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domingo, 5 de setembro de 2010.
Entrevista sobre audiodescrição no boletim ONCB-News
ONCB-News // Informativo da Organização Nacional de cegos do Brasil // 04- 28 de agosto de 2010.
Casado, funcionário de carreira da Prodam em São Paulo, dedica pelo menos duas horas de cada um dos seus dias, à luta pela audiodescrição na TV, no cinema e em espetáculos audiovisuais em geral. estamos falando de Paulo Romeu Filho, que integrou recentemente a equipe de consultores da ONCB para as questões de acessibilidade.
Segundo ele, a audiodescrição é hoje uma luta que interessa diretamente a 14 por cento da população brasileira, 29 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Interessa ainda, aos familiares e amigos dessas pessoas, e a todos aqueles que lutam por igualdade de direitos.
Confira a seguir, a entrevista que ONCB-News realizou com Paulo Romeu. Conheça um pouco da atuação da ONCB nesse processo, veja como em outros países, os governos encaram a audiodescrição, saiba como será importante, agora e futuramente, a nossa mobilização e engajamento nessa luta.
ON: Paulo Romeu: Casado, Pai de família,funcionário de carreira da Prodam. Entretanto, não se pode falar hoje em audiodescrição sem que seu nome seja pronunciado. Como tudo isso começou? Quanto tempo da sua rotina você tem dedicado à luta pela audiodescrição?
PR: Tudo começou em 2005 quando assisti o filme Irmãos de Fé, o primeiro DVD lançado no Brasil com audiodescrição. Imediatamente percebi o potencial do recurso para a inclusão das pessoas com deficiência, permitindo o desfrute com total compreensão de todos os tipos de espetáculos e obras audiovisuais.
Naquela época, a ABNT estava elaborando uma norma técnica de acessibilidade específica para a televisão, que tratava do closed caption e da interpretação em LIBRAS para as pessoas surdas. O lançamento de Irmãos de Fé deu os subsídios para que a audiodescrição também fosse incluída na norma. Por sua vez, a norma da ABNT forneceu o embasamento técnico necessário para que o Ministério das Comunicações publicasse a Norma Complementar nº1/2006, concretizando a regulamentação dos dispositivos da Lei 10098 e do Decreto 5296 referentes à acessibilidade na televisão.
Em 2008, o Ministério das Comunicações, atendendo solicitação das emissoras de televisão, suspendeu a obrigatoriedade de transmissão de programas com audiodescrição, o que levou as discussões muito mais para o campo político do que técnico. Passei então a atuar como assessor das antigas UBC e FEBEC, e posteriormente da ONCB, para as negociações que passaram a acontecer entre as representações das pessoas com deficiência, as representações das emissoras de televisão e o Ministério das Comunicações
Foram dois anos de muito trabalho com a participação em reuniões técnicas, elaboração de cartas, ofícios e pareceres para as inúmeras consultas públicas promovidas pelo Ministério das Comunicações, até que, finalmente, em maio de 2010, uma nova portaria restabeleceu a obrigatoriedade da veiculação de programas televisivos com audiodescrição a partir de 2011.
Não saberia dizer quantas horas, minhas e de muitas outras pessoas, foram dispendidas nessas atividades que certamente tomaram boa parte de nosso tempo disponível. Atualmente, enquanto contamos os dias que faltam para julho de 2011, uso pelo menos duas horas por dia pesquisando por notícias, trabalhos acadêmicos, ou elaborando artigos para publicar no Blog da Audiodescrição, que criei com o propósito de ajudar na divulgação do recurso, servir como repositório de documentos para todos que já pesquisam sobre o assunto, informar e mobilizar as pessoas com deficiência e a sociedade em geral sobre nosso direito, agora garantido inclusive por uma convenção da Organização das Nações Unidas, de termos cinema, teatro e televisão em formatos que incluam os recursos de acessibilidade de que precisamos.
ON: Audiodescrição: descrição de imagens e sons não literais em produções audiovisuais como filmes, peças de teatro, programas televisivos, óperas e outros. Você diria que essa idéia já pegou entre as pessoas com deficiência visual no Brasil?
PR: Entre aqueles que já tiveram a oportunidade de assistir algum evento com audiodescrição, tenho certeza que sim.
Em todos os eventos audiodescritos que já participei, é muito gratificante ver a satisfação e o deslumbramento de todos aqueles que tiveram contato com o recurso pela primeira vez.
As pessoas cegas sabem naturalmente o que é a audiodescrição, pois já foram em cinemas, teatros, ou até mesmo em casa assistiram a um DVD ou a televisão, e tiveram alguma pessoa lhes descrevendo cenas impossíveis de serem compreendidas sem o uso da visão. Mas a audiodescrição feita de forma profissional é muito diferente daquela feita por nossos familiares e amigos, daí o deslumbramento com o recurso e a satisfação de se ver respeitado como qualquer cidadão.
De acordo com o censo realizado pelo IBGE em 2000, somos aproximadamente 16 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência visual. Em 2009, o Ministério da Cultura patrocinou uma pesquisa que apontou números surpreendentes, tais como: menos de 9% dos municípios brasileiros possuem salas de cinema, pouco mais de 20% dos municípios possuem teatros. Por outro lado, a pesquisa mostrou que mais de 95% das residências possuem aparelhos de televisão.
A análise destes números leva a conclusão evidente: apesar de grande parte das pessoas com deficiência visual já terem ouvido falar na audiodescrição, a maioria delas ainda não teve oportunidade de conhecê-la porque as emissoras comerciais de televisão ainda não transmitiram absolutamente nenhum programa com o recurso, enquanto que o cinema e o teatro têm abrangência muito mais restrita e estão concentrados nos grandes centros.
Apesar de boa parte das pessoas surdas darem preferência para a comunicação na língua de sinais, o closed caption, ou legendas específicas para os surdos, tornou-se popular entre eles porque a televisão, o mais democrático e mais abrangente meio de comunicação conforme demonstrado na pesquisa do Ministério da Cultura, vem continuamente aumentando a quantidade de programas que transmitem com o recurso em âmbito nacional.
Não tenho dúvida de que o mesmo acontecerá com a audiodescrição quando ela também estiver presente nos programas de televisão.
ON: Enquanto que nos países da Europa e nos Eua, a ad já é uma realidade desde a década de oitenta do século XX, como está a situação no Brasil?
PR: Sua pergunta me fez lembrar de uma reunião que participei no Ministério das Comunicações em 2008. Na ocasião, respondendo a uma afirmação dos radiodifusores que diziam ser a audiodescrição inexistente no Brasil, apresentamos uma pesquisa feita no Google pelo termo “audiodescrição”, que retornou aproximadamente 400 resultados em páginas da Internet brasileira. Hoje, pouco mais de dois anos depois, o Google apresenta dezenas de milhares de resultados para a mesma pesquisa.
No Blog da Audiodescrição é possível comprovar o crescente aumento da quantidade de eventos que disponibilizam o recurso da audiodescrição por todo o país: espetáculos de ópera, peças teatrais, apresentações de dança, sessões de cinema, desfiles de moda, passeios turísticos, palestras e seminários. Também é crescente a quantidade de trabalhos acadêmicos publicados por pesquisadores brasileiros sobre a audiodescrição, inclusive abordando o uso do recurso em sala de aula.
Portanto, estranho a declaração feita pelo assessor jurídico do Ministério das Comunicações em julho último, no qual afirmou que a audiodescrição no Brasil ainda acontece esporadicamente. Essa era a realidade em 2006, mas não corresponde ao que se pode constatar em 2010.
ON: Qual é o profissional que deve fazer audiodescrição? A propósito, o Brasil já tem bons profissionais nessa área?
PR: O profissional de audiodescrição precisa ter bons conhecimentos de tradução semiótica, linguagem teatral, linguagem fílmica, amplo vocabulário, capacidade de síntese, elaboração de roteiros, conhecimento das técnicas e softwares empregados na edição e produção de audiovisuais. Enfim, é necessário um conjunto de conhecimentos específicos em várias disciplinas, principalmente das áreas de comunicação, educação e letras.
Mas a principal característica do perfil de um audiodescritor deve ser a empatia, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar de um espectador com deficiência e saber exatamente o que precisa e o que não deve ser descrito, não superestimando nem subestimando a capacidade de percepção e compreensão desses espectadores.
Nesse ponto, o Brasil certamente já possui profissionais com grande competência e experiência.
A primeira notícia que temos da realização de audiodescrição no Brasil é de 1999 na cidade de Campinas, mas foi a partir de 2003 que tomou maior impulso. Desde então, audiodescritores brasileiros têm participado de diversos workshops e oficinas realizados com a participação de profissionais conceituadíssimos como Bernd Benecke, Joel Snyder, Joe Clarck.
Prova da competência dos audiodescritores brasileiros é o fato de alguns deles já estarem sendo solicitados para ministrar cursos e realizar trabalhos em outros países por emissoras de televisão, grupos teatrais, além de convites para participação e exposição de suas pesquisas em congressos internacionais.
ON: Há como fazer previsões? Acredita que estaremos como, daqui a dez anos, com respeito à ad no Brasil?
PR: Em países como a Inglaterra, já existem mais de trezentas salas de cinema e teatro que disponibilizam sessões audiodescritas regularmente, algumas emissoras de televisão do Reino Unido já transmitem 30% de sua programação com audiodescrição apesar de estarem obrigadas a veicular somente 10%.
Alguns dias atrás, li uma notícia em que o presidente dos EUA, Barac Obama, afirmou em um evento em comemoração pelo vigésimo aniversário da ADA – Americans Disabilities Act, que a audiodescrição também vai se tornar obrigatória naquele país.
Em outros países como Portugal, Espanha, Austrália, Japão, Canadá, Itália, Alemanha, Holanda, dentre vários outros, a audiodescrição também já acontece regularmente.
No Brasil, a última portaria do Ministério das Comunicações publicada em maio deste ano estabeleceu a obrigatoriedade de veiculação de pelo menos duas horas de programação audiodescrita por semana pelas emissoras de televisão, aumentando essa quantidade um pouco a cada ano, até chegarmos a 20% da programação após dez anos. Em relação à outras mídias e tipos de manifestações culturais, ainda não existe regulamentação, mas a quantidade de eventos tem crescido espontaneamente.
Esses dados demonstram que a audiodescrição é um recurso de acessibilidade, uma ajuda técnica que vem sendo exigida em todo o mundo não apenas pelas pessoas cegas, mas também por pessoas com outras deficiências como disléxicos, pessoas com deficiência intelectual, idosos que têm suas capacidades reduzidas com o passar dos anos.
Portanto, assim como já acontece com o closed caption, a audiodescrição no Brasil certamente vai se tornar mais conhecida e mais aplicada com o passar dos anos
ON: Que filmes você recomendaria, os quais já têm o recurso da Ad e podem ser encontrados nas locadoras?
PR: Nas lojas e vídeolocadoras é possível encontrarmos três filmes brasileiros cujos DVDs foram produzidos com audiodescrição. São eles: Irmãos de Fé, o Signo da Cidade, e mais recentemente Chico Xavier.
A Programadora Brasil, distribuidora de filmes vinculada ao Ministério da Cultura, também disponibiliza diversos títulos com audiodescrição, mas somente para clubes de cinema, para exibição em sessões não comerciais.
Em Fortaleza, o grupo LEAD – Legendas e Audiodescrição da Universidade Estadual do Ceará também lançou um projeto que disponibilizará DVDs de filmes com audiodescrição regularmente.
Mas tenho notícias de que, muito em breve, uma das maiores produtoras e distribuidoras de filmes do Brasil passará a produzir todos os seus títulos com audiodescrição, assim como já faz com o recurso do closed caption.
ON: você diria que a ad ainda é uma luta das pessoas, individualmente? Como vai a participação das organizações de pessoas com deficiência nesse processo?
PR: Sei de muita gente envolvida e comprometida com essa luta, mas o poder econômico e a capacidade de lobby daqueles que são contrários a implementação da audiodescrição é imenso.
Desde 2005, as extintas UBC e FEBEC não exitaram em se colocar ao lado das pessoas com deficiência, participando, inclusive presencialmente, de todas as ocasiões em que o assunto foi tratado pelo Ministério das Comunicações.
A partir de 2008, a ONCB, que surgiu da unificação da UBC e FEBEC, tem demonstrado disposição e firmeza ainda maior em lutar pela concretização desse nosso direito.
A ONCB participa da ADPF 160como amicus curae, uma ação promovida pelo Conselho dos centros de Vida Independente – CVI-Brasil e pela Federação das Associações de Síndrome de Down – FBASD, que tramita no Supremo Tribunal Federal para exigir do Ministério das Comunicações as medidas necessárias para a efetivação desse direito das pessoas com deficiência. Estas mesmas instituições também participaram como litis consorte de um Mandado de Segurança para exigir do Ministério das Comunicações a reabertura de uma consulta pública sobre a audiodescrição em que os documentos para os quais o ministério solicitava contribuições foram divulgados em formatos inacessíveis para as pessoas cegas; mais recentemente, foi aprovado em assembléia da ONCB uma autorização para que a direção da entidade protocole uma denúncia contra o governo brasileiro no Comitê de Monitoramento da Convenção Sobre direitos das Pessoas com Deficiência da ONU.
A antiga Corde e o Conade também não faltaram com o seu compromisso de lutar pela implementação da audiodescrição no Brasil.
Portanto, do ponto de vista político e jurídico, as instituições representativas de pessoas com deficiência têm lançado mão de todos os instrumentos de que dispõe para garantir o respeito ao nosso direito.
Entretanto, voltando ao que disse no primeiro parágrafo dessa resposta, os contrários a implementação da audiodescrição dominam os principais meios de comunicação, apelidado de o “quarto poder da república”, e o argumento mais respeitado por eles é a opinião pública.
Como disse anteriormente, em 2000 éramos 16 milhões de brasileiros com algum nível de deficiência visual, 25 milhões de pessoas com todos os tipos de deficiências. Hoje, 10 anos depois, acredita-se que somos 29 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência.
Esse é um contingente que não pode ser desprezado, mas estou convicto de que apenas a atuação política e judicial das instituições representativas das pessoas com deficiência não será suficiente para fazer que empresários mais preocupados com seus lucros e que, em todas as oportunidades, sempre perguntam “quem vai pagar a conta”, cumpram suas obrigações. estou convencido de que também será necessário uma grande união e um grande esforço das instituições representativas, das entidades de, das entidades para, e também das próprias pessoas com deficiência no sentido de reivindicar do governo e dos meios de comunicação o respeito ao seu direito, informando e difundindo a audiodescrição na sociedade como um todo para formar um senso comum, evitando assim que venhamos a ter nova decepção em julho do próximo ano, repetindo o que já aconteceu em julho de 2008.
ON: suas últimas palavras para os leitores do ONCB-News?
PR: Agradeço muito a oportunidade de falar para os leitores do ONCB News sobre audiodescrição, e aproveito para convidá-los a se envolverem nesta luta pelo direito à cultura, à educação, à comunicação e ao lazer em formatos que contemplem os recursos de acessibilidade de que precisamos.
Para se manterem informados sobre essa batalha, acessem o Blog da Audiodescrição: http://blogdaaudiodescricao.blogspot.com
terça-feira, 25 de agosto de 2009.
Programa Assim Vivemos.
TV Brasil – 23/agosto/2009.
Chat – complemento do programa – 19 horas.
Entrevistada: Fabíola Cintra Campillo.
Entrevistador: Marco Antonio de Queiroz – MAQ.
MAQ: Boa noite. Como em todas as semanas vamos começar nosso chat com uma entrevista e, logo após, vamos abrir o chat para que todos possam se expressar ou mesmo perguntar algo à nossa entrevistada.
.Nirce Entra na conversação.
MAQ: Nossa entrevistada de hoje é Fabíola Campillo, fisioterapeuta, especialista em tecnologias assistivas, idealizadora e membro do trabalho de pesquisa “O Envelhecimento das Pessoas com Deficiência” e membro do CVI AN. Boa noite Fabíola!
Fabíola. Boa noite MAQ. Boa noite a todos.
.Lucio Entra na conversação.
.Fernanda Entra na conversação.
.Nancy Entra na conversação.
MAQ: Fabíola, poderia nos dizer sobre seu trabalho de pesquisa sobre o envelhecimento das pessoas com deficiência? Porque você o idealizou e como vai seu desenvolvimento?
Fabíola. O trabalho foi idealizado em 2007 por mim e minha amiga e parceira de trabalho, Naira Rodrigues, durante um curso de formação de CIF, onde uma palestrante falava sobre envelhecimento populacional e percebemos que as pessoas com deficiência não entravam neste estudo. A partir daí iniciamos o projeto que é realizado pelo CVI/AN em parceria com mais 3 organizações, a “Mais Diferenças”, “Ciape” e “CBCD” com o financiamento da SEDH/CORDE. Acabamos de concluir a primeira fase que foi o desenvolvimento da metodologia e estamos trabalhando na 2a. fase que é a replicação do instrumento.
.Flavia Entra na conversação.
MAQ: Fabíola, nosso filme “Masters” é sobre o envelhecimento de pessoas, entre as quais uma pessoa com deficiência que adquiriu deficiência há pouco tempo. A pesquisa trata também dessa situação?
.Jean Entra na conversação.
Fabíola. Sim, nossa pesquisa visa entender como essas pessoas estão vivendo e identificar as barreiras e facilitadores que elas têm na sua vida diaria, além disso, observamos a interação das pessoas com a sociedade e o meio em que vivem. Em cima destas informações detectamos o porquê aumetou ou dimunuiu sua participação na sociedade e o filme mostra justamente isso, que uma pessoa mesmo se tornando deficiente nesta fase da vida, pode vivê-la de forma plena se estiver inserida num contexto social que seja facilitador e que permita que ela possa experimentar e vivenciar aquilo que lhe da prazer, utilizando a tecnologia e o apoio de seus colegas e familiares.
MAQ: Fabíola, existe associação direta entre envelhecimento e deficiência?
.Mateus Entra na conversação.
Fabíola. Sim, observamos em nosso estudo que o maior número de pessoas com deficiência aqui do município de São Paulo estão na faixa etária de 55 anos ou mais e percebemos que o envelhecimento vem muitas vezes associado à condições de saúde que podem muitas vezes levar a uma deficiência. Pra se ter uma idéia, 48% da população de São Paulo, na faixa etária de 55 anos é composta por pessoas com deficiência.
.Costa Entra na conversação.
.Fernanda Entra na conversação.
MAQ: Fabíola, como ficam as pessoas com deficiência idosas e dependentes que perdem seus parentes ou que são abandonadas por eles?
Fabíola. Esta é uma das principais questões e angustias que nossa equipe encontrou durante a aplicação do instrumento da pesquisa. Na grande maioria, a principal preocupação destas pessoas é como vão dar conta de viverem sem seus familiares, que também muitas vezes não abandonaram, mas se tornaram pessoas idosas e dependentes também. Muitas pessoas com deficiência acabam tendo que se virar sozinhas, além de cuidar destas outras pessoas. As pessoas com deficiência intelectual e seus familiares vivem esse medo diário de não saber o que fazer ou quem vai cuidar quando esses pais se forem. Esse é um dos principais problemas enfrentados atualmente pelas pessoas que estão envelhecendo. Hoje o que acontece é que muitas vezes estas pessoas acabam indo para abrigos públicos, mas já existem coisas bacanas acontecendo como as residências inclusivas, que parece ser uma boa opção.
MAQ: Fabíola, essa entrevista é para a apresentação do tema e de uma pessoa que entenda do assunto. Envelhecimento é um tema bastante instigante e com questões muito difíceis. Obrigado, suas colocações foram muito interessantes. Agora iremos abrir o chat para as perguntas dos participantes.
Fabíola. Eu sou quem agradece a oportunidade de participar e poder dividir com vocês esse interesse.
*.Sala E aberta (por Jean).
MAQ: Todos que quiserem fazer perguntas sobre o envelhecimento das pessoas com deficiência, podem ficar à vontade.
MAQ: Fabíola, me impressionou o percentual de 48% da população paulista acima de 55 anos ter deficiência. Pode nos dizer qual percentual é esse com relação à população total?
.Elizabet Entra na conversação.
Fabíola. MAQ, não tenho estes dados aqui comigo agora, Porém são dados do IBGE para o município de São Paulo, lembro-me que o panorama nacional não é tão diferente assim. Quando pegamos faixas etarias maiores que 55 anos no IBGE, este percentual aumenta ainda mais.
MAQ: isso significa que existe, realmente, uma associação direta entre envelhecimento das pessoas e deficiência. Será por isso que o censo de 2000 nos mostrou 24 milhões de pessoas com deficiência no Brasil?
Fabíola. Temos que lembrar que nestes números do IBGE, as pessoas se declararam com deficiência e nestas estão incluídas também as pessoas com mobilidade reduzida. Mas mesmo assim o número é muito grande.
Fabio. Fabíola, não sei se já foi pesquisado, mas qual é a categoria de deficiência com maior presença entre as pessoas com mais de 55 anos?
Flavia. Os cegos sempre tiveram maior sobrevida.
Jean: A, que bom saber disso, Flávia.
Jean: rs..
MAQ: até para morrer nós cegos somos ruins!
MAQ: ahaahha.
Fabio. ahahhahahhahaaa.
Fabíola. Pessoas com deficiência visual têm maior prevalência, porém temos observado na pesquisa o aumento de deficiências múltiplas, pois pessoas que já possuiam uma deficiência, com o envelhecimento acabam adquirindo outras. Mas estes dados precisam ser melhor estudados, por isso a importância desta pesquisa.
MAQ: concordo… essa pesquisa é super importante!
Fabio. É sim.
Fabíola. Pouco se sabe sobre o processo de envelhecimento das pessoas com deficiência. Esta pesquisa visa levantar estes dados para subsidiar políticas públicas para garantia de direitos e melhoria da qualidade de vida desta população, que está aumentando e precisa ser conhecida por todos nós.
Flavia. Na pesquisa vocês contemplaram a deficiência intelectual?
Fabíola. Sim Flávia, a pesquisa contempla as cinco categorias de deficiência estabelecidas na legislação brasileira: física, visual, intelectual, auditiva e múltipla.
MAQ: Outro detalhe do que nos disse, Fabíola, sobre o envelhecimento, pessoas com deficiência idosas e dependentes, é que elas aprendem a se virar e, por vezes, acabam até cuidando de quem eram seus cuidadores… mas existem aquelas que não têm mesmo como se virar, que não é questão de tentarem, é que não conseguem mesmo!
MAQ: o que pode-se fazer também é estimular tanto o empoderamento quanto a autonomia das pessoas com deficiência. Muitas são dependentes psicológicas e culturais… a sociedade julga que são dependentes e as trata como dependentes e elas acabam assumindo essa dependência que, na verdade, pode ser muito menor.
Fabíola. MAQ, antes da sociedade, a questão de achar que são dependentes muitas vezes começa na família e nos cuidadores. Observamos durante a pesquisa que muitas vezes os cuidadores se caracterizam mais como uma barreira, devido à relação que é estabelecida, do que como facilitadores.
MAQ: Sim, começa na própria pessoa com deficiência, que não se sente capaz de gerir sua própria vida e não tenta ultrapassar seus temores…
Fabíola. Muitas vezes os cuidadores acabam achando que estão fazendo o melhor. Mas acabam decidindo pela pessoa, escolhendo por ela e assim por diante, se esquecendo muitas vezes de perguntar o que a pessoa quer de verdade.
MAQ: mas por vezes não é nem maldade. Conheço familiares desenformados que não dão liberdade a seus entes com deficiência, inibindo iniciativas, por preocupação, por amor mesmo!
Fabíola. Concordo com você MAQ, não acho que seja por maldade, mas é uma questão que precisa ser trabalhada para poder dar autonomia às pessoas.
Flavia. Vocês tiveram dificuldade em encontrar esta população com deficiência intelectual? Recorreram à alguma instituição?
Fabíola. Não, não tivemos dificuldade, estabelecemos parcerias com diversas organizações de e para pessoas com deficiência do município.
Flavia. Perguntei errado. Estas pessoas estavam institucionalizadas?
Fabíola. Institucionalizadas (internas?). Não, elas frequentam instituições, mas moram com suas famílias e muitas vezes até sozinhas.
Flavia. Quando esta pesquisa, de vital importância, será disponibilizada para todos?
Fabíola. Neste momento acabamos de entregar o instrumento para a SEDH/CORDE e estamos trabalhando na segunda fase. Pois a primeira fase o instrumento foi aplicado somente em 31 sujeitos para validação. Agora nesta fase que estamos trabalhando ele será aplicado em 310 sujeitos do municipio, além de de estarmos trabalhando para replicá-lo em outros municípios em diversos estados do país.
Flavia. Porque não criam um site para podermos acompanhar a pesquisa e seus resultados?
Fabíola. Assim que estivermos com os resultados desta segunda fase, iremos divulgar com certeza.
MAQ: Fabíola, quando quiserem, a Bengala Legal estará a disposição da pesquisa e de qualquer texto que queiram divulgar.
Fabíola. Obrigada e pode ter certeza que iremos mandar.
MAQ: Fábio, quando me lembro de você, seus medos e seu fechamento em Ourinhos… e agora, você é um homem, uma pessoa do mundo… fazendo faculdade, trabalhando, concursado… tenho o maior orgulho de ter sido um estímulo… apenas com palavras e por e-mail!
*.Usuário Fabio é conhecido como Diniz (obs.: Troca de nome permitida pelo chat.)
Diniz. Você foi muito mais que um estímulo MAQ. Foi a via para que eu pudesse descobrir que a vida que tenho hoje era perfeitamente possível e viável.
MAQ: Tudo vale a pena, Diniz, quando o desejo e a imaginação, o esforço e a coragem podem ser aproveitados. Você me emociona com teu exemplo de vida e bendito a hora, o momento, que te escrevi estimulando à mudança.
Flavia. Mas tem gente que faz de sua deficiência sua profissão e isto é terrível.
Lucio. Boa noite MAQ, Fabíola.. Eu estou tentando fazer uma pergunta mas o meu filho não está deixando….
Diniz. Oi Lúcio! boa noite!
Fabíola. Boa noite Lucio
MAQ: Boa noite Lúcio, pode perguntar!
Lucio. Ele quer tc junto comigo.. Mas tem só 2 anos e meio.. ehehe.
MAQ: Bem, percebe-se que Rodrigo não será um sujeito muito acomodado!
Lucio. Queria perguntar uma coisa só.. Nem sei se é bem uma pergunta, ou uma impressão que tenho sobre o envelhecimento de um modo geral…
Lucio. É difícil MAQ, o Rodrigo continua no meu colo…
MAQ: rodrigo, deixa o papai perguntar! ahahah.
Lucio. Acho que agora vai… Ô peste!
MAQ: Lúcio, você não está preocupado com o envelhecimento do Rodrigo, não, né?
Diniz. Hahahaaa.
Fabíola. rrsss….
Jean: eeeita MAQ!
Lucio. Um pouco sim, a SD costuma associar envelhecimento precoce de verdade…
Fabíola. É verdade.
MAQ: SD = Síndrome de Down.
Lucio. As placas amilóides são visíveis aos 10 anos de idade, na população normal é só depois dos 40.
MAQ: Sim, mas quando é o envelhecimento precoce da SD?
Fabíola. Aliás, não sei se você conhece, mas existe um grupo de estudos que está fazendo justamente pesquisas relacionadas ao envelhecimento precoce das pessoas com deficiência intelectual.
MAQ: Desculpe minha ignorância quanto à brincadeira anterior, Lúcio, mas, mesmo assim, não é cedo para você pensar nisso para o Rodrigo?
Lucio. Há medidas nutricionais antioxidantes importantes pra retardar esse processo. Mas minha questão não é sobre SD.
Fabíola. Pode perguntar.
Lucio. Entendo que a sociedade percebe o idoso como uma pessoa com deficiência… Um desajustado.
Lucio. Às vezes ficamos pensando em vitaminar os idosos e esquecemos de perceber o quanto o contexto social está focado em isolá-lo.
Lucio. Além disso, o idoso apresenta muitas deficiências físicas com o tempo.. Auditiva, visual, sensorial e até mesmo intelectual…
MAQ: Lúcio, a sociedade tem no idoso alguém diferente de si mesma, discrimina a não ser que seja seu pai ou mãe… ou até pai e mãe!
Lucio. Mas isso é coisa recente, MAQ… Até bem pouco não havia essa onda de terceira idade.
MAQ: Recente?
Lucio. Só restavam o tricô para a vovó e o xadrez para o vovô.
Fabíola. Mas que bom que hoje existe essa preocupação com a 3a. idade, até porque a tendência é que em pouco tempo tenhamos mais idosos do que jóvens.
Lucio. Isso. O que eu queria saber é como você entende o lugar do idoso e se os avanços na sociabilidade deles pode ser replicado em outros setores e grupos.
MAQ: Eu percebo as questões da terceira idade semelhantes às das pessoas com deficiência, vai muito pela quebra de mitos, por lutarem por suas idéias e colocação na sociedade. No entanto, a questão das pessoas com deficiência idosas junta tudo isso e mais a sobrevivência, uma luta pela dignidade.
Fabíola. Isso está aos poucos mudando, até em função deste aumento populacional de pessoas nesta faixa etária, que se deve ao aumento da expectativa de vida. Muitas coisas ainda precisam ser vistas e revistas, principalmente quando falamos de pessoas idosas com deficiência.
Flavia. Lucio, a busca da dignidade é para todos, por isso a importância da união dos movimentos.
Fabíola. É isso aí Flavia.
Lucio. Concordo tb Flavia
Fabíola. O grande erro que muitos cometem é achar que o idoso não tem mais poder de decisão e acabam tomando para si todas as responsabilidades e atividades que a pessoa idosa tinha. Com isso nós só conseguimos causar neste idoso um sentimento de inútil, incapaz e daí começam a maioria dos problemas.
MAQ: Bem, o filme de hoje do programa Assim Vivemos era o “Masters”, que mostra que as pessoas com deficiência tem de ter empoderamento e que decidem por suas vidas…
a filha da mulher dizia que ela não podia pegar skate, e ela dizia que pegava e pronto… aparece ela com uma perna-de-pau, andando no jardim com 78 anos de idade.
Diniz. adoro esses desafios… “você não pode fazer isso”. Pode ser que eu não possa mesmo, mas vou lá e faço. ainda preciso amadurecer nisso.
Lucio. Diniz, você não pode fazer isso!!!!
Diniz. Sim Lúcio, eu posso! :)
Flavia. Minha nãe é meio assim, tem 84 anos e não permite que nenhum de seus filhos escolha o que é melhor para ela.
MAQ: Gente, nossa entrevistada, Fabíola Campillo, está com seu tempo esgotado. Quero agradecer sua presença, dizer que foi maravilhosa sua entrevista e que todos ficaremos na espectativa do término e divulgação da pesquisa sobre o envelhecimento das pessoas com deficiência que, com certeza, irá nos enriquecer muito!
Fabíola. Pessoal, infelizmente terei que sair agora. Gostaria de me colocar à disposição para esclarecer qualquer dúvida, o MAQ tem meus contatos.
Diniz. Obrigado Fabíola.
Flavia. Obrigada Fabíola, adorei sua entrevista!
Lucio. Obrigado Fabíola.. Desculpe minhas interferências, na verdade era o Rodrigo digitando hehehe
Diniz. ahahahhahahaa. O Lúcio é hilário.
Lucio. Boa noite pessoal…
Fernando: boa noite Lucio, e até o próximo chat.
Diniz. Valeu Lúcio, boa semana.
Flavia. Boa noite Lúcio!
Lucio. Tchau MAQ, Bom início de semana a todos!!
MAQ: Boa noite Lúcio, Flávia, Elizabet, todos… Costa!!! Hoje foi muito boa nossa conversa…
.Lucio Sai da conversação
.Flavia Sai da conversação
.Elizabet Sai da conversação
MAQ: Boa noite Diniz, Fernando, Fernanda, Jean, Walki… que bom que todos vocês estão participando conosco.
MAQ: Boa noite Diniz, em especial também para o seu sósia, o Fábio!
MAQ: Boa noite a todos e muito obrigado.
domingo, 16 de agosto de 2009.
No dia 16 de agosto, o programa Assim Vivemos da TV Brasil apresentou o filme “Até que a Morte Nos Separe”, de Maciej Adamek (Polônia, 24 min. 1999), e cuja sinopse era: “Franek e Andrzej se conheceram ainda pequenos, quando estudavam em uma escola para crianças especiais. Um deles tem deficiência física, efeito de paralisia cerebral, e o outro, deficiência intelectual. Define Andrzej: “Eu sou o seu cérebro e ele as minhas mãos”, apresentando-nos essa extraordinária amizade que começou na escola e pela qual tiveram de lutar, já que o Estado Polonês não aceitou facilmente que os dois juntos pudessem conquistar sua total autonomia.
Entrevistei Lêda Lucia Spelta, psicóloga clínica e pessoa cega no chat do programa e, devido à relevância do tema e ao interesse geral, estou reproduzindo abaixo a entrevista:
Entrevistada: Lêda Lúcia Spelta.
Entrevistador: Marco Antonio de Queiroz – MAQ.
Lêda, como pessoa cega e psicóloga clínica, já teve experiências de desconfiança de clientes a respeito de sua competência devido à sua deficiência?
R.: Nunca ouvi isso diretamente. Como acontece com todos os terapeutas, algumas pessoas vêm fazer a primeira entrevista e não voltam. Isso se deve a vários motivos, a maioria deles ligados ao imaginário; por exemplo, elas podem achar que o terapeuta não é confiável por ser jovem demais, velho demais, negro, judeu, etc. É aí que entra a cegueira, como uma das características que servem para a pessoa projetar valores negativos. Mas, felizmente, também servem para projetar os valores positivos, pois há pessoas que ficaram em terapia comigo justamente porque sou cega, do mesmo modo que ficam com outros terapeutas porque são jovens, velhos, homens, mulheres, etc.
Faz parte do trabalho do terapeuta saber identificar o que é dele e o que é projeção do outro e devolver ao outro o que é seu, sem ficar se sentindo o máximo sempre que for elogiado ou arrasado se for rejeitado.
No caso dos meus clientes, mais cedo ou mais tarde acabamos sempre descobrindo os motivos simbólicos pelos quais ele acabou escolhendo uma pessoa cega como terapeuta.
Por outro lado, já sofri preconceito por parte de profissionais que trabalham nas instituições de cegos. Quando cursava a faculdade, tentei estagiar em duas dessas instituições, mas as portas só estavam abertas para mim como cliente, não como profissional. Porém, como sou teimosa, acabei conseguindo trabalhar num pequeno centro de reabilitação, onde creio que realizei o trabalho mais interessante da minha vida.
Nosso filme “Até que a Morte nos Separe”, mostrou duas pessoas com deficiência em uma relação de interdependência. Como você percebeu essa relação?
R.: Eu gostaria de abordar 2 aspectos desta relação: o da interdependência e o da simbiose. Estou chamando de interdependência aos aspectos objetivos da dependência, neste caso devidos principalmente às duas deficiências; e estou chamando de simbiose aos aspectos subjetivos da relação, nem sempre conscientes, onde as pessoas sentem como se formassem um ser único e que não sobreviverão a uma separação.
A simbiose não decorre necessariamente da deficiência e é mais comum do que se imagina; por exemplo, quase todos nós conhecemos alguém que não conseguiu recuperar a sua vida normal após a perda de um ente querido ou após se separar do cônjuge.
O que acontece neste filme é que ficamos tão impactados com as peculiaridades desta situação incomum de relação entre duas pessoas com deficiência, que tendemos a creditar todas as dificuldades à deficiência e desconsiderar os problemas de encaixe de personalidade que existem em quaisquer relações pessoais mais íntimas.
De modo geral, creio que tendemos a atribuir coisas demais à deficiência. Por exemplo, se uma pessoa com deficiência é muito acomodada, é por causa da deficiência; se, pelo contrário, é muito ativa, também é por causa da deficiência.
Este filme deixa em nós uma saudável interrogação sobre até que ponto a dependência de cada um dos rapazes se deve à sua deficiência. A tendência natural da nossa mente é a de formular uma resposta – que sim ou que não – e se convencer de que esta é a única verdade. Creio que a postura mais promissora é a de suportar esta interrogação e abrir a mente para todas as possibilidades.
Lêda, o filme também mostra que uma parte frágil dessa relação é o possível aparecimento de um namoro ou casamento de um dos integrantes dessa relação. Que pensa a respeito disso?
R.: penso que, se isso acontecer, eles irão sofrer muito mais por causa da simbiose do que da deficiência. Me explico: existem muitas pessoas que, ao se casarem, levam para morar consigo a mãe que sofre de alguma doença, o irmão que tem uma deficiência, etc. Mas a gente percebe que os rapazes do filme encaram essa possibilidade como uma ameaça. Creio que isso se deve menos aos aspectos objetivos da deficiência e mais à simbiose.
Não estou negando a interdependência e a complementaridade objetiva que se formou por causa das deficiências. Mas é a simbiose, não a deficiência, que os leva a crer que esta forma de relação que eles têm hoje é a única ou que é a melhor possível, até que a morte os separe!
Boa parte das pessoas com deficiência mantém uma relação de dependência com algum familiar. Algumas mesmo sem possuírem uma dependência real. Como conseguir perceber a diferença entre a dependência real e a imaginária nessas relações?
R.: Em primeiro lugar, é preciso que as pessoas – ou ao menos uma delas – queiram perceber o que está acontecendo com elas. Não conheço ninguém que se proponha a fazer isso sem um bom motivo, porque esta percepção pode ser muito dolorosa. Geralmente isso ocorre quando uma das partes está muito insatisfeita e deseja mudar radicalmente a forma de relação, ou até mesmo rompê-la. Parece até que estou falando exclusivamente de um casamento; porém, tratando-se ou não de uma relação conjugal, as bases psicológicas são as mesmas.
Às vezes é fácil para um observador externo perceber esta diferença. Quando era criança, eu tinha uma tia professora que costumava fazer este papel. Ela dizia, por exemplo, para a minha mãe: por que a Lêda Lucia não pode pegar ela mesma a sua toalha de banho e a sua roupa, em vez de ficar gritando de dentro do banheiro que já acabou o banho?
Noutros casos, porém, isso pode ser muito difícil. Quando ainda estava na faculdade, conheci um jovem cego que havia sido tão superprotegido pela mãe e pela avó, que nunca fui capaz de descobrir se suas dificuldades intelectuais e sociais eram congênitas ou adquiridas.
Em muitos casos, é só experimentando que a gente consegue saber até onde cada um de nós é capaz!
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