À Flor da Pele - Inclusão das Crianças com Deficiência Visual.

14/07/2010 - Marco Antonio de Queiroz - MAQ.

Prefácio.

Eu era um sujeito comum. Estudante do curso de história do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - IFCS, localizado no Largo de São Francisco, Rio de Janeiro. Estávamos de férias e exatamente no sábado de carnaval de 1978, com meus 21 anos, encostei o carro na garagem, entrei em meu quarto, deitei e dormi. Acordei cego.

Após algumas tentativas de recuperação da visão que de nada me valeram, como é natural de minha personalidade, assumi minha nova realidade e entrei em processo de reabilitação, que considero estar passando até hoje.

Aprender a andar com a ajuda de bengala, a me vestir tocando as roupas e descobrindo detalhes que lhe eram únicos e as destacavam das outras, fazer meu lanche sozinho, sair de casa com a cara e a coragem de quem nunca passaria da porta de entrada nessas condições, quanto mais se essa porta de entrada momentaneamente fosse a de saída e... continuar meus estudos, foram os novos desafios que, convivendo com o luto pelas perdas impostas pela deficiência visual e a provação de conhecer os novos limites e tentar diminuí-los ao máximo, eu me lançava.

Com a ajuda de amigos, transferi-me da UFRJ para a PUC-Rio. A diferença estava na locomoção: a primeira encontrava-se no centro da cidade, a segunda no bairro ao lado.

Foi na faculdade que comecei a perceber, com três meses de cegueira total, fora de casa e afastado das pessoas mais próximas, as dificuldades de uma pessoa com deficiência visual estudar.

Ser cego é uma aprendizagem. O mínimo de teoria e o máximo de prática. Ser estudante cego e sem experiência de sua deficiência, em 1978, foi simplesmente uma aventura!

Toda a tecnologia que tínhamos eram os gravadores de fita cassete, onde podíamos gravar as aulas para transcrevê-las depois para o Braille ou, simplesmente, escutá-las novamente. Amigos leitores que gravavam os livros e capítulos dos livros recomendados nas bibliografias de cada professor; e resumos feitos por nós de tudo que aprendíamos assistindo às aulas ou escutando o que os leitores haviam lido.

Eu me saí muito bem para quem, cego novo como eu, ir à faculdade sozinho já era um milagre, arrumar leitores que gostassem da matéria, outro deles, e também para quem era o único cego de toda a universidade, sendo uma curiosidade natural numa identidade de pessoa com deficiência com a qual ainda estava me acostumando.

Ouvia-se falar em integração, preconceitos, sociedade, mas, somente muito depois, em inclusão das pessoas com deficiência.

Neste livro, esses e outros conceitos são abordados. Definir, por exemplo, integração como sendo o movimento que parte da pessoa com deficiência batendo à porta da sociedade à procura de oportunidades, já estamos acostumados a ouvir. Definir Inclusão como sendo a sociedade abrindo os braços para receber as pessoas com deficiência e nos dando a tal oportunidade, também.

Para além do conhecimento desses conceitos teóricos, precisamos sentir em nós mesmos o que eles valem e seus poderes de transformação.

Dessa forma, quando comecei a ler um dos títulos deste livro denominado "Preconceitos", unido à noção de pedagogia da escola inclusiva, minha atenção se redobrou e comecei a vislumbrar um futuro de pessoas lidando melhor com eles e mais cônscias de como são provocados, esquecidos e diluídos. A autora escreve:

“O preconceito não é natural no ser humano, não é nato. As ideias vão sendo incorporadas sempre de fora para dentro e sempre em processos contínuos de experiências e trocas, não de forma imediata. Os preconceitos são formados, introjetados a partir das relações (...)".

“O preconceito e a discriminação podem ser frutos de desconhecimento, sendo assim, abordar o preconceito como parte da educação inclusiva é essencial, já que esta tem a sua base exatamente nas experiências com o diferente, nas trocas, na introdução de valores.” (...).

“Além dos fatores sociais devem-se considerar também fatores psíquicos, necessidades psíquicas individuais que contribuem muito na formação do indivíduo preconceituoso." (...).

Com Rose Reis, a relação professor, escola, preconceito é trabalhada de tal forma que começamos a entender melhor como e porque passamos pelos preconceitos de algumas pessoas.

"Preconceituosos são formados a todo instante, considerando que, por meio da transmissão da cultura, são passadas ideias e valores para os indivíduos, que acabam por transmiti-los, propagando preconceitos. A falta de reflexão pessoal, de consideração sobre conceitos e ideias nos faz preconceituosos.".

Certa vez, discuti com um colega cego sobre racismo. Posso entender melhor, dessa forma, porque alguns cegos possam ser racistas mesmo sem ver a cor de pele das pessoas. O ambiente, a família e por vezes a própria escola transmitem as ideias às crianças que, sem uma interferência ativa de alguém que a faça refletir, ponderar, sair do conceito não experimentado, acaba permanecendo com a ideia original que lhe embutiram.

Assim, a diferença dos diferentes nas crianças em uma escola inclusiva obriga o preconceito, caso já formado, a ser questionado pela convivência, estando aí também o papel fundamental do professor e da escola inclusiva:

"Quando se fala em educação inclusiva, a escola tem papel fundamental no combate ao preconceito, porque participa da formação das crianças como cidadãs. Por isso, deve estar sempre preocupada em não reproduzir estereótipos, ou rótulos, que são um conjunto de atributos direcionado ao alvo do preconceito, redutor da percepção de qualidades presentes no indivíduo".

(...) "Sendo assim, o estudo sobre o preconceito e suas características é de fundamental importância para o desenvolvimento deste trabalho, por que estará constantemente relacionado à educação inclusiva e com o papel do professor em sala de aula. O modelo de inclusão proposto busca diminuir os preconceitos existentes na sociedade a partir da escola, pois, na medida em que a criança que é considerada diferente das demais começa a frequentar uma sala de aula regular, começam a quebrar preconceitos com os demais alunos, dando uma atenção especial a esse novo colega, auxiliando-o no seu processo de socialização com o restante da sala de aula.".

O foco de Rose Reis não é o preconceito, mas a educação inclusiva, a escola inclusiva para pessoas com deficiência visual especialmente. Entretanto, não existe em suas preocupações eliminar qualquer outra deficiência de seus estudos, mas por exigências da pesquisa acabou por concentrar-se em pessoas com deficiência visual:

"A tendência das últimas décadas tem sido a de promover a inclusão e tem havido inúmeros debates, muito embora esteja fundamentada em princípios éticos, dentre os quais se destacam o reconhecimento e o respeito aos preceitos e oportunidades iguais perante a diversidade humana. Assim sendo, a inclusão social exige que sejam garantidas as condições apropriadas de atendimento às características individuais. Tratando-se do segmento constituído por pessoas com deficiências, a inclusão social se traduz pela garantia do seu acesso imediato e contínuo ao espaço comum da vida em sociedade na escola.".

Assim, mesmo sabendo que a família é o grande molde de pessoas que a escola procura lapidar, que a escola é uma família ampliada, mas diferente, que a sociedade é a grande família "administrada" pelo Estado, Rose Reis baseia seus estudos em algo que tenha de ser mais humano, mais próximo e inteligível: "No contexto da inclusão, o foco principal é o trabalho do professor".

Entretanto, no processo inclusivo. Professor, coordenador pedagógico e Diretor nunca podem estar separados e praticando pedagogias diferentes, nem mesmo delegar ao próximo o trabalho que tem de ser em conjunto. Daí surge a questão em que se baseia a pesquisa de Rose Reis: a análise das ações da escola, a participação dos gestores, coordenadores pedagógicos e professores em função de todo um conjunto de aprendizagem, ensino e práticas inclusivas, para alunos com e sem deficiência, por meio de pesquisa teórica e de campo.

Hoje em dia, após encontros internacionais como o de Salamanca, esforços de pessoas com deficiência e governos em tratados de direitos humanos como a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, implementado pela ONU e ratificado pelo Brasil como lei constitucional, a mídia aproximando o conhecimento e a imagem das deficiências e das pessoas que as têm de um público antes ignorante, as inúmeras tecnologias assistivas desenvolvidas proporcionando funcionalidade às outrora incapacidades, a luta pelo tomar conta de si mesmo e o poder de nossas próprias vidas e decisões, vem tornando a pessoa com deficiência alguém a quem se deve valorizar mais a humanidade que a deficiência, tornando sua diferença cada vez mais próxima de todos. Essas são as verdadeiras educação e escola inclusiva existentes no mundo atual.

Entretanto, para tudo isso acontecer a ideia precisou ser lançada, alguém teve de aprender e ensinar àqueles menos atentos e mesmo àqueles que estão iniciando a vida agora e, para isso, a escola inclusiva começa a tratar a convivência inclusiva, o pensamento inclusivo, o sentimento inclusivo, a atitude inclusiva. Tudo isso para que, um dia, de tanto já termos nos acostumado às diferenças não pensemos mais em inclusão, pois sua existência pressupõe a exclusão e, mesmo em sonho, um dia cheguemos à igualdade, cada qual com suas características que nos distingue uns dos outros e que nos unem.

Uma pessoa cega de hoje pode ir à faculdade com seu notebook associado a um leitor de tela, fazer as anotações de sua aula, provas, ler livros digitalizados e estudar com menos dificuldades, pois já existem leis que obrigam essas universidades a terem recursos facilitadores. Esse processo tem agora de descer a escada hierárquica dos estudos e chegar à criança desde a pré-escola.

Tudo isso já existe, porém ainda esbarra no desconhecimento de alguns que teimam em ver as pessoas com deficiência como seres defeituosos que não deveriam estar em ambientes que não fossem feitos para eles e que todos soubessem como lidar. A escola inclusiva vem mostrar que não existe concreto em ideias e costumes, que todos os ambientes são certos e adequados a todas as pessoas através de um desenho universal e que seres defeituosos são todos que não sabem construir, evoluir com a humanidade de todos nós. Esse livro é uma oportunidade para todos, mais uma semente a nos provocar.

Comecei esse prefácio escrevendo que "eu era um sujeito comum". Eu diria aos leitores que eu continuo aquele sujeito comum, mas com tantos acréscimos nesses 32 anos de cego, de convivência com colegas cegos e com amigos com e sem outras deficiências, de tantas voltas na vida aprendendo e reaprendendo, com tantas derrotas frustrantes a me fazerem crescer e vitórias a me dizerem que vale a pena todo esse amor que tenho pela vida, que dizer que continuo a ser somente aquele sujeito comum é demais. Seria negar momentos bons como esse de escrever agora o prefácio de um livro que gostei muito, que aprendi e o qual recomendo a todos que queiram também crescer esse pedaço que cresci com ele. Que bons olhos o leiam, bons ouvidos o escutem e boas mãos o tateiem.

Marco Antonio de Queiroz - MAQ. Outono de 2010.


Livro de Rose Reis de Souza - UNIP.
Prefácio: Marco Antonio de Queiroz - MAQ.
Cia dos Livros - 102 páginas.
Exemplar acessível juntamente com um cd com a versão em Word.