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Rio de Janeiro, terça-feira, 06 de dezembro de 2016 - 06:19.

 

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quarta-feira, 7 de maio de 2014.

Marta Gil

Um dos nomes mais respeitados no meio, essa paulistana, formada em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é especialista em comunicação e disseminação da informação na área da deficiência, especialmente em temas como trabalho e educação.

Marta Gil falando ao microfone. A trajetória de Marta Gil junto a pessoas com deficiência começa em 1976, quando foi convidada pela Fundação de Atendimento na Cegueira (FACE) a elaborar uma pesquisa sobre o perfil sociológico das pessoas com deficiências visuais (cegueira e baixa visão) no Brasil, com parceria da Fundação Projeto Rondon e Associação Brasileira de Educação de Deficientes Visuais (ABEDEV). Não havia, na época, nada sistematizado sobre o assunto: a “invisibilidade” dessas pessoas era ainda maior do que hoje. O quadro encontrado foi desolador nos nove estados pesquisados até 1982: pessoas com deficiências visuais não trabalhavam, pouco saíam e nem conheciam o sistema Braille, entre outras dificuldades.

Outro ponto de destaque em sua trajetória é a organização da Rede de Informações Integradas sobre Deficiência, na USP, em 1990, que teve como desdobramento a Rede SACI – Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação – projeto que coordenou até 2006 e que existe até hoje. Ela acredita que informação e comunicação são faces indissociáveis da mesma moeda: uma não existe sem a outra. É uma das fundadoras, e atual Coordenadora Executiva, do Amankay – Instituto de Estudos e Pesquisas (www.amankay.org.brSite Externo.), ONG que, desde 1989, atua na área de disseminação da informação para segmentos sociais em situação de risco, com ênfase no tema da deficiência. Atua como consultora para empresas e órgãos públicos, é palestrante em encontros nacionais e internacionais, tem um livro publicado sobre a história das pessoas com deficiência no SENAI-SP, participa de publicações e tem artigos em revistas, jornais e sites. Por sua trajetória, já ganhou vários prêmios, como uma Menção Honrosa no concurso “Projetos Inovadores Sociais”, promovido pela CEPAL/ONU e apoiado pela Fundação Kellogg e o Prêmio Mulher do Ano da Revista Cláudia, do qual foi finalista, além de menção honrosa no Prêmio Rádio Eldorado na categoria cidadania, entre outros. Marta Gil é também colunista da Revista Reação. Vamos conhecer um pouco mais de sua trajetória e seus projetos:

Revista Reação – A sua coluna para a Revista Reação tem como tema o “Olhar inclusivo”. Como você encara a inclusão nos dias de hoje? 

Marta Gil – Sou otimista e vejo que temos o que comemorar. Quando olho para trás e lembro de como era, de comentários ouvidos nas conversas dos mais velhos, sobre a “cruz” que as mães tinham que carregar, de respostas coletados pelos estudantes do Projeto Rondon – que eram orientados para escrever exatamente o que a pessoa dizia e que mostravam a total falta de conhecimento sobre sua condição e sobre as pouquíssimas possibilidades da época e comparo com a realidade atual, vejo diferenças significativas, que me estimulam a prosseguir. Dentre os avanços, gostaria de destacar a postura das pessoas com deficiência, que cada vez mais fazem sua voz ser ouvida, lutando por seus direitos. Por outro lado… vejo o quanto ainda temos que fazer. O preconceito, mais velado, porque é politicamente incorreto, continua forte e coloca obstáculos a cada momento.

RR – A educação sempre ocupou um lugar central em seu trabalho. O Brasil tem uma educação inclusiva efetiva?

MG – Não, ainda não… Adoraria poder responder que sim … Temos ações e exemplos de políticas públicas inclusivas no campo educacional e também professores que, em suas salas de aula, adotam posturas inclusivas, buscando recursos pedagógicos e aplicando estratégias pedagógicas inclusivas. Temos, também, conhecimento acumulado: dissertações, teses, pesquisas, recursos de tecnologia assistiva, livros, vídeos, que relatam experiências, aprendizados e trazem sugestões. O caminho está sendo construído – aqui, o gerúndio está correto, pois há um processo em andamento.

O site Diversa (www.diversa.org.brSite Externo.), que faz parte do Instituto Rodrigo Mendes, é um rico manancial de informações sobre a Educação Inclusiva – e com recursos de acessibilidade, para citar um exemplo e excelente fonte de informações. Mas falta muito para que possamos dizer que há uma educação inclusiva efetiva. Temos ações pontuais, profissionais e familiares empenhados. Mas também há fortes resistências, por parte de entidades “especiais”, de profissionais e de familiares, que chegam a órgãos de comunicação e a políticos. A inclusão é um processo, que começa dentro de cada um de nós. Envolve valores, sentimentos, noções aprendidas. Não se trata de apontar o dedo no nariz desta entidade abstrata chamada “sociedade” e esbravejar: “A sociedade não é inclusiva!”. É hora de nós fazermos a pergunta, baixinho, para nós mesmos: “Somos inclusivos?”. É bom lembrar, também, que mesmo nos países do tal Primeiro Mundo, que fizeram leis inclusivas antes do Brasil e onde a cultura da inclusão tem raízes mais profundas, ainda há dificuldades e desafios a serem enfrentados. Nem tudo é perfeito lá como às vezes parece ser. Afinal, estamos falando de natureza humana, que é composta de luz e sombra, de preconceito e de acolhimento.

RR – Outro ponto que sempre mereceu sua atenção foi o mundo do trabalho. No seu ponto de vista, a inclusão na área é efetiva?

MG – É verdade, educação e trabalho têm sido os focos de minha atenção. Isso porque acho que são indispensáveis para participar efetivamente em uma sociedade produtiva como a nossa, que se organiza em moldes capitalistas. Se uma pessoa não tem acesso à educação e ao trabalho, ela não faz parte, fica à margem – tenha ou não uma deficiência. Assim, é indispensável que o grupo formado pelas pessoas com deficiência ou com alguma limitação, que correspondem a 24% da população total brasileira –tenham acesso a esses direitos. Para mim, a educação deve preparar para a vida; ela não é um fim em si mesma. Ninguém fica a vida toda na escola. Assim, é indispensável que ela prepare para o mundo do trabalho, desenvolvendo o potencial de crianças e jovens com deficiência. Não, infelizmente a inclusão também não é efetiva no mundo do trabalho. Há iniciativas excelentes, que têm um potencial multiplicador: empresas que relutam, no início, mas depois desenvolvem políticas inclusivas e obtém ótimos resultados, em termos de sustentabilidade, produtividade, clima organizacional.

A viabilidade da inclusão e sua contribuição para a sustentabilidade e produtividade da empresa foram demonstradas onde nunca se imaginou: na indústria da Construção Civil pesada – pesquisa feita em canteiros de obras mostrou resultados positivos, derrubando o mito da impossibilidade da presença de trabalhadores com deficiência nesses locais. Esses fatos e números mostram que a inclusão no trabalho é possível e que traz benefícios às empresas, aos próprios trabalhadores e suas famílias e à sociedade em geral: mais pessoas trabalhando, produzindo, consumindo e pagando impostos. Por outro lado, ainda há muitas resistências nas empresas, da alta direção ao chão de fábrica, passando pelo setor de Recursos Humanos. Entendo que elas vêm da falta de informação e da falta de convivência com pessoas com deficiência.

RR – Você é uma consultora bastante procurada pelas empresas. Quais os principais problemas enfrentados na inclusão de trabalhadores com deficiência? O que você recomenda?

MG – As alegações mais frequentes das empresas são: não sabem onde encontrar pessoas com deficiência e a falta de qualificação delas. Na verdade, a situação das pessoas com deficiência e o trabalho tem vários aspectos e merece estudos mais aprofundados do que os que temos. Vale a pena lembrar que as empresas que saíram na frente – ou seja, que começaram a recrutar trabalhadores logo que a lei e seu respectivo decreto entraram em vigor tiveram mais opções de escolha. As que começaram a fazer o recrutamento mais recentemente estão encontrando mais dificuldades. Por outro lado, a escolaridade das pessoas com deficiência está aumentando: elas estão chegando às Escolas Técnicas e mesmo ao Ensino Superior. Então, cabe perguntar: será que a escolaridade é mesmo tão baixa? Será que as empresas têm informações atualizadas? Ou elas estão oferecendo cargos abaixo da qualificação dos candidatos? As pesquisas do Instituto Ethos/IBOPE demonstram que os cargos oferecidos são os de início de carreira e que raramente há oportunidades de ascensão profissional.

O que recomendo: rever as vagas oferecidas e seus requisitos; ampliar os locais de recrutamento, incluindo Escolas Profissionais, EJA, cursinhos preparatórios para vestibular (especialmente os cursinhos sociais) e faculdades; ampliar a concepção de pessoa com deficiência, considerando seu potencial e não sua limitação, dando chance para que ela mostre o potencial antes de receber o “não”; lembrar que a tecnologia permite a realização de atividades antes consideradas impossíveis; usar o período de experiência permitido por lei (três meses) antes de sumariamente descartar a pessoa; contratar como Aprendiz, o que é bom para todos; revisitar sua política de pessoal, contemplando o colaborador com deficiência nas oportunidades de estudo, viagens e promoção; cuidar da acessibilidade arquitetônica, porque traz vantagens para todos.

RR– Fale um pouco sobre o seu trabalho com HIV/AIDS e deficiências.

MG – Ele representou um desafio, que trouxe muitos aprendizados e gerou pesquisas e artigos; também desenvolvemos materiais com diversos recursos de acessibilidade. Esse tema ainda é um tabu, com consequências sérias: não sabemos o número de pessoas com deficiência que contraíram o vírus. Nem é preciso dizer os impactos e consequências que isso traz, para a própria pessoa, familiares, amigos e sociedade. Ao longo do trabalho, aprendi que pessoas soropositivas também podem adquirir uma deficiência, fato que é pouco conhecido e menos ainda discutido. Fizemos um evento sobre esse tema em João Pessoa/PB, que proporcionou o encontro e a troca de vivências entre essas duas “tribos”, que foi extremamente rico. A convite de Rosangela Berman Bieler, fiz parte da equipe de Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo do Banco Mundial, participando de workshops no Brasil, América do Sul e Central sobre o tema. Poder conhecer profissionais e pessoas com deficiência de outros países foi uma oportunidade maravilhosa de crescimento pessoal e profissional, além de contribuir um pouquinho para dar visibilidade a este tema.

RR – Em suas muitas viagens internacionais como palestrante, qual a análise que você faz da situação do Brasil em relação a outros países em relação à inclusão? 

MG – Falando de forma geral, o Brasil se destaca pelo arcabouço jurídico fortemente inclusivo, que foi até reconhecido pela OEA – Organização dos Estados Americanos (2009), que o colocou entre os 5 países mais inclusivos das Américas. Em relação ao Primeiro Mundo, ainda estamos devendo em acessibilidade arquitetônica, acesso à educação, a equipamentos e recursos disponíveis, ao trabalho, embora muitos países não tenham lei de cotas. É complicado comparar, porque são realidades muito distintas, em países com histórias e culturas tão diferentes das nossas. Nos países que se envolveram em guerras, por exemplo, os soldados veteranos geralmente são respeitados como heróis, não há essa imagem social negativa que ainda temos. Prefiro conhecer o que há de positivo e pensar em como reeditar aqui, como inspiração. Não faz sentido tentar simplesmente copiar o que funciona em outros lugares e nem ficar lamentando o que não temos. Como disse, sou otimista (risos) e prefiro focalizar as conquistas; elas me estimulam a continuar enfrentando os desafios.

RR – Quais os pontos principais de suas palestras? Mesmo variando os temas, há conteúdos básicos que você passa ao público?

MG – Que pergunta interessante! Nunca tinha pensado nisso… Cada palestra é única: procuro me ater ao tema e ao público. Mas tem sempre alguns pontos que abordo, se estiverem de acordo com o tema proposto e sem forçar a barra: a importância da informação e da comunicação; a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e referências para saber mais. Também disponibilizo as palestras, caso alguém tenha interesse – afinal, informação tem que circular.

RR – Apesar de ser uma experiência recente, depois de tantas edições conversando com os leitores da Revista Reação, o que você gostaria de dizer a eles? Qual o seu recado?

MG – A conversa começou há pouco mais de um ano, em janeiro de 2013 e é sempre muito bom pensar no que escrever. Eu gostaria de dizer para serem cada vez mais inclusivos, cada um em seu espaço. A inclusão se fortalece a cada dia, com nossas ações, desde as mais simples. O Luiz Baggio Neto, um militante “jurássico” que infelizmente não está mais entre nós, dizia que o fato de ir para a rua, de circular, equivalia a um discurso. Concordo com ele.

Agradeço imensamente à Revista Reação a possibilidade de ter uma coluna e principalmente esta entrevista. Sinto-me muito honrada e agradecida: foi uma oportunidade de lembrar momentos do passado e partilhar ideias e valores, que são muito importantes para mim.

Marta Gil autografando seu livro.

Fonte: Revista ReaçãoSite Externo..

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Gil Porta às 10:42.
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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014.

Luta por direitos mudou vida de irmãs anãs

Na foto, Marlene e Lelei.
Marlene e Lelei foram incentivadas pelos pais a ser independentes | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Flavia Boni Licht e Nubia Silveira*

Olinda Marlei Lopes Teixeira desde criança é conhecida como Lelei. Ela e a irmã Terezinha Marlene Lopes Teixeira, a Marlene, nasceram em Jaquirana (RS) e passaram a infância e boa parte da adolescência em São Francisco de Paula (RS). Lelei, jornalista formada pela Unisinos, e Marlene, professora com doutorado em Linguística pela PUCRS, têm ainda em comum o fato de serem anãs. E com a mesma altura, 1m11cm e peso, 31quilos. Essa condição levou-as a buscar soluções, desde as coisas mais simples do dia a dia, como subir num ônibus ou sacar dinheiro no caixa eletrônico, até a decisão de morar sozinhas, com as devidas adaptações feitas em casa. As irmãs sofreram preconceito, enfrentaram o espanto de algumas pessoas, mas o fato de não se intimidarem diante das dificuldades mudou a forma como são tratadas pela sociedade. Falta muito, porém, para que a diferença seja tratada com a atenção que merece, como Lelei e Marlene contam nesta entrevista ao Sul21.

Sul21 – Os pais de vocês eram anões? Houve outros casos na família?
Marlene –
Os outros casos nós ficamos conhecendo depois. Nossos pais não eram anões e no início não se deram conta do nosso nanismo. Tínhamos quatro ou cinco anos, quando fomos levadas a Taquara, onde um médico nos encaminhou a um colega, Dr. Décio Martins Costa, em Porto Alegre, pessoa fundamental nas nossas vidas. Ele fez todos os exames possíveis. Disse que havia tipos de nanismo que podiam ter solução, mas o nosso não, pois era uma questão genética. Tranquilizou a família, disse que éramos inteligentes e incentivou que o pai nos colocasse para estudar.

Lelei – Nosso pai, Nestor da Silva Teixeira, e nossa mãe, Coralia Lopes Teixeira, eram pessoas simples, mas de uma sabedoria impressionante. Ela era dona de casa, ele pequeno fazendeiro. Temiam que a gente não desse conta da vida, que não pudéssemos trabalhar, e fizeram um grande esforço para que estudássemos.

Marlene – Sempre fomos muito estimuladas a ser independentes, contrariando a tendência de proteger um filho com problemas. Fui para a escola. Como as crianças de sete anos são, normalmente, muito espontâneas, riam de mim. Eu ia chorando, queria ficar em casa, mas o pai não deixava. Ele me levava pela mão e me largava na porta da escola.

Lelei – Marlene e eu não fomos criadas juntas. Eu fui criada com os avós maternos – Dorvalina Rodrigues Lopes, a Vó Sinhá, e Juvenal de Oliveira Lopes – porque a Marlene ficou doente e precisava de muitos cuidados da nossa mãe. Quando foram me buscar, meu avô estava tão apegado a mim e pediu que eu continuasse lá, na vila de Jaquirana, onde ele tinha uma venda e era escrivão.

No primeiro dia de escola, entrei na fila e alguém gritou: anã! Eu saí da fila chorando e fui para casa. Disse que não queria ir mais. Uma tia, Dalva Lopes Silva, me levou até o diretor da escola, Aldo Lopes. Ele me pegou pela mão, me apresentou em todas as turmas, dizendo que eu era a nova colega, que todos precisavam me respeitar. Quando fui para São Francisco de Paula estudar já não estranhei tanto.

Sul21- Quando vocês se deram conta de que eram diferentes?
Marlene –
Eu fiquei com o registro das consultas com o Dr. Décio, de ele ter dito que talvez pudesse ter uma medicação. Um dia, com uns sete anos, perguntei para a mãe sobre o remédio e ela disse: “minha filha, o remédio não vem, não tem remédio”.

Na foto, Marlene.
Marlene, professora universitária: “Até o confronto com outras crianças, na escola, nas ruas, não tínhamos muita noção do problema. A gente era uma espécie de coisa querida da família”| Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21- Porque na família nunca aconteceu nada de restrições…
Marlene –
Até o confronto com outras crianças, na escola, nas ruas, não tínhamos muita noção do problema. A gente era uma espécie de coisa querida da família. Todos nos ajudavam, eram superparceiros, os primos gostavam de brincar com a gente. Os irmãos, Mariza, a mais velha, e Rui, o mais novo, foram sempre acolhedores.

Lelei – Comecei a sentir diferença quando saí de casa, de São Francisco, para estudar em Novo Hamburgo. O grande baque foi na adolescência, quando naturalmente tu te sentes deslocado.

Marlene – Fui estudar em Novo Hamburgo no Colégio Estadual 25 de Julho, na época muito prestigiado e que exigia exame de seleção. Fui acolhida pelo tio Plínio Rodrigues Lopes e pela família dele. Com 16 anos, me dei conta de que não conseguia me vestir sozinha e que precisava aprender.

Lelei – Tomar conta da vida era mais complicado. Eu, por ser criada com a avó junto com vários netos, era mais independente: levantava cedo, fazia fogo no fogão de lenha. Como a Marlene saiu de casa primeiro, foi na frente, quando cheguei a Novo Hamburgo tudo foi mais fácil. Fui para a mesma escola. O impacto já tinha acontecido.

Marlene – Aí tem uma coisa muito impressionante: quando estamos juntas, as pessoas ficam mais atentas. Acho que de duas provocamos um encantamento nos outros. Ficam na nossa volta, perguntam se somos gêmeas.

Sul21– Foste para Novo Hamburgo com 16 anos, como a Marlene?
Lelei –
Mais tarde, com 17. Fiz o curso Clássico.

Marlene – Eu fiz o curso Científico. Queria uma profissão que me deixasse quieta, porque achava que não daria para trabalhar com público. Queria ser bioquímica. Foi bem difícil esse período. O que me salvou é que escrevia bem. A professora de português identificou em mim um talento para as letras, mas eu não queria ser professora. Ela me disse que eu poderia ser tradutora e me animou para a carreira.

Na foto, Lelei.
Lelei, jornalista: no dia em que se formou no Clássico levou o título de mehor aluna | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21– E para ti, Lelei?
Lelei –
Em Novo Hamburgo, no Clássico, eu tinha colegas interessantes, mas na época era muito tímida. As pessoas me olhavam muito e eu me sentia estranha, mas chegava na aula e adorava. Ia super bem. No dia da formatura, levei o prêmio de melhor aluna. Foi um período difícil, mas muito interessante por outro lado. A Marlene já estava em Caxias, tinha uma turma muito legal e qualquer coisa boa ela trocava comigo. Eu sentia que tínhamos possibilidades na vida. Fiz vestibular na UFRGS e não passei. Cheguei a pensar que não poderia estudar por questões financeiras. Aí apareceu a Unisinos, passei na seleção. E a família veio morar em Porto Alegre.

Marlene – Comecei o curso de Letras em Caxias num período muito estimulante, com professores ótimos. Consegui me destacar. Em Literatura, principalmente. Fui morar com amigas em uma casa que a gente chamava de “Beco”. Lá aprendi que eu podia lavar a roupa, colocando um banquinho junto ao tanque. Descobri que podia ter uma calça jeans, roupas mais produzidas, tamanquinhos, frequentar bares, boates, enfim fui me inserindo mais, com o estímulo das amigas. Como o pai resolveu reunir os filhos em Porto Alegre, terminei o curso de Letras na PUC.

Sul21– E qual foi a primeira vez que se deram conta das dificuldades no cotidiano?
Marlene –
Antes eu achava que o problema era meu, que eu tinha que me virar. Recentemente é que me dei conta de que a responsabilidade não é minha.

Lelei – A gente tinha aquela coisa de se virar, de dar um jeito, ser criativo. Tem a ver com essa coisa familiar do nosso pai, que dizia: vocês vão para o mundo, ser independentes.

Marlene – Não me ocorria que um interruptor de luz pode ser mais baixo, em casa, por exemplo.

Lelei – Nem a mim. Foi quando conhecemos o Custódio (arquiteto Luiz Antônio Bolcato Custódio), em 1978, que a gente descobriu que podia tornar as coisas mais acessíveis. Ele foi importantíssimo para nós. Chegou lá em casa, viu que o pé direito do apartamento era alto. Criou um mezanino muito charmoso, dividindo a peça em quarto e escritório, que era um sucesso. Depois, a arquiteta Ceres Storchi também nos ensinou a facilitar a vida. Maçaneta de bola, por exemplo, que a gente não consegue girar, na nossa casa tem que ser de alavanca. Mas acessibilidade para valer, como se conhece hoje, a consciência dos direitos que temos, foi depois de conhecermos a Flavia (arquiteta Flavia Boni Licht). Foi uma descoberta.

Marlene – Depois da instituição do caixa eletrônico, a gente ia ao banco e subia numa cadeira, que geralmente tem rodinha. Um dia, um guarda sugeriu que eu pedisse ao gerente uma escadinha. E a gente conquistou essa escada na agência do Banrisul onde temos conta. Na Unisinos, tenho estrado na sala em que trabalho. E assim, começamos a reivindicar.

Sul21– Vocês têm ideia de quantos anões existem no Brasil?
Lelei –
Tenho uma informação de 18 milhões, mas é uma informação antiga. Falha nossa. Precisamos nos atualizar sobre isso.

Banquinho.
Um banquinho ajuda a atingir os armários, por exemplo, que estão mais altos | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21 – Como conseguiram falar no assunto nanismo?
Lelei –
Marlene e eu, irmãs, amigas, vivendo juntas, com o mesmo problema, não conversávamos sobre isso. E eu não dizia essa palavra; ‘anão’ era, para mim, palavra proibida. Convivia com muita gente, mas esse assunto nunca era tocado.

Marlene – Quando via um anão, eu atravessava a rua. Não gostava de ver. A aceitação veio depois da análise: poder se olhar no espelho, descobrir a própria beleza… Hoje, tenho vários espelhos em casa, sem problemas. Ainda faço análise. Minha grande descoberta é que de perto ninguém é normal, como canta Caetano Veloso.

Lelei – A gente começa a se olhar sem nenhuma máscara. A se relativizar, a não se achar vítima, o que é fundamental. Hoje, não me sinto nem um pouquinho vítima, não merecedora das boas coisas da vida. E encaro o nanismo com muita naturalidade.

Sull21 – Vocês brigam muito?
Marlene –
Eventualmente. Já briguei no supermercado Zaffari da Rua Bordini, que frequentamos há muitos anos porque subiram o totem de passar o cartão e não sabiam lidar com a nossa dificuldade. Pedi uma escada, mas não providenciaram. Agora, para não brigar, pois ficou chato, peço um engradado e subo.

Sul21– No dia a dia, qual a maior dificuldade para vocês? Desde o momento de acordar, fazendo um roteiro do dia?
Lelei –
Em casa, problema nenhum. O que não é adaptado, a gente facilita, com banquinho e outros equipamentos. É uma casa confortável para nós. Na rua, calçada não é problema; ônibus, transporte público de um modo geral, é mais complicado porque temos dificuldade para nos segurar; balcões muito altos. Atravessar a rua, por exemplo, não é seguro, pois os motoristas podem não ver a gente. No trabalho é tranquilo.

Tentando alcançar o botão do elevador.
A falta de acessibilidade torna o cotidiano mais difícil | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21.

Sul21 – Uma coisa que conta muito para o idoso é o pouco tempo que a sinaleira fica aberta aos pedestres. E para vocês?
Marlene –
Pela necessidade de adaptação, a gente é muito ágil.

Lelei – Ônibus não é um transporte muito inseguro. Eles não esperam a pessoa entrar, sentar, já vão arrancando, e a gente fica muito vulnerável.

Marlene – Bufê é complicado. Normalmente, a gente não alcança e tem que pedir para alguém servir.

Lelei – As pessoas têm boa vontade, normalmente estamos com amigos, mas, às vezes, há necessidade de pedir ajuda a um garçom.

Marlene –
No Trensurb, por exemplo, não consigo botar nem pegar o bilhete do outro lado. Não tem funcionário para ajudar e todo mundo passa no pique, nem olha. É difícil achar uma pessoa atenta no cotidiano agitado da cidade. Há um grande trabalho a ser feito no Brasil neste sentido.

Sul21- Sobre a questão do lugar … Ninguém espera um anão dando aula.
Lelei –
Aí enfrentamos uma espécie de hipervalorização. Embora profissionalmente igual a todo mundo, se é vista como genial. Parece difícil acreditar que uma pessoa na nossa condição tenha uma boa conversa, trabalhe, reflita sobre a vida, viaje, faça terapia.

Marlene – Muito facilmente a gente é transformada em heroína. Dei entrevista a um menino do Jornalismo da Unisinos. Pedi: não me faça uma heroína, sou uma pessoa muito comum. Até que ele perguntou: “como a senhora chegou até aqui?” Foi uma consequência natural, eu disse, tive sorte, tive pais amorosos, enfim. Quando vi a matéria, a “heroína” estava ali.

Sul21- Vocês não gostam do termo superação. Todo mundo não se supera a toda hora?
Lelei –
Convivemos com pessoas de estatura normal que têm muito mais dificuldades do que a gente, é uma coisa da vida delas. Eu ter feito Jornalismo e trabalhar pode parecer sobrenatural para muitas pessoas. Mas, ao contrário, foi natural, não fiz plano nenhum. Trabalhei em vários veículos escrevendo, fazendo produção e não enfrentei preconceito. Pelo contrário, alguns colegas nem se davam conta das minhas dificuldades.

Marlene – Eu também não me lembro de ter sofrido preconceito no trabalho. Acho que é mais um estranhamento, por ser diferente e viver em espaços formatados para pessoas bem mais altas do que eu.

Sul21– E como é o contato com as crianças? Qual a reação delas?
Lelei –
Criança é muito franca. Algumas dizem, sem problemas: “tu é feia, tua mão é muito gorda, teu braço é torto”. Isso na adolescência é difícil de ouvir. Mas normalmente, as crianças se encantam com a gente, querem brincar. Há uma sintonia grande que passa pelo tamanho. O que mais me assusta é a criança que manifesta medo, mas são raras.

Marlene – Às vezes as crianças não se dão conta e as mães chamam a atenção delas para a gente.

Lelei – Irrita um pouco quando os pais ficam mostrando, apontando, quando a criança nem notou nada.

Marlene – De certo modo, corremos riscos ao sair na rua a cada dia. Anões são vistos como figuras misteriosas, míticas, duendes. Às vezes, também pelo lado do sinistro. Há alguns anos, tivemos uma experiência ruim em Natal. Saímos sozinhas e, ao entrar em uma ruazinha, as crianças vieram todas para a nossa volta, se mediam com a gente, puxavam no braço e algumas começaram a atirar pedras. E as pessoas na janela, olhando, paradas. Não sabíamos se íamos para frente ou se voltávamos. Lembro de dizer para a Marlene: vamos ter calma. Atravessamos a rua toda com as crianças atrás, ninguém fez nada.

Lelei – Quando fomos para Machu Picchu tivemos uma experiência semelhante, na cidadezinha de Aguas Calientes. Veio todo mundo, nos pegando, parecia que era para brincar, mas fiquei assustada.

Marlene – Bem antes de Porto Seguro ser famosa, estivemos lá e toda a cidade andava em procissão atrás de nós. Uma mulher dizia: cruz credo, cruz credo. Em Morro de São Paulo também, mas as crianças eram muito carinhosas. Na rodoviária de Mossoró, RN, nós no meio e as pessoas todas na volta, olhando. Enfim, são muitas as situações, mas aprendemos a lidar.

Lelei – Já ouvimos muitas vezes a pergunta: de que circo vocês são? Antes eu me ofendia; hoje acho maravilhoso.

Sul21- E no exterior?
Lelei –
Na Europa, nossa experiência foi tranquila. As pessoas ajudam a carregar a mala, dão lugar no metrô, as estações de trem, em geral, oferecem atendimento para pessoas com deficiência. Viajamos sozinhas e não temos grandes dificuldades.

Sul21– Mas, voltando ao cotidiano, como é a situação quando há necessidade de exames médicos?

Lelei – Exame de esteira, por exemplo, não dá para fazer.

Marlene – O despreparo é grande, não só em relação à acessibilidade. Há pouca informação sobre nanismo do ponto de vista médico. Qual o peso ideal, que dosagem de remédio é adequada…

Lelei – Uma vez fui parar no pronto socorro por dose excessiva de remédio. Não se deram conta do peso e da altura ao prescrever.

Marlene – Já tomei anestesia em dentista e cheguei em casa delirando.

Lelei – Ouvi de um médico: “eu nunca operei as costas de uma pessoa do teu tamanho, não sei o que vou encontrar, só depois de abrir”. Quando fui fazer dieta, a nutricionista disse: “eu não sei quanto tu tens que pesar. Não pode ter peso de criança nem de adulto. Vamos experimentando.”

Sul21– Quais as coisas que mais incomodam?
Lelei –
Do ponto de vista da acessibilidade, balcões altos, elevador inacessível, insegurança no transporte coletivo, filas, banheiro público (não conseguimos alcançar a pia para lavar as mãos), eventos em que as pessoas ficam de pé.

Marlene – Incomoda também a dificuldade de encontrar roupa pronta. Sapato não se acha. Temos que mandar fazer. E custa caro.

Sul21 – Há alguns anos, houve uma grande mudança na legislação, nas próprias conversas entre as pessoas. Vocês sentem alguma melhora de um tempo para cá?
Lelei –
A prática é uma coisa que ainda está muito distante da legislação. Mais a gente mudou do que as coisas mudaram ao nosso redor. Mas a consciência do direito ao acesso que temos hoje nos ajuda bastante.

Marlene – Não melhorou tanto. Eu viajo muito, convidada para dar palestras. Chego ao hotel e não alcanço em nada. Apesar do discurso pela diferença, poucos hotéis se preocupam com acessibilidade.

Sul21 – E no lazer, na cultura, quais as dificuldades?
Marlene –
No cinema, o problema é o tipo de cadeira. Algumas têm o encosto muito alto. E se alguém senta na frente, a gente não vê. Sempre procuramos lugares estratégicos.

Lelei – Tem lugares que não dá para ir, como mezaninos e galerias de teatro, por exemplo. Livrarias também não é fácil, as prateleiras são altas, temos que pedir ajuda.

Sul21- O que tem de bom na situação?
Marlene –
O ganho secundário. As pessoas parecem querer compensar de algum modo a nossa dificuldade. Tem pessoas que se encantam pela gente. Como tem o momento de espanto e rejeição, tem o de admiração.

A gente sempre teve muita curiosidade pela vida. Não me considero uma pessoa que não tenha tido boas experiências. O saldo é maravilhoso. Ter uma boa família, amigos, trabalho. O respeito profissional que conquistamos. Aprender, estar aberta para novas experiências e dar conta da própria vida é muito legal. O contato com a arte foi muito importante para nós. Desde sempre, gostamos de literatura, teatro, música, cinema. A arte te mostra tanta coisa, te ajuda a perceber o mundo. Não ficamos presas no lado obscuro da vida. Encaramos o que se apresentou para a gente sem vitimização. Sabemos a dor e a delícia de ser o que somos, voltando a Caetano Veloso. Há muito ainda para melhorar e estamos atentas.

Lelei – Para finalizar, gostaria de lembrar um texto que escrevemos com a Flavia, arquiteta, sobre acessibilidade, e que resume bem esta questão:

“Em casa, é possível adaptar alguns equipamentos a suas dificuldades. Na rua, isso é quase impraticável. Num mundo feito por e para pessoas grandes – “normais” – que responde a um padrão histórico-cultural já traçado, as limitações são muitas para essa “gente pequena”. E essa gente vai acumulando dificuldades e frustrações. Aqui computamos apenas algumas, as físicas, visíveis a olho nu.
– um anão não alcança nas prateleiras dos supermercados,
– um anão tem de ajoelhar-se para subir no ônibus,
– um anão não alcança nos botões dos elevadores dos prédios,
– um anão não pode telefonar nos orelhões,
– um anão não alcança nos balcões de bancos,
– um anão não alcança nos balcões de lancherias e bares,
– um anão não alcança nos interruptores de luz,
– um anão não alcança em bilheterias de maneira geral,
– um anão não alcança o espelho de banheiros públicos para ver o próprio rosto e nem nas pias para lavar as mãos,
– um anão não pode sentar-se em qualquer lugar no cinema ou no teatro,
– um anão não encontra sapatos,
– um anão não encontra roupas,
– um anão não pode ficar no meio da multidão ou em lugares muito cheios,
– um anão encara cotidianamente muitos “nãos”.

Nessas situações, eles dependem muito da boa vontade, da solidariedade e do bom humor dos outros e dos mecanismos que cria para a sua sobrevivência, defesa, bem-estar. Caso contrário, têm a “faca e o queijo na mão” para transformarem-se em grandes vítimas do mundo, ingrediente que recheia os muitos discursos sobre a exclusão.
É só encarando a diferença, falando sobre ela, abrindo espaços e buscando formas de viver bem com as suas peculiaridades que anões e todos aqueles que sofrem por algum estigma podem impor o seu jeito, subvertendo a vitimização e o preconceito.
O discurso social hoje aponta para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorá-la ou mascará-la. A sociedade parece começar a entender que a grande riqueza humana está na diversidade dos seres e das ideias, no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades”.

*Colaborou Lorena Paim.

Fonte: Sul 21Site Externo..

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Gil Porta às 11:07.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012.

Um guia muito especial

Shirley Pacelli.

Foto atual de Gil e Telma (por Shirley Pacelli / EM).Gil e Telma, em pose igual à da primeira foto que registrou a união dos dois como namorados, são os responsáveis por inédito guia de serviços on-line para pessoas com deficiência.

“Nós não fomos visitar o motel in loco, mas soubemos que só tinha um adaptado na cidade”, brinca Telma de Oliveira, de 52 anos, em meio às risadas do marido, Gilberto Porta, de 51. Ambos têm deficiência de locomoção: Gilberto, o Gil, é cadeirante, e Telma anda com auxílio de órtese (dispositivo destinado a corrigir uma função muscular, esquelética ou neurológica) e bengala. O casal é responsável pelo site e blog BH Legal (www.bhlegal.netSite externo.), incrível iniciativa de um guia de produtos e serviços, exclusivo da capital mineira, para pessoas com deficiência.

A tecnologia está presente desde o início da história dos dois. Eles se conheceram por meio de uma rede no site Entre amigos, destinado a pessoas com deficiência. Na época, Gil morava em São Paulo (SP) e eles conversavam pelo esquecido ICQ, programa de bate-papo virtual. Depois do primeiro encontro em terras paulistas, ele veio visitar Telma em Minas. De iguaria em iguaria, a família inteira conquistou Gilberto também pelo estômago e ele não voltou mais para a antiga morada. O primeiro desafio, em Belo Horizonte, veio quando precisou trocar uma almofada de gel que havia furado. “Normalmente elas têm garantia de 30 dias e no 31º furam”, ironiza Telma. O marido conta que ninguém sabia onde comprar uma nova almofada e que, por fim, pediu ao irmão para trazer uma de São Paulo.

Quem e onde.
O problema foi o ponto de partida para a criação do BH Legal. Telma explica que o setor de ortopedia e artigos cirúrgicos é até bom, mas não costuma haver muita divulgação. “Belo Horizonte é uma cidade grande. Alguém em algum lugar faz um sapato sob medida. Mas onde eles estão?”, questionou-se na época. Para economizar tempo e dinheiro gastando horas em cima de catálogos telefônicos para descobrir as lojas e serviços, eles resolveram criar o próprio guia.

Em meados de 2006, o casal fez um banco de dados e colocou o site no ar. A página virtual tem cerca de 500 visitantes por dia. Ela é dividida em 10 seções, entre elas comércios e serviços, empregos, turismo, governo, lazer etc. Em cada item, eles indicam o nome, endereço e contatos do estabelecimento. Alguns posts recebem selos de teste e aprovação. Em outros, há dicas, como a existência de provadores exclusivos para cadeirantes na loja de uma grande rede de roupas. Na home, eles deixam claro que a iniciativa é particular e independente. Além disso, eles destacam que as informações são enviadas por amigos ou colhidas em publicações especializadas, e que toda dica é sempre bem-vinda. Os leitores, volta e meia, dão os pitacos: “Eu fui ao motel adaptado e é muito bom, mas não tem hidromassagem” ou “essa não é a única autoescola com carros adaptados, tem outra no Padre Eustáquio”.

Toda a programação do site foi feita por Gilberto, que se preocupou em fazer um projeto com recursos de acessibilidade. Em um dos menus, há um mapa das teclas de atalhos para cada comando. Gil é tetraplégico e tem o movimento das mãos reduzido. Ele explica que cegos e pessoas com algum tipo de doença que provoque espasmos não usam o mouse. Algumas pessoas clicam nas teclas utilizando objetos presos à boca.

Espaço para conversar.
Como o site BH Legal tem viés mais estático, o casal sentiu falta de um espaço para uma prosa com o leitor e criou um blog de mesmo nome. Polêmicas como a demora na aprovação de um projeto de lei de aposentadoria em tempo especial para pessoas com deficiência são os posts mais lidos e comentados. Outra seção campeã de leitura são as crônicas da colaboradora Adriana Lage sobre as viagens que fez. Gil conta que a mais acessada já foi vista 4,4 mil vezes.

Um dos motivos esbarra com técnicas de SEO (otimização de sites para motores de buscas): diversas pessoas buscam por uma música do Jota Quest no Google e caem na crônica intitulada “Onde tenha sol, é pra lá que eu vou”. As últimas publicações do blog vão para a home do site. Assim, sempre tem notícia fresquinha no endereço.

“Você nunca sabe quando vai se deparar com escadas, se vai conseguir vaga em estacionamento, se o local que escolheu terá um banheiro adaptado. A internet abriu muitas portas para pessoas com deficiência de locomoção. Uma delas é a da vida social. É difícil sair de casa, tem essa peculiaridade.”, explica Telma. Ela acrescenta que, além da troca de ideias e informações, a web ajudou até na educação, por meio de seus cursos on-line.

Gil diverte-se ao lembrar que muitos internautas fazem confusão e imaginam que o site é do governo. “Eles fazem uma busca na internet, chegam a uma página específica do BH Legal e começam a reclamar da falta de ação dos representantes como se fossemos nós dois”, conta. Ele explica que a ideia é tornar o site mais conhecido por meio da integração com redes sociais, como Twitter e Facebook. “A gente tem que mostrar a cara”, justifica Telma. O marido logo completa: “Se não for assim, o comerciante vai se desculpar, como sempre, dizendo que não vai nenhum deficiente. Sai a turma toda, a casa não é acessível? Todo mundo boicota.”

Clique também:

Bengala legal.
» Se tornou referência em blogs sobre deficiência. Toda a estrutura foi desenvolvida de forma a oferecer acessibilidade web aos leitores. Escrito por Marco Antonio de Queiroz, conhecido como MAQ, que é cego. Trata de diferentes temas, como educação inclusiva, legislação e trabalho. Tem uma seção só com audiodescrições.
http://bengalalegal.com.

Mão na roda.
» Blog escrito a 10 mãos: quatro blogueiros cadeirantes e uma “andante”. Tem guia de atrações turísticas com avaliações de acessibilidade de cada local. Em um mapa é possível identificar locais acessíveis no Rio de Janeiro (RJ). Há também conteúdo sobre temas diversos como esporte, equipamentos e saúde do deficiente.
http://maonarodablog.com.brSite externo..

Blog da audiodescrição.
» Traz as últimas novidades da audiodescrição no Brasil e no mundo. Também busca apoio para investimento na área. Segundo os blogueiros, os produtores culturais veem a audiodescrição ainda como despesa e não como investimento em um público potencial de 25 milhões de consumidores. Traz as leis, e toda a trajetória da batalha por mais acessibilidade no país.
http://blogdaaudiodescricao.com.brSite externo..

Entre amigos.
» Rede de informações sobre deficiência. Tem o objetivo de disponibilizar informações, orientar e oferecer diferentes tipos de suporte, via internet. Tem notícias, calendários de eventos, e na seção Tribuna Livre é possível publicar seus próprios textos sobre o tema.
http://www.entreamigos.com.brSite externo..

Ranking do Google.
André Carneiro, diretor de marketing da The Agency, explica que os padrões de acessibilidade são a base para qualquer trabalho de otimização de sites. “Em meados de 2005, ter uma forma indicada pela W3C (consórcio internacional de modelos para web) já representava um diferencial para aparecer mais bem ranqueado no Google”, conta. Ele explica que os robôs dos buscadores são como os deficientes visuais: eles não enxergam o conteúdo para indexação se ele não estiver acessível.

Segundo Carneiro, desenvolver sites acessíveis hoje é muito fácil. Existem plataformas prontas, como o WordPress, que permitem que pessoas sem conhecimento técnico aprofundado construam sites acessíveis e não quebrem a cabeça com códigos. Ele conta que, normalmente, o maior obstáculo é a falta de conhecimento de quem tem o poder de decisão sobre o projeto. “Já vi donos de empresa pedindo, por exemplo, para retirar legendas de fotos, alegando que estavam comprometendo a estética da página. Eu respondo sempre que projetos que priorizam a estética acima de tudo falham lindamente”, ressalta.

Fonte: Estado de MinasSite externo.
Reproduzido do site: BH LegalSite externo..

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