que tive a absoluta certeza que o episódio vivido há poucas horas atrás com o casal da escada fora apenas um aquecimento para o verdadeiro exercício de alongamento. E o pior de tudo foi que meu namorido estava ficando bravo, pensando que eu estava duvidando que o ponto do ônibus era a direita.
Ora bolas! Eu não podia nem responder, porque:
1. estava sendo puxada em sentidos opostos;
2. o homem gritava que era para a esquerda, enquanto meu namorido esbravejava que era a direita e
3. quando eu fico nervosa começo a rir desesperadamente, o que infelizmente, foi o caso.
Quando finalmente o homem me libertou de supetão, quase levei um tombo, pois meu namorido, muito bravo, diga-se de passagem, estava me puxando. Então… imaginem a cena novamente! Aí realmente eu tive mais do que certeza que os exercícios de musculação e alongamento haviam terminado e agora eu estava na fase de testar o equilíbrio, tanto físico para não cair, como emocional, para me controlar e não brigar com meu namorido. Ele estava bem nervoso! E não era para menos, porque claro, cego como ele é, não via que eu soltara o braço do homem e ele sim, havia segurado meu braço e estava me puxando.
Aí eu pergunto: como explicar essa situação para um namorido nervoso no meio da rua? Fiquei quietinha e acho que só agora, lendo esse texto, ele pode compreender que eu não estava agarrando o braço do homem e sim ele, o homem, que estava me puxando. Ora se tem cabimento eu agarrar o braço de um homem qualquer e ir para o lado oposto do meu chuchu, amado, venerado, bebezão roncador namorido!
Ppara completar, ao chegar em casa ele ficou me dizendo por várias e várias vezes, que amanhã, ao sair, na hora que eu fosse atravessar a presidente Vargas, deveria ir para a direita, e não para a esquerda. Que se por acaso viesse alguém me levando para a esquerda, não era para eu ir não, pois o lugar que eu irei amanhã é para a direita… e ficou dizendo, direita, viu.. ouviu, né? Não vai não, porque você acredita em todo mundo da rua e a pessoa vai te levar para o caminho errado e você vai ficar perdida, e você não vai conseguir achar o lugar e… É mole? oh deus, pensei, vou dormir!
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Pingback de: Novidades 20/04 | Inclusive — 20 de abril de 2010 às 8:17
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Comentário de: Jardelina — 16 de junho de 2010 às 1:32
Amei o seu site e me diverti bastante com a Musculaçao de Cegos. Tenho um grande amigo que é deficiente visual, mas ele se supera em conhecimento, dedicaçao, estudos, sabedoria e a grande capacidade de ensinar a Biblia Sagrada e ele sempre brinca comigo que vai precisar de caneleira e cotoveleira para andar comigo, mas na verdade, ele nunca me ensinou em como ser o vidente/guia. Hoje aprendí. Boa sorte!!! e Parabéns pela superaçao.